As clamorosas mentiras do 14 de Julho de 1789

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A República Francesa celebra dentro de dois dias a sua Festa Nacional, assinalando o episódio da Tomada da Bastilha – primeiro acto sangrento de uma Revolução que poria fim ao Antigo Regime e instauraria o terror jacobino. Nesta empolgante exegese histórica, o Professor Doutor Soares Martínez desmonta o mito segundo o qual o povo de Paris, “desvairado pela fome”, teria decidido assaltar a Bastilha e dela libertar os presos vítimas da “opressão real”, e procede à reconstituição exacta dos acontecimentos que há 230 anos impulsionaram uma revolução que ainda hoje influencia o pensamento europeu.

1. A França, nação admirável que tem resistido a todas as revoluções
Parece de justiça reconhecer que a França é uma nação admirável, a qual, não tendo perdido o rasto do seu rei, São Luís, e da sua heróica Joana d’Arc, mantendo a fidelidade ao credo católico, após as sangrentas guerras de religião, se tornou de tal modo paradigmática, em variadíssimos planos, que a língua francesa não foi apenas a fadada para o trato diplomático, mas também a adoptada, como língua de corte, em muitas capitais. E, quando a França conseguiu expulsar os ingleses das suas colónias da América do Norte, impondo, em 1783, pelo tratado de Paris, a independência dos Estados Unidos, ficou certo que cabia à França a hegemonia no concerto das nações. 

Londres, porém, não se conformou com tal conclusão; e, ponderando que a derrota militar se devia ao regime parlamentar britânico, porque atrasara, ou impedira, a realização oportuna de operações gizadas pelos estados-maiores, os políticos ingleses decidiram provocar, em França, uma revolução, pela qual o poder político passasse do trono para um parlamento, cujo funcionamento travasse as potencialidades francesas.

Assim, as duas grandes potências, separadas pelo Canal da Mancha, ficariam em condições de igualdade. E como as grandes metrópoles sempre atraem grandes massas de marginais, de origem e destino incertos, de foragidos, de ambiciosos sem escrúpulos, há quem conte com elas para fazer revoluções. Em França, para além dessas massas anónimas, havia ainda, como disponível, até um membro da família real, o Duque de Orléans. 

E a Revolução Francesa fez-se. A França suportou-a, e resistiu-lhe, conforme resistiu, melhor ou pior, às outras revoluções que se lhe seguiram, sob o terror imposto por minorias ínfimas. E, das transigências em face das fúrias revolucionárias, ficou o dia 14 de Julho, como dia nacional francês. A França merecia muito melhor.

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