A democracia de papel

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A democracia falada é a que não custa, a que fica bem apregoar, aquela de que nunca se duvida, a que consta das Constituições e de outras cartas nobres. A que se transmite de pais para filhos, como valor maior, e reduto último de uma sã educação. 

– Toma lá meu pequeno! Não te deixo nada que estourei tudo em vinho e jogo, mas deixo-te o legado mais nobre que te poderia dar. O do respeito pelos outros. Pelas opiniões, pelas crenças, pela forma de ser, pela condição, pelas idiossincrasias. Isto, meu puto, é democracia! Isto, meu menino, é o que tu vais cantar aos quatro ventos, a plenos pulmões e de cravo na mão, de preferência, até que a voz te doa.

E fina-se o pai, sem explicar à cria que a democracia é como a pimenta e tem local próprio de ser aplicada nos outros, aí funcionando como refresco. Porque, quando nos toca, há nuances, desculpas, predicados e, para filhos de causídicos, estados de necessidade desculpantes. É que da democracia falada à democracia praticada há todo um caminho de pedras que os pés desaconselham. No limite, até se poderia cair no ridículo de ser um gajo sério e isso hoje, não sendo ainda crime, é exercício muito arriscado.

Curiosamente, a democracia até então encarada como manifestação filosófica ou sistema político, afinal mostrou-se conceito geográfico, coisa de latitudes. A democracia de esquerda é muito diferente da de direita. Tem todo um património imaterial, etéreo, inconspícuo. O conceito substantivo perde para uma massa delével, expungível ou moldável em função de conveniências pessoais ou temporais. Instrumento tão conveniente que até me admira como é que a esquerda ainda não o patenteou…

Ilustrando com exemplos práticos, que o povo gosta é de bonecos:

No PAN houve debandada (nunca um termo me pareceu tão adequado a um partido!) de mais de um terço da Comissão Política, acusando a líder de total asfixia democrática interna no partido. O que se estranha para quem opera com túneis de vento, permitindo a circulação de ar e o livre trânsito de bichos. Ainda assim, sendo a crítica interna e não sendo eu especialista na matéria, tê-la-ei por correcta até que a ciência (ou um qualquer pasquim) me demonstre o contrário. Apesar disso, e de ser necessário um congresso para rectificar os estatutos que, afinal, também não eram assim tão democráticos e levaram chumbo do Ministério Público, Inês Sousa Real não larga o poleiro (outro substantivo na mouche!).

O PCP eterniza um Jerónimo, que rivaliza com o papiro em que se escreveram os estatutos. Também aqui não há contestação interna, já que o degredo não é ameaça vã e castigo com suficiência.

No Bloco sucedem-se as demissões assim como Catarina sucede a Catarina. Vezes e vezes sem fim, umas atrás das outras. Sendo um partido muito mais moderno, aceita as críticas dando-lhes o mesmo destino que as Finanças dão às nossas reclamações de liquidação indevida de imposto.

Facto comum e curioso é que em ambos os partidos os dissidentes perdem voz. Funcionasse o SNS em condições e todos eles deveriam ter direito a consulta gratuita e com carácter de urgência num otorrinolaringologista (jamais pensei escrever esta palavra numa crónica política, confesso!). O maná de repórteres de câmara no ombro e microfone aprontado, apenas se desloca para a direita, seguramente por questões cinéticas. Deverá existir uma qualquer lei da atracção e deslocação em movimento que os impede de andar em direcção contrária sempre que em funções. Será que é a isto que se referem quando falam em mobilidade funcional?

Costa resolveu encarnar Mourinho, que passou de “special one”, para “happy one”. Ou, porque não joga na “Champions” e o registo remonta para tempos mais medievais, trocou de cognome, passando de “O Agremiador” para “O Parlapié”. O Costa do diálogo, inchado como um sapo por uma maioria gorda, fala com todos, recebe todos, entende-se com todos… calma, com todos não! Todos, excepto o Chega, essa coisa sarnosa que deve ter doença contagiosa que a Graça Freitas ainda não conseguiu descobrir. O que Costa se esquece é de algumas coisas básicas. Ainda que lhe custe a acreditar, é, novamente, primeiro-ministro, o que acarreta responsabilidades, deveres e uma postura acima dos seus esbirros pessoais ou políticos. Por outro lado, o Chega, independentemente do ele lhe chame, foi aceite como partido político (e mais escrutinado que qualquer outro, diga-se) e legitimado nas urnas como terceira força política. Não o receber, num protocolo institucional, não é só deselegante. É um atropelo frontal desmedido e uma afronta grave a todos os eleitores que lhe confiaram o voto. Costa não está a desmerecer Ventura. Está a desconsiderar quase quatrocentos mil portugueses…

Ricardo Araújo Pereira que, não sendo político tem perfeita noção do que representa em termos de audiências e de influência na intenção de voto, ensaiou igual feito, na televisão, em horário nobre, sem que a ERC ou a CNE tenham resolvido dar sinal de vida. Tão expeditas a apelar ao respeito e igualdade democrática que deu vida ao Livre em debates na Liga dos Grandes, ficaram de quarentena profiláctica quando André Ventura perdeu assento para o Tino de Rans como convidado do RAP. Uma vez mais, não se tratam de gostos, de afinidades ou preferências. Tratam-se de critérios, que devem ser objectivos, pré-definidos e iguais para todos. O tal eixo diametral da democracia, uma vez mais, contorceu-se para lá do aceitável.

E, pasme-se, a Casa da Democracia, com o patrocínio do Parlapié Costa, prepara-se para fazer exactamente a mesma coisa ao vetar o nome de Pacheco de Amorim para uma das vice-presidências da mesa. E não é um veto ao homem, por razões pessoais e subjectivas. É um veto a um partido que, democraticamente, ganhou o direito a nomear um vice-presidente. 

Se Portugal tivesse um Presidente da República, dificilmente este despautério e atentado democrático, teria lugar. Com ou sem cravos!

Viva Portugal! Viva a democracia de papel! ■