Portugal merecia melhor

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Passaram quase duas semanas sobre as eleições legislativas e o terramoto a que alguns partidos foram sujeitos ainda se mantem na boca dos comentadores políticos e na profundeza das organizações partidárias.

Já muito se escreveu e falou sobre um conjunto de cidadãos que, nos diferentes canais televisivos, tecem considerações, análises e constroem cenários políticos especulativos, na maioria das vezes tendenciosos. Conviria perceber se por mera incompetência, se por outros desmandos ínvios.

É minha convicção que o que se passou nos últimos dias da campanha eleitoral não foi inocente e provocou sentimentos e receios no eleitorado com repercussões directas no resultado final.

Quem tem acesso ao comentário político tem, como é óbvio, o direito à opinião. No entanto, em democracia seria de esperar mais, muito mais, de uma imprensa que se diz livre e pluralista. Seria de esperar uma independência que não existe e uma isenção que se louvaria. Seria de esperar o mérito e uma informação clara, capaz e sem grilhões. A realização de inúmeros debates (alguns de grande qualidade que merecem louvor) não impediu a forma como os entrevistadores tivessem, ao longo dos mesmos, comportamentos diferenciados no tom e conteú-
do das entrevistas realizadas aos lideres partidários. Nalguns casos foi demasiado óbvio que o entrevistado se sobrepunha à mensagem. Alternando entre a vénia e o rosnar de cão raivoso, o entrevistador geria humores, distribuía sorrisos ou invectivava reparos em função do mensageiro. Podendo, a uns convidaria seguramente para jantar. A outros emprestar-lhes-ia a sogra por tempo indeterminado. 

“En passant”, recordo-me que, das poucas vezes em que o entrevistador foi notícia, não o foi pelos elogios da sua prestação, pela seriedade do seu trabalho ou pela pertinência das suas perguntas, antes pela posição de fragilidade em que colocou os entrevistados. Aquando de uma das entrevistas da ministra Temido, no início da pandemia, a turbe socialista e a esquerda disseminada nas redacções optaram por não questionar as respostas (que a ministra não tinha), antes as perguntas, apodando-as de ofensivas e de ataque ad hominem – que manifestamente não foi!

São circunstâncias destas, como já afirmei, pouco inocentes que nos criam por vezes a sensação que há duas realidades: a dos comentadores e pivôs de canais televisivos e a dura realidade do quotidiano dos portugueses.

A estrondosa vitória do Partido Socialista com maioria absoluta representa um castigo a toda a esquerda, quantas vezes pouco democrática e a raiar o fanatismo. O tempo dirá se algum dia voltam a levantar-se das cinzas. O papão do regresso da direita poderá representar o início de um declínio que os pode levar a meros partidos de protesto sem grande expressão eleitoral. Por incrível que pareça, colocaram o seu futuro nas mãos do seu, até agora, aliado António Costa.

A direita estilhaçou as esperanças de se assumir como alternativa. Na hora da verdade e do alto das suas vaidades, não teve a capacidade e inteligência de perceber que teria sido mais benéfico para o país um amplo consenso sobre os desafios que se aproximam.

A história diz-nos que, infelizmente, o Partido Socialista não tem associado ao seu desígnio uma postura reformista e criadora de novos horizontes para Portugal.

Este povo merecia outro resultado eleitoral que lhe resolvesse coisas básicas como o direito à saúde. As recentes notícias sobre o número de médicos que este ano se podem aposentar cria um cenário catastrófico após dois anos de Covid, em que tantos foram deixados para trás.

Na educação o panorama não se apresenta mais risonho. A carreira de ensino tem sofrido uma clara degradação que não passa só por questões salariais.

E que dizer da economia, em que o crescimento do salário mínimo nacional é fixado por decreto e tem que ser posteriormente subsidiado às empresas?

É por tudo isto – e não só – que os tempos futuros não são tranquilizadores. O país precisa de novos rasgos e não me parece que António Costa seja o impulsionador desses tempos. Terminar o mais importante debate televisivo com o líder do maior partido da oposição agarrado a um documento que pouco ou nada diz sobre o futuro é garantidamente preocupante.

Desejo, sinceramente, para o bem de Portugal e das suas gentes que esta maioria absoluta do Partido Socialista não termine como a última que tiveram capitaneados pelo (eng.º?) Sócrates. ■