CDS unido para voltar ao Parlamento

Foi o momento mais emotivo do Congresso do CDS. Telmo Correia, o último líder parlamentar, subiu ao palco e, no final da sua intervenção, tirou da pasta a velhinha bandeira do CDS, em tons de azul e amarelo, que trouxe do Parlamento.

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Uma bandeira que esteve sempre no gabinete do líder parlamentar do CDS desde 1976 e foi com a voz visivelmente embargada que a entregou a Nuno Melo, dizendo que tinha toda a confiança de que o presidente do partido a devolveria ao seu lugar na Assembleia.

“O nosso objectivo tem de ser colocar esta bandeira no coração dos portugueses, para voltar a erguer na Assembleia da República, onde é o nosso lugar, e é onde temos de nos sentar” frisou Telmo Correia.

Com o Congresso emocionado, Nuno Melo subiu ao palco, abriu a bandeira e anunciou que por enquanto seria hasteada na sede do partido, no Largo do Caldas, mas prometeu que esta regressaria ao lugar de onde nunca devia ter saído.

Todo este acto simbólico acabou por concentrar assim o desejo dos mais de 700 militantes que encheram a sala do Centro de Congressos de Aveiro. Para um partido sem deputados este foi um grande Congresso e mostrou a vontade férrea de um líder que sabe ter de percorrer o caminho das pedras, mas acredita que lá chegará.

Sentimento partilhado pelos que não arredaram pé e participaram numa sessão que se prolongou por mais de 12 horas, já que além das mudanças nos estatutos o partido assinalou os seus 48 anos de vida e fez uma homenagem a Adriano Moreira, um ex-líder quase a fazer cem anos.

Numa frase, pode dizer-se que este foi o Congresso da superação.

Novo aeroporto

Cecília Meireles, outra ex-responsável parlamentar, pegou no tema do aeroporto dizendo ser necessário saber quando estará pronto e quanto custa. “Eu gostava de vos dizer que a solução de Alcochete custa sete vezes mais do que a do Montijo”. Acrescentou que o Governo não falou com o concessionário sobre a solução que concretamente lhe interessa e quanto isto custa. E lembrou que o país ainda anda a pagar muitas das PPP rodoviárias do tempo de José Sócrates.

O tema do aeroporto foi também destacado por Nuno Melo no discurso final do Congresso. O presidente do CDS-PP fez igualmente um balanço de 100 dias do Governo PS. “O que sucedeu com o novo aeroporto não é um incidente, não é um episódio. É um sintoma de uma governação que está em fim de ciclo”, disse durante o encerramento da sessão “CDS-PP 48 anos de história/Um partido com futuro”, após o congresso estatutário do partido.

Na apreciação que fez destes escassos dias de governação, Nuno Melo começou por dizer que o executivo liderado por António Costa parece “velho, desgastado, principalmente dividido”, adiantando que, na sua opinião, “Portugal não aguenta mil dias de um Governo assim”.

Referindo-se à polémica entre o primeiro-ministro António Costa e o ministro Pedro Nuno Santos sobre o novo aeroporto, o líder dos centristas disse não ser aceitável que uma obra “infra-estrutural do regime” tenha sido usada para “tratar de uma disputa dentro do PS”.

“Não é normal que num dia um ministro acorde e decida que milhões de uma obra vão ser investidos num sítio de sua recriação, sem articular a decisão com o primeiro-ministro. Não é normal que em democracia, o primeiro-ministro humilhe o ministro, lhe revogue o despacho, para no dia seguinte o manter no Governo. Menos é normal que um primeiro-ministro o faça porque tem medo do ministro”, disse Nuno Melo, afirmando que, se o CDS estivesse no Governo, o novo aeroporto seria inaugurado em 2023.

Falhanço nos fogos

No seu discurso, o líder centrista criticou ainda a falta de preparação da época de fogos florestais, assinalando que o Governo anunciou a aquisição de dois aviões “Canadair”, num fim-de-semana em que Portugal já estava a arder.

