Abstenção: o grande vencedor

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No Domingo, 26 de Maio, em Portugal, havia assembleias de voto que pareciam cidades-fantasma: desertas, atravessadas por um silêncio arrepiador, marcadas pelo abandono e pela inutilidade, com os atendentes de serviço bocejando por desfastio. Não admira: dos 10.786.049 cidadãos inscritos nos cadernos eleitorais, apenas 3.314.423 foram à boca das urnas depositar o seu voto: 30,73%. Se a abstenção fosse um partido, teria vencido com maioria absolutíssima as eleições para o Parlamento Europeu, com 69,27% do escrutínio.

Não votar é uma opção, tão legítima como a de pôr uma cruzinha no boletim de voto. Em alguns casos, resultará de preguiça ou comodismo; em muitos outros, porém, é um acto deliberado de protesto e recusa do sistema político, ou da hipocrisia que grassa na política, ou dos podres dos políticos, dirigentes partidários e gestores estatais que se comportam como “os donos disto tudo”. O silêncio abstencionista que ecoava, Domingo passado, pelas assembleias de voto era um grito ensurdecedor – de revolta, de indignação, de desprezo, em muitos casos de desistência.

A tudo isto ter-se-á juntado, como causa próxima, a pobreza confrangedora da campanha eleitoral, em que raramente se ouviu debater com seriedade um problema europeu. Para quê votar?, terão perguntado muitos dos sete milhões e meio de portugueses que ficaram em casa (7.471.626, mais precisamente).

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