“Racismo” divide extrema-esquerda

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O termo “activista” é, em si mesmo, uma imposição do marxismo cultural que domina a sociedade europeia de hoje: presume-se automaticamente que “activista” é um respeitável militante da extrema-esquerda que se notabiliza pela sua “actividade” desestabilizadora. Foi com este sentido de veneração quase religiosa que o egrégio presidente da Assembleia da República, o ex-estalinista Ferro Rodrigues, se “solidarizou” esta semana com as dez pessoas que receberam nas suas caixas de correio electrónico uma estranha mensagem de ameaça alegadamente “racista”.

A estranheza começava logo no cabeçalho da mensagem: “Informe da Nova Ordem de Avis – Resistência Nacional”. Fontes policiais sublinharam para O DIABO as duas contradições ali detectadas: antes de mais, “Informe” é uma expressão típica do léxico comunista, exclusivamente usada na literatura burocrática dos PCs sovietistas (como, por exemplo, em “Informe do Comité Central”); em segundo lugar, a autoproclamada “Nova Ordem de Avis – Resistência Nacional” não existe, sendo uma mistura tosca de uma organização de facto existente (a “Resistência Nacional”) e uma imaginada “Nova Ordem de Avis”, que decalca o nome da Ordem Militar de Avis, uma ordem honorífica cujo Grão-Mestre é, por inerência, o Presidente da República.

RN desmente

A estranha mensagem, numa linguagem ideologicamente desarticulada e desconexa, dizia apenas: “Informamos que foi atribuído um prazo de 48 horas para os dirigentes anti-fascistas e anti-racistas incluídos nesta lista, para rescindirem das suas funções políticas e deixarem o território português. Sendo o prazo ultrapassado, medidas serão tomadas contra estes dirigentes e os seus familiares, de forma a garantir a segurança do povo português. O mês de Agosto será mês da luta contra os traidores da nação e seus apoiantes. O mês de Agosto será o mês do reerguer nacionalista”. Dez foram os “activistas” que receberam a mensagem: Joacine Katar Moreira, Mamadu Ba, Mariana Mortágua, Danilo Moreira, Jonathan Costa, Rita Osório, Vasco Santos, Luís Lisboa, Melissa Rodrigues e Beatriz Gomes, todos identificados com o Bloco de Esquerda e outras organizações extremistas.

O movimento “Resistência Nacional”, cujo nome foi usurpado, imediatamente negou o envio de e-mails com ameaças, assegurando que mantém o respeito pela legalidade: “Repudiamos qualquer tipo de intimidação física ou psicológica a quem quer que seja”, declarou o movimento, citado pela RTP, adiantando que “não temos qualquer ligação a esse movimento (Nova Ordem de Avis) nem aos seus intervenientes”. A “Resistência Nacional” define-se como “um movimento do século XXI” independente de “movimentos do passado”, que se prende com a “defesa do património cultural português e identidade das suas gentes”. E concluem: “Entendemos Portugal no contexto das nações europeias, na riqueza da diversidade do povo europeu e matriz cultural europeia”.

Chega repudia

Quem seriam, então, os verdeiros autores da mensagem supostamente intimidatória? A O DIABO, fontes policiais não escondem um enorme cepticismo quanto à possibilidade de um verdadeiro grupo da direita radical ter cometido a imprudência de fornecer à extrema-esquerda um pretexto gratuito para uma campanha pública. De resto, a Polícia Judiciária iniciou já uma investigação ao caso, como lhe competia depois de receber uma queixa do Bloco de Esquerda e da organização SOS-Racismo. Uma pesquisa informática na Internet parece ser o primeiro passo dos investigadores. O Ministério Público confirmou também ter aberto um inquérito, anunciando que “serão investigados todos os factos que vieram a público nos últimos dias”.

Que a estranha mensagem serviu para a extrema-esquerda lançar mais uma campanha contra aquilo a que chama “a direita racista e fascista”, disso não restam dúvidas. Ao mesmo tempo, várias associações africanas (como ‘Movimento Negro’, ‘Afrolis’, ‘Djass’, ‘Consciência Negra’, ‘Femafro’ ou ‘Aurora Negra’, algumas delas defensoras de um afrontamento rácico entre portugueses) publicitaram uma “carta aberta” em que intimam os políticos a que “demonstrem a sua solidariedade para com as vítimas destes ataques”. E exortam: “A negação e inacção sistemáticas é o leito da impunidade do racismo que tem escalado para níveis a que já nos tínhamos desabituado. As nossas vidas importam. O silêncio das instituições é cúmplice”.

André Ventura, líder do Chega e promotor de manifestações de negação do racismo em Portugal, admitiu que as alegadas ameaças a “activistas” “podem bem ser manobras da esquerda”. E comentou: “Basta ver que o presidente do SOS-Racismo apressou-se logo a atribuir ao Chega e a mim próprio uma espécie de autoria moral destes actos, o que é verdadeiramente deplorável. Já não sabem o que hão-de fazer para afectar o Chega e estancar o seu crescimento eleitoral”. Para que não restassem dúvidas sobre a sua posição de princípio, Ventura concluiu: “O Chega repudia todos os actos de ameaça e coacção sobre deputados ou activistas, mas gostaria de ter visto a mesma atitude de Ferro Rodrigues quando se multiplicaram as ameaças de morte sobre o presidente do Chega”.

“Colectivos”
desavindos

Mas até nesta ocasião as proverbiais quezílias entre grupelhos da extrema-esquerda tinham de vir à superfície. Depois de uma “Frente Unitária Antifascista” (FUA) ter organizado no último fim-de-semana manifestações sob o lema “Unidos contra o fascismo” em Lisboa e no Porto, ambas com fraca assistência, cerca de 20 “colectivos e associações anti-racistas” acusaram publicamente a FUA de actuação “desleal, oportunista e sectária”

Num comunicado enviado às redacções, aqueles grupúsculos afirmam que as manifestações foram realizadas “sem consulta nem envolvimento prévio dos colectivos anti-racistas, nem mesmo das pessoas que sofreram ameaças na última semana”. 

Mais: os mesmos “colectivos” afirmam que “esta não é a primeira vez que acontece, são já vários os episódios lamentáveis nos últimos dois anos. Referimo-nos não só a insultos nas redes sociais e presencialmente, quando não mesmo comentários racistas e machistas, por parte de dirigentes da FUA a activistas racializados e organizações anti-racistas, mas também tentativas de apropriação e usurpação de acções políticas protagonizadas por colectivos anti-racistas”, acusam, aparentemente insatisfeitos com o cunho mais “anti-fascista” do que “anti-racista” das manifestações ou, talvez mesmo, com a possibilidade de a direcção da FUA não albergar um número satisfatório de africanos. Entre os “colectivos” protestantes estão ‘Afrolis’, ‘Brigada Estudantil’, ‘Colectivo Resistimos’ ‘Instituto da Mulher Negra em Portugal’ e ‘Associação Cultural de Afrodescendentes’.

Nem nisto se entendem! ■