Derrotadas em apuros

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Catarina Martins e Inês Sousa Real, as desasadas da extrema-esquerda que desiludiram as respectivas clientelas eleitorais nas legislativas de Janeiro, estão a ver as suas lideranças fortemente contestadas. No Bloco de Esquerda e no PAN pede-se a demissão das líderes e uma mudança de rumo estratégico, depois de os bloquistas terem passado de 19 para cinco deputados e os animalistas terem perdido três dos quatro representantes que tinham na Assembleia. Ironicamente, entre os poucos eleitos estão as duas líderes contestadas.

No BE, onde tudo se passa em ambiente de secretismo estalinista, as críticas só se ouviram na praça pública porque alguns antigos dirigentes quebraram o voto de silêncio e denunciaram a estratégia perdedora de Catarina Martins.

Num primeiro momento, Catarina tentou ver se passava incólume por entre os intervalos da chuva. Mas perante o peso das acusações teve de vir a terreiro reconhecer que teve “uma derrota eleitoral pesada”, mas ainda assim remetendo a “análise das causas” para uma reunião posterior da sua direcção. As suas próprias responsabilidades pessoais, como líder, ficam diluídas num confortável “colectivo” anónimo. 

Na sua opinião, a culpa foi toda da “Mesa Nacional do BE”, que “decidiu os chumbos dos orçamentos do Estado” e “não foi capaz de comunicar as razões profundas” dessa decisão. Ela, Catarina, fica isenta de quota-parte no pior resultado do seu partido nos últimos vinte anos…

Também Inês Sousa Real, do partido Pessoas-Animais-Natureza, acha que não tem nada que se demitir. Tal como Catarina Martins, manterá o seu cadeirão no Parlamento, mais as mordomias inerentes, e só muito a custo a arrancarão da liderança do partido. Também começou, numa primeira fase, por manter-se invisível, a ver se ninguém dava por ela, mas o clamor dentro do PAN obrigou-a a vir à superfície.

O mais duro de todos os críticos tem sido o antigo porta-voz dos animalistas, André Silva, que defendeu que a actual líder deveria demitir-se e convocar um congresso eletivo. “Alguém que está à frente de um partido que tem os resultados que teve nas eleições autárquicas, que não assume essas próprias responsabilidades quando perde 75% do seu grupo parlamentar, a única saída digna e ética seria colocar o seu lugar à disposição, demitir-se e depois pensaria se se recandidataria ou não”. Silva afirmou ainda que, ao demitir-se da liderança, Inês Sousa Real deveria também deixar o Parlamento e “dar espaço a outra alternativa “.

Enquanto mais de dez dirigentes se demitiam da Comissão Política Nacional do PAN, a líder tudo fazia para empatar. Face às exigências de realização de um congresso electivo, a desesperada Inês afirmou que vai realizar um congresso, mas que caberá “às bases”, que vão ser “auscultadas” a partir deste fim-de-semana, decidir se será para eleger uma nova liderança. E a “auscultação” demorará, na sua estimativa, dois meses – o tempo suficiente para ela tomar posse do cadeirão de São Bento e instalar-se pesadamente. ■