Comer gelados com a testa

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Hollywood, sabe-se, é a meca cinematográfica do ocidente, com todos os excessos que lhe são permitidos e as extravagâncias que a comunicação social faz por amplificar, normalizando-as. Na mais recente saga da “Casa dos Segredos” para ricos, que colou meio mundo a um directo televisivo de vários episódios, soube-se que Amber Heard elevou expressões idiomáticas a patamares muito práticos dando-lhes forma e colorido. O poio deixado no leito conjugal não foi simbólico, antes real e fétido, à semelhança da relação com Johnny Depp. As milhões de visualizações, de “tweets”, “posts”, artigos e o manancial opinativo que se seguiu à revelação, só mostra a grande marca publicitária que Hollywood representa e a exposição que daí resultou trouxe-lhe danos irreparáveis. Alguns no imediato, outros no futuro que, muito previsivelmente, lhe custarão a carreira. Tivesse ela contratado os “marketeers” do Governo português e a estória seria seguramente outra. Com efeito, por cá fez-se mais e melhor!

Há muito que Ferro Rodrigues cagou no segredo de justiça. Literalmente! E, ao contrário de Heard, não foi no âmbito de uma relação conturbada, com trocas mútuas de acusações. Tanto quanto se sabe, o segredo de justiça nada tinha feito a Ferro para merecer a sua soltura intestinal. Ferro foi apanhado a confessar nas escutas. Não negou, não procurou justificativas, não apresentou qualquer argumento que pudesse diminuir a sua culpa. Assumiu a merda como sendo sua. E como quem caga assim merece a devida recompensa, Ferro tornou-se Presidente da Assembleia da República, continuando com outras diarreias no exercício do magistério, profissionalizando-se. O que bem se percebe, já que o PS tem toda uma academia de dislates que formou grandes talentos, como Soares, Pinho, Cabrita, Ascenso, Galamba e outros, que não competem apenas na modalidade de arrear o calhau.

Já campeões indisputados na mentira, no engodo, na difamação, na desinformação, no amiguismo, no carreirismo, no bufo soviético e na pesca do robalo, destacam-se dois emergentes no “comer gelados com a testa”: José Luís Carneiro e Catarina Sarmento e Castro.

Face ao aumento exponencial e deveras preocupante dos fenómenos da violência juvenil e criminalidade grupal, as duas eminências concluem pela necessidade de constituir uma “task force” pluridisciplinar para avaliar as questões e, entre outras coisas, perceber qual o impacto da pandemia no grassar da violência. Solução que anda ao nível de contratar um podólogo para aferir se a ruptura da veia cava tem relação directa com os fungos das unhas e as calosidades…

Ressalta à saciedade que tais episódios de violência têm raízes muito mais profundas e antigas do que a pandemia e o confinamento. E o PS, tal como toda a sociedade, conhece-as bem, estando elas há muito identificadas em estudos sociológicos, nos relatórios anuais da segurança interna, em teses académicas, nas informações do SEF (que à força pretendem extinguir), nos observatórios da justiça e da inclusão social e até em paradigmas arquitectónicos relativos à “construção” das cidades, na integração dos bairros sociais, do desenho das vias rodoviárias, na proximidade dos serviços, na rede de transportes públicos e no próprio mercado de trabalho.

