A TAP não anda… boa

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A polémica do momento fez-me recordar uma pequena história que tinha como protagonistas um conjunto de criativos, no verdadeiro sentido da palavra, que tentavam, num fervilhar de ideias, sair-se com o melhor “slogan” para a companhia em apreço. De repente, um profícuo portuense, num lampejo de genialidade, solta a plenos pulmões: “a TAP não anda, Boa”, numa conhecida troca dos “v” pelos “b”, característica daquela região.

Dada a incapacidade de perceber o óbvio, pareceu-me de bom tom recuperar aqui este episódio para fazer um aviso àqueles que parecem esquecer-se que a empresa que gerem é de aviões, mas daqueles que têm asas e não dos restantes. Julgo, aliás, que este episódio triste deveria figurar em qualquer manual e compêndio de “case studies” internacionais sobre boas práticas de gestão nas diversas universidades da matéria (risos).

Tudo na saga da aquisição anedótica da frota da TAP, que já se desdobrou desde o seu início em vários capítulos, é delicioso se os gestores e quem administra não entendem isso. Então, chegamos à conclusão que, embora possamos estar a formar óptimos profissionais, e até isso aqui é questionável dado o panorama económico-financeiro da empresa, estamos, decididamente, a formar péssimos seres humanos e disso ninguém tem dúvidas.

A situação é de tal ordem que me leva a nem saber por onde começar, se ao facto de uma empresa intervencionada com dinheiro público da maior parte dos portugueses em milhões de euros ter reforçado uma mordomia provinciana de mais de cinco dezenas de gestores, com a renovação de uma frota de 50 automóveis “BMW”; se ao facto deste privilégio exuberante existir numa empresa tecnicamente falida; se ao facto disto suceder numa altura em que os diversos trabalhadores não bafejados pela sorte de pertencerem à “classe” superior hierárquica dos gestores verem os seus direitos, e não privilégios, serem retirados ou suspensos; se ao número a todos os títulos exagerado de gestores que existem nesta empresa com um passivo totalmente incompreensível; se ao serviço que esta empresa presta a clientes com valores de bilhete que não comparam praticamente com nenhuma outra operadora; se à forma insultuosa como a medida foi vendida pelos próprios na comunicação social, como um bom contrato que iria poupar umas largas dezenas de milhares face ao anterior, sem esquecer, claro, do cancelamento atabalhoado do referido contrato, após ter sido adjudicado, e que agora está prestes a ser alvo de um pedido de indemnização por parte da empresa; se ao facto dos gestores precisarem todos de se deslocarem para todo o lado de automóvel que justifique um carro de serviço para todos, ou ainda de ter acabado de chegar parte da frota entretanto já encomendada – haja alguma coisa que pelo menos chega a horas nesta empresa. 

Já que não são os aviões que andam no ar, ao menos que sejam os que não têm asas, ironias à parte, está na hora de se dissecar esta medida e explicar, por A mais B, qual o motivo porque tudo isto é um disparate e deveria ter sido uma das primeiras mordomias, que é disto que se trata, a cortar, ao invés de não só a manter como ainda a reforçar.

Pergunto, os referidos gestores não têm carro próprio? Não poderiam deslocar-se no seu carro como todos os portugueses para irem para o trabalho, sendo-lhes pago um subsídio variável e não fixo quando as suas deslocações assim o justificassem? Segunda pergunta, para que não digam que isto é algum tipo de preconceito classicista, os referidos gestores estão constantemente em deslocações pela empresa que justifiquem essa necessidade? Claro que estou certo que haverá algum responsável por parcerias, ou certos departamentos, que sim, mas todos, não é um pouco irreal? 

Pergunto ainda, os referidos gestores têm tantos anos na empresa como alguns trabalhadores a quem foram pedidos inúmeros sacrifícios ao longo deste processo de reestruturação? Os gestores têm tido algum tipo de desempenho excepcional que justifique, mais uma vez, esta desproporcionalidade na forma de tratamento que os distancia do comum dos mortais trabalhadores? 

Estas são as perguntas mais prementes, mas certamente haveria outras e a lista continuaria sendo que a cada pergunta que fazemos temos mais a certeza e convicção que tudo isto está profundamente errado, quer do ponto de vista moral, ético, empresarial e, sobretudo e o que é mais grave, humano, falhando em toda a linha com o compromisso salutar que uma empresa deve ter com todos aqueles com que se relaciona, os seus “stakeholders” que aqui são espezinhados, desconsiderados, enganados e insultados, quer pelas intenções, quer pela acção efectiva desta decisão.

Aos accionistas que somos nós, que colocamos dinheiro na TAP, desrespeitam-nos vergonhosamente, ignorando olimpicamente o compromisso fiduciário que em qualquer empresa privada saudável existe para com este grupo, sendo aliás, os primeiros a quem uma empresa deve responder, prestar contas e, sobretudo, respeitar. Se não acreditam vejam qualquer carta dos gestores de empresas aos accionistas existentes, aos utentes utilizadores pagadores. Ignora-se e desvaloriza-se prestando um mau serviço, cancelando voos, sugerindo voos alternativos impraticáveis com duas e três escalas, e não respeitando horários que assumem. Finalmente, os trabalhadores, verdadeiro activo estratégico e riqueza, ridicularizam-se, desconsideram-se e humilham-se constantemente, reduzindo-lhes, do ponto de vista da sua dignidade, o seu salário e as suas condições de trabalho, ao mesmo tempo que se lhes lembra que não são iguais àqueles que decidem todas estas coisas.

Em resumo, a TAP continua a ser uma empresa que não cria nenhum tipo de valor e tem, como se vê, pouco valor, quer no entendimento tangível como intangível, pois gerida por pessoas que deveriam ser as primeiras a ter uma ética irrepreensível e uma inteligência emocional grande, ao invés de uma alienação, diria mesmo de uma falta de noção da realidade que têm em mãos.

Por tudo isto não se augura, portanto, um grande futuro, sobretudo no momento de enorme selectividade que a economia irá atravessar nos próximos anos, em que se prevê uma redução significativa do número das empresas existentes, em que só as melhores, as mais bem geridas e que com melhor desempenho e talento ficarão na “paisagem” empresarial e económica.

Essas serão aquelas que não gastaram dinheiro com coisas supérfluas e entenderam desde cedo que a grandeza das pessoas e das coisas não se vê nas aparências, mas sim no interior. Até que isto seja entendido teremos sempre episódios destes, tristes e, o que é pior, de um provincianismo atroz, que fará sempre a TAP – qualquer que seja a sua dimensão e implementação geográfica – demasiadamente pequena, pois como é preciso lembrar, e retomando as palavras do génio da comunicação com sotaque portuense que trocou os “v” pelos “b” disse na sua imensa sabedoria, a TAP não anda, Boa! ■