Só um Ocidente a dormir ou a assobiar para o lado é que pode ter ficado surpreendido com o que se está a passar na Ucrânia.
Efectivamente, desde há muito que Putin foi, sem qualquer receio ou pudor, dizendo ao mundo qual o seu grande objectivo político e qual a estratégia para o conseguir.
Exemplo disso, é o que se passa na Bielorrússia ou nos territórios da Ucrânia ocupados, que ele agora, com todo o desplante, reconheceu como territórios independentes, isto já para não falar daqueles países minúsculos que gravitam à volta da Rússia e são por ela completamente dominados como, por exemplo, o Cazaquistão e o Azerbaijão, constituindo o embrião da nova União Soviética.
O Ocidente, sempre muito crédulo, padecendo desse terrível complexo que é o “complexo de esquerda”, ignorou – ou quis ignorar – o passado de Putin, desvalorizando o cargo que ocupou na sinistra e famigerada KGB, defensor do slogan “Uma vez comunista, sempre comunista!”.
É evidente que um indivíduo com este curriculum, defensor da ditadura comunista, jamais viu com bons olhos o desmoronar da chamada “cortina de ferro”, vivendo sempre com o fito de recuperar, se não toda, grande parte da extinta União Soviética.
O que se está a passar, que ele anunciou aos quatro ventos e só não viu que não quis, não é mais do que um pequeno grande passo nesse sentido.
Conhecendo as fraquezas do Ocidente, Putin não se fez rogado, continuando a destilar ódio e ameaças, ciente de que o Ocidente vai recuando ou agindo lentamente. Prova disso são as sanções que têm surgido a conta-gotas, ao invés de terem sido tomadas no primeiro minuto em que a Rússia estalinista, agora pela mão de Putin, invadiu a Ucrânia. E muitas mais medidas já deviam ter sido tomadas como, por exemplo, serem banidos todos os atletas, equipas e selecções russas de todas as competições internacionais. O Ocidente deveria ter tudo preparado para no minuto seguinte à entrada dos russos na Ucrânia, fazer o anúncio das retaliações e prestar todo o auxílio militar possível à Ucrânia – fornecimento de armamento, medicamentos, etc.
O que se passa na ONU é uma vergonha, vergonha essa ao nível do que é a própria ONU. Numa situação como a actual, independentemente dos Estatutos em vigor, uma organização que se apresenta como defensora da paz, virada para a paz, jamais pode consentir ter um membro que promove a guerra, que invade países independentes e ameaça outros, numa clara interferência nos destinos alheios. Refiro-me às ameaças proferidas à Suécia e à Finlândia. A Rússia, independentemente do peso que tem no seio da ONU – por culpa do Ocidente – deveria ter sido imediatamente expulsa da organização. Mas não. Pelo contrário, assistimos ao triste espectáculo da realização de umas votações-fantoche, sabendo de antemão qual o resultado das mesmas, exactamente porque permitem que a Rússia vote… Santa hipocrisia!
Por cá, há quem se espante com a atitude do PCP… Só quem tem a memória curta, é ignorante ou sofre do tal “complexo de esquerda” é que estranha, pois o Partido Comunista, além de nunca ter sido um Partido democrata ou defensor da democracia (retirou dos manuais a frase “ditadura do proletariado”, mas só para inglês ver, porque a doutrina manteve-se inalterada), continua a condenar a queda do muro de Berlim e a enaltecer o camarada Estaline, só e apenas o segundo maior criminoso do século XX. Apesar de condenável, tem o condão de ser coerente, o que não acontece com o Ocidente onde, em termos políticos, existem dois pesos e duas medidas.
Não acorde o Ocidente a tempo e horas, não mostre firmeza e não responda à altura, e o futuro será negro. ■