Todas estas implicações e derivações são sobejamente conhecidas. Mas há outras e de extrema importância. A começar por um plano delineado há décadas pela esquerda no que respeita à degradação consciente e propositada da educação. Portugal é hoje o país menos educado da Europa, encontrando-se 26 pontos percentuais abaixo da média. As premissas são simples e constam dos primeiros capítulos dos livros vermelhos: quanto menos educado for um povo, mais fácil é de controlar e quanto mais pobre mais obediente. Numa estória ora atribuída a Hitler, ora a Estaline, conta-se que este pegou numa galinha, a sentou no seu colo e foi depenando-a, pena por pena, causando-lhe um sofrimento atroz. De seguida libertou-a e ela fugiu para um canto da sala, o mais afastado possível do seu algoz. Lentamente, colocou pedaços de milho à sua frente até que ela voltou a sentar-se no seu colo para comer da sua mão. Foi isso que a esquerda foi fazendo com o ensino e com a educação nas últimas quatro décadas. Foi baixando o grau de exigência, consagrando passagens administrativas, premiando os menos esforçados e acenando-lhe com diplomas de competência que não valiam o papel em que são impressos. Rapidamente os escóis, agora doutores, foram rejeitados pelo mercado de trabalho que não lhes reconhecia as capacidades que o Governo lhes outorgou. Tornaram-se revoltados e sentiram-se injustiçados. Veio, novamente, o Governo em seu socorro, atribuindo-lhes subsídios, bolsas e abonos, para que a sua inutilidade e incompetência profissional averbasse mais uns cursos profissionais em matérias que nunca viriam a exercer. Paralelamente, enxofrou-os com “Big Brothers”, “Casas dos Segredos”, “Agricultores” e outros do género, abriu-lhes a porta das redes sociais sem quaisquer barreiras ou limites, moldou-os para competições de popularidade onde tudo vale para aumentar os “likes”, deu-lhes de bandeja as músicas de ódio, de raiva, de gueto, de raça que passam em “loop” nas rádios e TVs, endeusando os intérpretes que não sabem tocar ou cantar, mas que “representam” nichos de afirmação, centrou a discussão em causas menores, impondo-lhes a igualdade e o respeito por decreto de agenda política e não como valor humano e mostrou-lhes que os verdadeiros vencedores não são os que ganham, mas os que conseguem lá chegar, independentemente dos meios a que recorrem.

Os jovens, que mereciam uma educação, dela foram despojados a troco de emancipações para interrupções de gravidezes, de “piercings”, de “tattos”, de mudanças de sexo e de todo um conjunto de opções irresponsáveis que os marcarão para a vida. É confrangedor, hoje em dia, ouvir a nossa juventude falar nos cafés, nos autocarros, nas escolas sobre um vazio de nada, sem uma única opinião válida e fundamentada sobre política, economia, sociologia ou história. Mas são manipuláveis e votam, por isso há que mantê-los assim!

Pitágoras, o tal dos triângulos, dizia: educai as crianças e não será necessário punir os homens! Mas educar as crianças também lhes traz o sentido crítico, a capacidade de análise, a independência de pensamento e a liberdade de opções. Não convém à agenda de esquerda.

O que os dados nos dizem é que a criminalidade entre os 12 e os 17 anos aumentou, em 2021, 7,3% e a grupal em 7,7%. Já em 2019 (pré-pandemia), tinha aumentado 15,9%. Este ano, pelo rumo que as coisas levam, esses aumentos serão ainda maiores, com uma nota importante: a criminalidade está mais violenta, resultando em extorsão, homicídios ou ofensas à integridade física grave e com uso a armas. Grande parte destes grupos estão identificados, correspondendo, geograficamente, a bairros problemáticos da Grande Lisboa e ocorrendo, sobretudo, nas estações intermodais ou nas imediações de espaços de diversão nocturna. Seria, pois, relativamente fácil, impor sistemas de vídeo vigilância nessas zonas, com resposta imediata e reforçar a presença policial. A questão é que isso custa dinheiro e o que o Governo fez, à semelhança de tantas outras áreas fundamentais, foi desinvestir. Havia em 2021 menos 402 elementos nas forças policiais do que no ano anterior e, pela primeira vez na sua história, a Polícia Judiciária tinha um efectivo de menos de 1000 inspectores…

Daí que a criação de uma “task force” para “estudar o fenómeno e a sua relação com a pandemia” é atirar-nos areia para os olhos ou obrigar-nos a comer gelados com a testa. Ou então, o mais provável, é estarem, pura e simplesmente, a cagar em nós! ■