Clarice Lispector e Vilém Flusser (IV)

0
844

Eis o que, de resto, Vilém Flusser havia já salientado num breve mais muito incisivo ensaio, “Da Língua Portuguesa”, publicado na Revista Brasileira de Filosofia (n°4, 1960, pp. 560-566). Atentemos nas suas palavras: “O que despertou o meu amor violento [para com a língua portuguesa] não foi, como talvez muitos possam pensar, a sua forma externa, a sua melodia, a riqueza em vogais, a facilidade enganadora com a qual ela se rende à boca. Muito pelo contrário, fiquei, durante anos, repelido por essa exuberância externa, que escondeu, aos meus olhos, a sua profundeza calma e escura”.

“O meu amor nasceu – como logo de seguida esclarece – quando, pela primeira vez, senti-me intimamente tocado pela trindade dos verbos ‘estar’, ‘ser’ e ‘ficar’ (…). Diante da minha visão interna, os monstros germânicos dissolveram-se no ar, as hydras gregas esconderam-se na sua lama primordial, e apareceram, sólidos, calmos, autênticos e simples, o ‘ser’, o ‘estar’ e o ‘ficar’, os pilares da ontologia”.

Como logo de seguida acrescenta: “Não dúvida que a confusão mística dos pensadores existenciais alemães, e o fervor do nojo dos pensadores existenciais franceses se evaporariam, se estes se decidissem aprender o português, e acompanho com estupefacção as tentativas (aliás impossíveis) de alguns escritores brasileiros de traduzir essa confusão e esse fervor para a sua língua. A confusão e o fervor são resultados das ontologias das línguas alemã e francesa, inimigas do existencialismo. A língua portuguesa, no entanto, tem uma ontologia superheideggeriana (…)”.

Por isso, como conclui, se forma assaz eloquente: “….todos nós, que falamos português, somos automaticamente filósofos existencialistas (…). Creio que a língua portuguesa, em sua inocência ontológica, clama por um filósofo que a possua sem violentá-la, e que proclame ao mundo as belezas do ‘ser’, do ‘estar’ e do ‘ficar’, num espécie de ´prolegómenos a todo o futuro existencialismo’. Mas, entende-se, uma tal filosofia seria intraduzível e clamaria, portanto, no deserto”.

Como muito pertinentemente observa António Braz Teixeira, no capítulo final da sua obra A “Escola de São Paulo” (MIL: Movimento Internacional Lusófono/ DG Edições, 2016, p. 304), capítulo que tem por título, precisamente, “A ontologia linguística de Vilém Flusser”, e onde começa por se referir a este ensaio do pensador checo: “É de lamentar que, ao que se presume, visto não referir nunca nenhum deles, o pensador checo não tenha chegado a conhecer a obra de Leonardo Coimbra, em especial o livro incomparável que é A Alegria, a Dor e a Graça ou os textos de Álvaro Ribeiro em que se prosseguia um trabalho filológico-filosófico em muito convergente com o seu.”. ■

Agenda MIL – 18 de Fevereiro, na Faculdade de Economia do Porto, Colóquio “Elites e Utopia: nos 100 anos da Seara Nova”.