Ainda lhe dão o benefício da dúvida, mas o “estado de graça” não durará muito. Mary Elizabeth Truss, 47 anos, nascida em Oxford quando em Portugal se vivia o Verão quente do gonçalvismo comunista, é feita de um barro muito diferente daquele em que foi moldada Margaret Thatcher. Esta nasceu e cresceu no conservadorismo mercantil, fez-se mulher e política contra a tendência dominante de esquerda num mundo dominado por homens e nunca se desviou do caminho traçado. Já Liz Truss formou a sua personalidade entre intelectuais esquerdistas e viu abrir-se à sua frente, sem grande esforço, o portal do poder, depois de ter andado aos ziguezagues pela política britânica.
“Acredito num futuro brilhante e melhor para o Reino Unido, tenho um plano audacioso que fará a nossa economia crescer e gerar salários mais altos, mais segurança para as famílias e para os serviços públicos”. Esta foi a primeira declaração de Liz Truss depois de, com a maioria dos 200 mil votos dos filiados conservadores britânicos, ter batido o seu único rival, o indo-britânico Rishi Sunak, na corrida à liderança do partido. Pouco depois, o demissionário Boris Johnson despedia-se da Rainha e Liz Truss entrava no nº 10 da Rua Downing como primeira-ministra do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte. Logo a seguir deu a receita miraculosa: “Isso será feito mediante a redução de impostos, impulsionando as reformas e eliminando os trâmites burocráticos que estão a travar as empresas”.
Mas prometer não custa, sobretudo quando, como ela, se tem uma vasta experiência partidária e governamental: sob diferentes governos, Truss foi subsecretária de Estado da Educação, secretária de Estado do Ambiente, Alimentação e Assuntos Rurais, depois da Justiça, depois ainda das Finanças e do Comércio Externo, antes de subir a ministra da Igualdade e, finalmente, dos Negócios Estrangeiros. Só agora, porém, com as verdadeiras rédeas do poder nas mãos, se verá o que Liz Truss sabe (e quer) mesmo fazer.
O principal problema de Liz não é o futuro: é o passado. Nascida no seio de uma família de esquerdistas oxonianos (o pai professor de Matemática, a mãe enfermeira), Elizabeth Truss cresceu entre manifestações de punho erguido contra Thatcher e protestos anti-nucleares. A casa da família era palco de constantes reuniões conspiratórias de militantes da ala mais extremista do Partido Trabalhista e dos Verdes. Na Universidade de Oxford, onde se formou em Política e Economia, foi uma activista das “causas da esquerda” e apoiante das hostes que reclamavam a abolição da Monarquia – e quando, no final do curso, “virou à direita”, o máximo que conseguiu foi filiar-se nos Liberais Democratas, um partido de centro-esquerda pró-União Europeia. Alinhou ainda em manifestações contra o Establishment, sendo fotografada de punho erguido vociferando contra a Rainha num “protesto” em frente a Buckingham Palace.
Foi, porventura, a sua experiência profissional no sector privado da economia (com destaque para a década que passou a trabalhar para a Shell) que fez Liz Truss cair em si e abraçar ideias mais conservadoras. Em 2010 foi eleita deputada pela primeira vez e iniciou a sua ascensão na escada partidária, apoiando sucessivamente os vários líderes eleitos.
Se o seu perfil de vira-casaca se esboçara já, foi nos últimos anos que ganhou proporções mais preocupantes, atendendo aos cargos de influência que veio ocupando. No famoso referendo de 2016 (há apenas seis anos) sobre o futuro do Reino Unido na União Europeia, Liz Truss fez convictamente campanha pela permanência. Como o ‘Brexit’ saiu vencedor, Liz depressa mudou de campo e tornou-se uma das vozes mais entusiastas da saída do Reino Unido da UE, a ponto de ser nomeada principal negociadora dos termos do ‘Brexit’ nas intermináveis reuniões com a Comissão, ganhando a fama de “dura”. Hoje é uma figura proeminente da corrente eurocéptica britânica e defensora feroz do militarismo.
O problema de todos estes ziguezagues não é a mudança de opinião (quem não muda?), mas sim o cepticismo que isso suscita na opinião pública. Numa sondagem do respeitado instituto YouGov, já depois de Liz ter ganho a liderança conservadora, mais de dois terços dos inquiridos (67%) declararam não acreditar ou não ter confiança em que a nova primeira-ministra seja capaz de dar a volta à situação económica do país (até no seu próprio partido a descrença é grande, com 34% dos conservadores a não confiarem nela).
Quando questionados sobre se Liz Truss será melhor do que Boris Johnson, 40% dos britânicos esperam o mesmo, 27% antecipam o pior e apenas 14% esperam uma melhoria.
Não admira, assim, que na eleição para a liderança conservadora Liz Truss tenha vencido Rishi Sunak, o antigo ministro das Finanças, por uma margem reduzida (57,4% contra 42,6%), a mais baixa votação desde que as eleições são abertas a todos os membros do partido.
Entre as principais promessas de Liz Truss está uma redução da carga fiscal, nomeadamente um corte no IVA até 5%, a reversão do aumento de 1,25% na taxa de contribuição para a Segurança Social e uma redução geral do IRC para as pequenas e médias empresas.
Casada com o contabilista Hugh O›Leary desde 2000 (com quem permaneceu apesar de um embaraçoso caso extraconjugal que manteve com Mark Field), tem duas filhas, de 6 e 13 anos. ■