“Isto não aconteceu no Inverno, quando é suposto preparar a época dos incêndios para que os males não aconteçam. É anunciado em pleno Verão, com Portugal a arder, quando os aviões não estão cá. Mais socialista que isto não há”, declarou.

No plano interno, referiu que o CDS-PP está “vivo, forte e preparado para ir a votos”, anunciando que, como primeiro acto político de órgãos saídos deste congresso, irá pedir a Miguel Morais Leitão e António Lobo Xavier para, em conjunto com personalidades do partido, prepararem as bases do novo programa do CDS, que será discutido e votado num conselho nacional, a decorrer dentro de seis meses.

A sessão contou com a intervenção de muitos notáveis do partido. De destacar, para além de Cecília Meireles, Pedro Mota Soares e Paulo Núncio. Estas serão, seguramente, algumas das personalidades que vão ajudar a preparar as bases do novo programa do CDS.

Maioria nos estatutos

As alterações aos estatutos do CDS-PP propostas pelo presidente do partido, que incluíam a criação de novos órgãos e o fim das correntes internas, foram aprovadas por maioria expressiva neste congresso estatutário de Aveiro.

O presidente da Mesa do Congresso, José Manuel Rodrigues, disse que a proposta foi aprovada com 609 votos a favor, 18 contra e 20 abstenções.

As propostas dos militantes Nuno Correia da Silva e José Augusto Gomes foram rejeitadas, com 514 votos contra e 63 a favor e 70 abstenções, no primeiro caso, e 594 contra, 42 abstenções e 11 a favor, no segundo.

Não estando em causa a escolha de pessoas as votações na generalidade, decorreram todas de braço no ar num Centro de Congressos de Aveiro, que se encontrava integralmente lotado.

Extinguir correntes

A extinção das correntes internas como figura estatutária foi uma das propostas defendidas por Nuno Melo, que considera que a eficácia deste instrumento “é nenhuma”, uma vez que só existe uma, a “TEM”, Tendência Esperança em Movimento.

Um dos objectivos das alterações estatutárias propostas pela direcção será “abrir o partido a independentes” e valorizar “alguns dos principais activos” do CDS-PP.

Com as alterações aos estatutos aprovadas, foram criados novos órgãos estatutários no partido, como um Gabinete de Relações Internacionais, um Gabinete de Comunicação – de forma a profissionalizar e modernizar esta área – e um Gabinete de Apoio Estratégico e Programático, com áreas sectoriais específicas.

O presidente do CDS-PP adiantou que convidaria Luís Queiró para o Gabinete de Relações Internacionais e Maria Luísa Aldim para o Gabinete de Comunicação.

A criação de três lugares de coordenadores autárquicos adjuntos (Norte, Centro e Sul), novas regras para o Senado e para a eleição de delegados das organizações autónomas (JP e FTDC) são outras das alterações propostas pela direcção ao Congresso.

O CDS-PP lançou, entretanto, uma campanha para o pagamento de quotas pelos seus militantes, envolvendo apelos dos ex-presidentes Paulo Portas, Manuel Monteiro e Assunção Cristas, no âmbito do processo da “reestruturação financeira” do partido.

“Juntar Paulo Portas, Manuel Monteiro e Assunção Cristas, outros ex-dirigentes, como Pedro Mota Soares e Cecília Meireles, assim como militantes anónimos, é muito relevante e mostra um partido que, na esmagadora maioria dos casos, sabe ler as circunstâncias e reagir”, disse Nuno Melo. O CDS está a fazer um grande esforço para sanear as contas do partido, depauperadas pela liderança de Francisco Rodrigues dos Santos, e que se agravaram com a saída do Parlamento.

Ficar fora do Parlamento levou a que o CDS perdesse boa parte do seu espaço mediático. Há cada vez menos cobertura da vida política e partidária. ■