A ciência, a tecnologia e o ambiente

"Considero o Estado português um dos mais conservadores e incompetentes do mundo"

0
543

Os meios de comunicação social passaram a semana passada todo o seu tempo a debater a problemática do ambiente, devido à realização da Cimeira de Madrid e da passagem por Lisboa da jovem activista sueca Greta Thunberg. Na doca de Santo Amaro, para ver chegar a jovem Greta, estiveram muitos políticos que aproveitam habitualmente a presença de jornalistas para falaram sobre o que não sabem e propagandeando soluções miraculosas que não conhecem. O próprio ministro do Ambiente escreveu uma carta muito lírica à Greta Thunberg. Claro que este ministro é um bom exemplo do aumento dos problemas ambientais em Portugal, especialista que é de promessas não realizadas e de algumas ideias inúteis.

Pessoalmente, não sou um especialista do ambiente, mas sei reconhecer um vendedor de banha de cobra quando o encontro; e temos muitos em Portugal. Além disso, já em 1998 me preocupava com os problemas ambientais e já então pensava que os problemas existentes eram provocados pelo Estado e menos pelas empresas e pelos cidadãos. Além disso, como pensava então, como penso hoje, que a solução dos problemas ambientais, como da generalidade dos problemas sociais, dependem da inovação, do conhecimento científico e das novas tecnologias, apresentei uma comunicação no Instituto Pedro Nunes da Universidade de Coimbra, com uma explicação, que penso inovadora e a que chamei as “três fases da inovação”, texto que, no essencial, aqui reproduzo:

Fase Da Vinci
Quando os centros de decisão para a inovação se limitavam ao indivíduo inovador, com ou sem a ajuda de um patrono rico, período quando a inovação não era concretizada por falta de conhecimento científico, das tecnologias e dos materiais necessários. Da Vinci é o paradigma dominante desta fase, em que sendo espantosa a sua capacidade inovadora, também é óbvia a impossibilidade prática da sua concretização à época.

Fase Edison
Período do século XIX, em que, como por milagre, as mais importantes inovações do tempo foram aplicadas, revolucionando a economia e a qualidade da vida humana: lâmpada, comboio, automóvel, telefone, telégrafo. Tomas Edison pode aqui servir como exemplo, em que a centelha inovadora continua a ser o indivíduo, mas em que os centros de decisão para a concretização dos projectos passaram a ser as organizações, nomeadamente empresas e universidades. Mas a razão principal para que a invenção se realizasse naquele tempo próprio foi, sem dúvida, a existência das tecnologias necessárias.

Fase contemporânea
O modelo anterior continua a ser válido e largamente aplicado no nosso tempo, sempre que a complexidade do objectivo inovador não transcende o poder e os recursos das organizações empresariais existentes. Acontece, todavia, como procurei demonstrar, que as sociedades modernas se tornaram de tal forma complexas que as empresas são impotentes para conciliar as necessidades do mercado com as leis e os regulamentos existentes em cada país, com o objectivo de realizar um produto ou serviço, mesmo que a sua necessidade e a sua rentabilidade sejam óbvias. Nestes casos, de acordo com a tese que defendo, apenas o Estado, ou um conjunto de Estados, podem ter condições para, em cooperação com as empresas, responder de forma economicamente viável a muitas necessidades e oportunidades existentes na sociedade. Existe todavia um obstáculo para que assim seja: a inovação é uma condição natural dos indivíduos, a concorrência tornou-se uma necessidade de sobrevivência das empresas; mas quanto aos Estados, falta saber o que pode conduzir organizações burocráticas, com motivações fortemente conservadoras, a constituírem-se em centros de decisão e parceiros inovadores.

*

Há vinte e um anos, e numa instituição de ciência aplicada, não quis ser demasiado pessimista, mas já então sabia que Portugal não seria o local ideal para o que chamei a “Inovação de Estado”, como a via de dar satisfação às necessidades das pessoas e das sociedades, sempre que as empresas não tivessem o poder de organizar e colocar no mercado as tecnologias existentes. 

Tive a prova disso quando o petroleiro Prestige se afundou ao largo da costa da Galiza e o governo espanhol foi incapaz de retirar o crude no mar e esperou que chegasse à costa para, depois do desastre consumado, ser removido por milhares de pessoas munidas de baldes e pás. Foi a demonstração clara de que os Estados são incapazes de organizar mesmo as mais pequenas, simples e baratas das inovações.

Um outro exemplo foi quando, algum tempo depois, apresentei a dois clientes da minha empresa, um sueco e o outro inglês, a ideia de construir um electrodoméstico da dimensão de uma máquina de lavar, para moer papel e resíduos alimentares, comprimir latas e partir o vidro, para assim esses materiais poderem ser reutilizados. As empresas elogiaram a ideia, mas chamaram-me a atenção de que não tinham forma de organizar o mercado e a logística necessária para reciclar esses materiais.

Tive um outro exemplo, pouco tempo depois, quando organizámos em Portugal um pequeno grupo que compreendia a minha empresa de engenharia SET, a Bombardier e o IST, bem como algumas pessoas individualmente, entre as quais destaco o saudoso Professor Veiga Simão, grupo que apresentou um estudo ao Governo de Durão Barroso para criar vagões ferroviários capazes de transportar camiões carregados, a grandes distâncias. Cada camião entraria lateralmente no comboio através de uma plataforma hidráulica, o que permitiria carregar um comboio em poucos minutos. Pretendíamos apenas o apoio para construir um protótipo a levar a Bruxelas, a fim de demonstrar na União Europeia a possibilidade de retirar das estradas muitos milhares de camiões, inovação que apenas a União Europeia poderia financiar e concretizar. Depois de uma reunião com o ministro da Economia de então, tivemos uma outra reunião com três secretários de Estado e o projecto terminou com um deles a perguntar qual a razão, se a ideia era viável, para não ter sido ainda realizada, aconselhando-nos a procurar uma empresa espanhola. 

Por estas e outras razões, fui apreendendo, com o tempo e realidade da vida, que a tese expressa no texto das “Três Fase da Inovação”, apresentada em 1998 no Instituto Pedro Nunes, estava certa, o que o tempo tem vindo também a demonstrar. Depois disso, as empresas de todo o mundo continuaram a inovar em todas as áreas em que isso é possível, mas, infelizmente, apesar de todos os avanços científicos e tecnológicos que entretanto surgiram e aproveitados pelas empresas, são avanços em grande medida ignorados pelos Estados e pela União Europeia, avanços que poderiam beneficiar os cidadãos e reduzir os custos.

Os Estados Unidos no campo da defesa, o Japão e Singapura noutras áreas do conhecimento, são os melhores exemplos existentes da inovação de Estado. Infelizmente, nada acontece em Portugal neste domínio, além da vazia retórica ambiental, desperdiçando todas as oportunidades no campo da logística, do mar, do investimento estrangeiro e, naturalmente, do ambiente. Mas não só, limitamo-nos a ser as cobaias preferidas da União Europeia e, ultimamente, do expansionismo do Estado chinês – este um outro Estado fortemente inovador e o único que pensa a longo prazo.

Estas são algumas das razões por que considero o Estado português um dos mais conservadores e incompetentes do mundo e me desgosta que milhões de portugueses se prestem a manter no poder este conjunto de personalidades incapazes e ignorantes, apenas porque são faladores e têm presença garantida nas televisões. ■