Em traços gerais é isto! A Rússia é uma nação falida!

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A Ucrânia viveu cerca de 70 anos sob domínio soviético, conseguindo a sua independência em 1991 na sequência da queda da URSS. Desde então é um país independente reconhecido pela comunidade internacional, inclusive, pela própria Rússia. Putin ascendeu ao poder em 1999. Ou seja, a convivência entre o país e o governante vizinho leva mais de duas décadas. Nem sempre pacífica, é certo, mas nunca com a escalada de violência que se viu recentemente. O que se alterou, então? Segundo a narrativa russa – e com ressonância do Partido Comunista Português – a aproximação à NATO e à União Europeia, fazendo perigar as suas fronteiras. A isto, somam a necessidade de protecção de minorias oprimidas pelo governo ucraniano e o desrespeito por tratados bilaterais, nomeadamente os acordos de Minsk. A realidade histórica, porém, não é bem essa. Primeiro haverá que distinguir entre NATO e UE, já que a aliança internacional terá um cariz militar e a União um cariz maioritariamente económico. Duas situações distintas, portanto.

Podendo, no plano teórico, aceitar o argumento da adesão à NATO como uma ameaça, o mesmo deixa de colher por dois motivos: quer por interferir directamente na soberania ucraniana enquanto nação independente; quer porque outras ex-repúblicas soviéticas a ela aderiram (no caso da Estónia e Letónia fazendo fronteira com a própria Rússia) sem que daí resultasse drama maior. A questão é, pois, de outro jaez. A economia russa precisa da Ucrânia, pelo que a aproximação desta à EU representaria um rombo de enormes proporções. Assim, quando em 2013 o presidente Viktor Yanukovych cedeu às pressões do Kremlin para não assinar um acordo comercial com a EU, contrariando a vontade popular, o povo saiu à rua. A chamada “Euromaiden” durou cerca de três meses e culminou com a fuga de Yanukovych para a Rússia. Poucos dias tardaram até que o Conselho da Federação Russa adoptasse, por unanimidade, uma resolução autorizando Putin a usar a força militar contra a Ucrânia, ao que se seguiu a anexação da Crimeia e a guerra na província de Donbass, apoiando, descaradamente, as milícias separatistas pró-russas nas regiões de Donetsk e Lugansk, pela sua importância estratégica. Se a Crimeia nunca foi devolvida à Ucrânia, já o fim da guerra (alegadamente) civil foi negociada em Minsk. Dos acordos confrontaram-se a pretensão ucraniana de desarmar as milícias e recuperar o controlo fronteiriço e, do lado separatista, a imposição do Kremlin de que, para lá da autonomia e estatuto especial daquelas províncias, as mesmas pudessem usar do direito de veto em decisões estratégicas nacionais, como fosse a adesão à EU ou à NATO. Obviamente que estes acordos não eram para cumprir, como não foram cumpridos durante os oito anos que se seguiram. À excepção de movimentações de soldados e equipamentos russos em Donetsk, em 2016, prontamente travada pelos EUA, o “status quo” foi-se mantendo num clima de guerrilha, “limitando-se” a Rússia a armar as referidas milícias. A NATO foi reforçando as suas posições territoriais, numa lógica de proximidade ao governo ucraniano e de defesa dos aliados. Putin manteve-se sereno, já que, do outro lado do telefone estava um líder com o qual não se atrevia a medir forças.

Com a queda de Trump e de Merkl, os obstáculos político-militares perderam força. Uma Rússia depauperada por sanções europeias e norte-americanas por causa da Crimeia, com uma inflação galopante, uma taxa de desemprego a subir de forma consistente, a perda acentuada do poder de compra, a desvalorização gritante do rublo face ao euro ou ao dólar, um PIB em queda e um custo de vida incomportável para os russos, levantaram uma onde de contestação social sem igual. A reacção do líder foi culpar um inimigo externo e tentar unir as forças numa revolta comum, como perfeita manobra de diversão de quem pretende perpetuar o poder.

O salário mínimo na Rússia ronda os 152 euros. O médio pouco supera os 480. A renda de um apartamento (T3) na cidade custa cerca de 750 euros. Água, luz e gás, somam mais 100. E, à excepção dos transportes, tudo o resto tem um custo idêntico ao da Europa Ocidental. O PIB per capita desceu, em 2020, 14%. Em traços gerais é isto! Uma nação falida!

A UE avança com um manancial de sanções económicas, sem curar de avaliar o efeito “boomerang” que as mesmas podem ter a curto prazo e sem estar preparada para o impacto das mesmas. Fica a posição de princípio, em sede de resposta musculada, mas logo furada por regimes de excepção dos seus membros. A Itália excepciona bens de luxo, a Bélgica os diamantes, a Alemanha o gás. Entretanto, formaliza-se o pedido de adesão da Ucrânia que pouco mais vale que um gesto simbólico. Primeiro, pela tramitação legal e prazos que tal implica. Segundo – e bem mais sério – pela imperativa necessidade de intervenção militar, caso a Ucrânia fosse membro pleno dessa União – que não pretende e para a qual não está manifestamente preparada. Não há orçamentação conjunta da defesa. Não há exército europeu. Não há cadeias de comando institucionalizadas. E, acima de tudo, não há estratégia.

Portugal andou bem no apoio que prestou ao fornecer equipamento e outros meios logísticos, merecendo um registo de agradecimento do Presidente Zelensky. Não tardou o Miguel Tiago a demarcar-se desse apoio. Esse ser rastejante que confunde vidas humanas com posições de princípio, achando que o segundo se deve sobrepor. A uma mobilização social e humanitária a que já estamos pouco habituados, o PCP responde com mitigação de culpas e mãos cheias de nada. Vergonhoso o voto contra dos comunistas portugueses contra a atribuição de uma ajuda de emergência à Ucrânia por parte da Comissão Europeia. Lamentável a abstenção, na mesma votação, dos bloquistas. Patética a explicação de João Pimenta Lopes pretendendo defender o indefensável. Tristes, infantis e desonestas as justificações dos Joões comunistas: o Ferreira e o Oliveira. E baixo e inqualificável o amuo de António Filipe, capitulando perante a argumentação de Sérgio Sousa Pinto, esse perigoso fascista!

Convém não esquecer que estalinistas e trotskistas são contra a NATO e contra a UE. Convém que a imprensa o repita até à exaustão, para que, quando for votar, o eleitor esteja consciencializado que, por eles, será um Putin qualquer que nos defenderá. Excepto se a invasão for russa…

Esta será a nossa Ucrânia! ■

Nota – Deixo uma nota porque sempre me habituei a considerar as pessoas pelas suas posições, coragem, inteligência, honestidade e, sobretudo, independência, que valem muito mais que credos, clubes ou partidos. Ao Rui Sá que, não obstante ser militante comunista, não teve pejo em condenar a posição do seu partido em nome de um bem maior. E fê-lo em público, sem temores, sem baqueios, sem dogmas ou reticências. Pela capacidade de demarcação, pela ousadia, pela coragem e pela hombridade, o meu bem-haja e a devida vénia. É que, à semelhança dos outros, também os comunistas não são todos iguais.  

Temo é que, também o Rui, venha a ser a nossa Ucrânia…