A mentira como arma de luta política

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Depois de dois meses perdidos, a Assembleia da República reiniciou o seu funcionamento, um novo programa de Governo foi aprovado pelo PS e em breve iniciar-se-á o debate do Orçamento do Estado. Chegou, finalmente, a normalidade, mas não como a minha certeza, como a de outros portugueses, sobre a bondade das políticas do novo Governo, que no essencial são as mesmas dos últimos seis anos. O que justifica uma primeira pergunta: se as políticas usadas nos últimos seis anos atrasaram Portugal relativamente à grande maioria dos outros países europeus, porque será agora diferente?

Num país com instituições democráticas mais fortes e cidadãos mais interventivos poderíamos esperar a resposta do Governo, ou do Presidente da República, a esta pergunta, mas não em Portugal, onde o Governo foge a dar resposta às dúvidas dos cidadãos e constrói em permanência uma retórica largamente fantasiosa que é sistematicamente desmentida pela realidade. O PS e o Governo obstinam-se em não responder, ou a lateralizar, as grandes questões e as interrogações dos portugueses. Situação permitida porque os deputados da Assembleia da República não forçam os governos a responder, na medida em que foram escolhidos pelos líderes partidários e não pelos eleitores, protegem quem os escolheu e fazem-no não fiscalizando os actos dos governos. A maioria absoluta piorará ainda mais esta difícil relação do PS com a democracia e a verdade, nomeadamente através de um visível clima de autocontentamento que atravessa o partido e o Governo, o que reduz a sua exigência e a sua vontade de mudança.

O PS confia o seu futuro na convicção de que a maioria dos portugueses não sabe a diferença entre a realidade e a fantasia, entre a mentira e a verdade. Assim, não precisa de explicar as suas decisões, por mais absurdas e mentirosas que possam ser. Fogem quanto podem de quantificar os custos das suas propostas, ou de fornecer datas para a sua execução e mesmo o Orçamento do Estado é um faz de conta, que não é para cumprir e para isso inventaram as cativações. A transparência é proclamada, mas na prática sistematicamente negada.

A oralidade é uma arma secreta do PS, porque a palavra escrita é perigosa dado sobreviver ao tempo e compromete o autor, o que é indesejável para o PS. Uma grande parte da comunicação social participa do embuste e as televisões passam horas a discutir o sexo dos anjos, sem que alguém saiba quantos são os anjos e o que realmente fazem. O curto prazo, as várias decisões para um mesmo problema e a complexidade criada para o que é simples, ou mesmo óbvio, abundam e confundem os cidadãos indefesos ou simplesmente distraídos.

Como os leitores já sabem, nunca escrevo nada sem que não faça a demonstração das minhas afirmações com exemplos concretos, como os dois exemplos que aqui deixo. Não poucas vezes, desafio mesmo os visados a desmentirem o que escrevo, como ainda agora aconteceu neste jornal com afirmações sobre a ferrovia que, como então prometi, enviei por carta ao ministro Pedro Nuno Santos. Nada, silêncio absoluto, nem sequer a ameaça de um processo em tribunal, o que seria uma oportunidade para se conhecer de que lado está a verdade, nada, os governantes sabem o que a casa gasta e responder com verdade às dúvidas dos cidadãos não é a sua ideia.

Este Governo, que hoje entrou oficialmente em funções, no dia em que escrevo, já iniciou com a naturalidade da experiência adquirida, a sua missão de mentir. O primeiro caso, uma notícia que relata ter o ministro do Ambiente e Acção Climática, Mendes Cordeiro, dito o seguinte: “Centrais a carvão não vão ser reactivadas. Seria mais caro e dependeria da Rússia”.  Trata-se de uma mentira óbvia, história de crianças, porque o carvão existe amplamente disponível no mercado internacional e a Rússia é apenas o terceiro fornecedor mundial. Além disso, o carvão é o combustível mais barato do mercado e muitos países, nomeadamente a Alemanha e a Espanha, estão a recorrer ao carvão para embaratecer a sua produção de electricidade. Além disso, o ministro fez a afirmação achando desnecessário apresentar as razões porque é o carvão mais caro do que importar a electricidade, sendo que o investimento nas centrais do Pego e de Sines está feito há muito.

Caso dois: o ministro das Infra-estruturas, Pedro Nuno Santos, continua a mentir de forma óbvia dizendo que a bitola ibérica não é um problema para ligar os comboios portugueses ao centro da Europa, sendo espantoso que não sinta a necessidade de explicar como é que isso se faz. Com o resultado de Portugal ter acabado de perder um investimento da “Volkswagen” para uma fábrica de baterias, que foi para Valência em Espanha a fim de aproveitar o transporte ferroviário de bitola UIC do Corredor Mediterrânico, sem qualquer transbordo, para todas as fábricas europeias da empresa. Trata-se de um investimento de 4,5 mil milhões de euros e 3.000 postos de trabalho perdidos para Portugal, além de que, mais tarde ou mais cedo, a “AutoEuropa” ficará em perigo de fechar pelo mesmo motivo.

O primeiro-ministro, por sua vez, é um mestre na arte das meias verdades e usa abundantemente no seu discurso a qualidade e a comunicabilidade da forma, para esconder o conteúdo. Muitos portugueses gostam dos discursos de António Costa quando o ouvem falar com grande convicção e aparente sinceridade, mas sem questionarem o conteúdo daquilo que é dito.

Na apresentação do programa do Governo, o ministro da Economia, António Costa Silva, estabeleceu uma diferença positiva em relação aos outros ministros, através de um discurso razoavelmente coerente e, diferentemente do texto que escreveu de inspiração ao PRR, apontou objectivos concretos para a economia portuguesa, bastante mais exigentes do que é habitual e que subscrevo. Contudo, há que esperar para ver, porque o modelo económico que defendeu para Portugal está em completa contradição com tudo o que foi feito pelo PS nos últimos seis anos. Nas respostas aos deputados já não foi tão coerente, mas, mesmo assim, para minha surpresa, salvou o dia.

A questão da economia e o crescimento económico representam o nó górdio da legislatura e a necessidade central da acção do novo Governo nos próximos quatro anos, que sabemos serão caracterizados pelo recrudescimento da inflação. Por outro lado, a ausência de organização da administração pública com a sua carga de burocracia, o funcionamento errático e tardio da Justiça, a emigração dos jovens talentos, a falta de capitais para investir e a fragilidade do investimento estrangeiro em sectores industriais que contribuam para melhorar os salários, não permitirão reduzir de forma sustentada a dívida pública, cujos juros aumentarão. 

O Governo acha que o diabo prometido por Passos Coelho não chegou, todavia ele anda por aí, bem visível na incapacidade dos governos do PS em compreenderem que a solução dos nossos problemas não está em gastar o dinheiro da União Europeia em mil projectos diferentes, não poucas vezes contraditórios, em vez de, como defendo, apostar em dois objectivos: educação e industrialização. Cujo fim seria reduzir o peso da economia dual no conjunto da economia, em que 90% das empresas portuguesas são muito pequenas e não crescem, o que não permite a melhoria da produtividade e dos salários.  O diabo está aqui. ■