A guerra de Putin

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A recente situação na Ucrânia obriga-me a interromper a minha promessa de dedicar os próximos textos aos erros provocados pelos governos do Partido Socialista durante os últimos anos, para tratar a questão da Ucrânia invadida pelos exércitos russos. Normalmente não trato assuntos internacionais, mesmo os que estão na ordem do dia, porque tenho a consciência de que a minha opinião é irrelevante nesse contexto, todavia este caso da invasão da Ucrânia é demasiado sério e demasiado pedagógico, para o deixar de fora das nossas preocupações.

A Rússia de hoje não é, no essencial, muito diferente da União Soviética e as decisões políticas de Putin relativamente à sua visão da Rússia imperial, controladora das nações vizinhas, é a mesma que levou Josef Stalin a acordar com Hitler a divisão da Polónia. Trata-se do mesmo desprezo pela lei internacional, pelo bem-estar dos povos e pelo seu direito a escolherem a forma de organização política e social que preferem em eleições livres e democráticas. O presente contorcionismo do PCP e do Bloco de Esquerda em relação aos últimos acontecimentos na Ucrânia é claro quanto à devoção democrática dos dois partidos. Entretanto, todo o apoio deve ser dado ao Governo português no sentido de condenar o horror da guerra desencadeada por Putin e fornecer o necessário apoio ao povo ucraniano e à participação das nossas Forças Armadas nas decisões a assumir no contexto da União Europeia e da NATO.

Durante as últimas semanas Putin fez sucessivas declarações de que a Rússia não invadiria a Ucrânia e não consigo compreender que ainda haja pessoas que tentem justificar este ataque brutal ao direito internacional, às populações indefesas e, na prática, ao Ocidente democrático. Porque, tal como nos anos do regime comunista, o que está em causa é uma luta de sobrevivência das democracias em presença de oligarquias antidemocráticas violentas. E ao dizer isto, não estou a escamotear os casos da ex-Jugoslávia ou do Iraque, onde fiquei sempre do lado certo da história, mas apenas a afirmar que os Estados Unidos são um país suficientemente democrático para no último século ter vindo à Europa defender os europeus por duas vezes e os americanos tenham sempre superado, por direito próprio, os ataques internos à sua própria democracia.

Quando há algumas semanas se iniciou o debate sobre a questão da Ucrânia e das queixas de Putin sobre a possível entrada da Ucrânia na NATO, o meu primeiro pensamento foi sobre a possibilidade de tornar aquele país um Estado independente e neutro entre as ambições da Rússia e do Ocidente. Não escrevi então sobre isso, porque me recordei de Munique em 1939 e da forma como os ditadores usam sempre a diplomacia para enganar e dominar os povos, aproveitando as fraquezas resultantes da sua vontade de paz. Acabei por concluir que Putin não era uma excepção e que a guerra seria, provavelmente, inevitável.

Agora, a questão é a de saber até onde nos levará esta guerra, procurando não esquecer que é, para já, uma guerra entre países com capacidades nucleares e, como é habitualmente reconhecido em todas as guerras, sabe-se sempre como começam, mas nunca como acabam, o que nas actuais
circunstâncias de avanço tecnológico é aterrador. Assim, não sei como acabará esta guerra, apenas sei que esta guerra é apenas desejada por Putin e que teremos de nos unir para o vencer, porque muito depende dessa vitória para o nosso futuro.

A Europa e os Estados Unidos devem neste momento difícil olhar não apenas sobre a forma de limitar os efeitos da guerra, mantendo activa a diplomacia, evitar actos provocatórios que comprometam a batalha da comunicação e serem capazes de ultrapassar as limitações do presente para olhar o futuro. Sendo que nesse futuro o desejável é colaborar com o povo russo no sentido da democratização do seu regime político. Muitos acharão este objectivo pessoal lírico, recordando a história e a cultura russa, mas pessoalmente não o faço porque vivemos anos poderosos de novas ideias, de novas tecnologias e de novas exigências e já não estamos no tempo dos czares russos, ou de Luís XIV.

Por outro lado, acredito que a democratização da Rússia e a participação deste país no processo de desenvolvimento económico da Europa e do seu povo será a forma mais eficaz de prevenir contra uma sempre possível guerra nuclear, porque não acredito em guerras limitadas, quando estão em causa grandes nações não democráticas e uma potencial concertação entre a Rússia e a China tira-me o sono.

O mundo do nosso tempo vive uma aceleração da mudança nunca vista e os problemas de hoje têm de ser vistos em antecipação dos remédios futuros. A União Europeia tem de abandonar a sua fase burocrática para aceitar uma nova fase política baseada na educação, no desenvolvimento humano em todas as suas dimensões e no mérito das ideias. Porque se a Europa se deixar aprisionar nos conceitos demissionistas e falsamente vanguardistas de uma certa esquerda, o fim da grande visão dos fundadores da paz europeia não passará de um bom sonho.

O europeu do futuro não poderá ter apenas melhor educação ou melhor nível de vida, mas ser um ser humano mais completo e com motivações mais transcendentes, com melhores comportamentos e com um mais amplo leque de competências sociais e políticas. Os países nórdicos abriram-nos alguns desses caminhos e anseio que tenham, entretanto, aprendido a lição de que a felicidade universal é uma construção que não se baseia apenas em desejos afastados da realidade.

Voltando à Ucrânia, a máquina de guerra está em marcha, onde, como sabemos, a verdade é a primeira morte a lamentar. Suponho que as explosões ouvidas esta manhã em Kiev não resultam da aviação russa, mas de atentados provocados localmente pelos russos. Seja assim ou não, Putin não deve enveredar por uma guerra de ocupação e pretenderá tão só enfraquecer o ânimo dos ucranianos e formar um governo fantoche e uma ditadura de fachada democrática. O desvario dos meios de comunicação atacando em todas as frentes e a cacofonia informativa que daí resulta são um mau serviço prestado à Ucrânia e à paz na Europa. Também aqui não basta noticiar aquilo que se pensa está a acontecer, mas antes tentar prever o que vai acontecer no futuro próximo.

Finalmente, sabemos que a Rússia tem fraquezas evidentes e não é economicamente muito forte, sendo a sua maior fraqueza o regime político baseado no poder de uns tantos oligarcas e numa opinião pública controlada. As sanções decretadas pela União Europeia e pelos Estados Unidos são importantes, mas devem ser adequadamente comunicadas ao povo russo e ter como objectivo principal a democratização do regime russo. Proibir os oligarcas russos de viajarem para o Ocidente é, provavelmente, um erro, porque acredito que eles e as suas famílias estarão demasiado envolvidos nos modelos de sociedade do Ocidente para perfilharem os pontos de vista e os riscos de Putin.

Ou seja, esta guerra poderá ser ganha pela inteligência e não apenas pelas armas. ■