Nos oitenta anos de Arnaldo de Pinho (II)

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A este respeito, convoca um outro autor, Miguel de Unamuno, que cita nos seguintes termos: “A filosofia é um produto humano de cada filósofo e cada filósofo é um homem de carne e osso como ele. E faça o que fizer, filosofa, não apenas com a razão, mas com a vontade, com o sentimento, com a carne e com os ossos, com a alma toda e com o corpo todo. Filosofa o homem” (p. 146). Eis, curiosamente, uma questão que havia já sido motivo de reflexão por parte de um dos mais distintos discípulos de Leonardo Coimbra: José Marinho. Na sua primeira obra publicada, precisamente sobre o seu Mestre, escreverá, em réplica a Unamuno, que “um homem que não é filósofo é tudo menos um homem” (in O Pensamento Filosófico de Leonardo Coimbra: introdução ao seu estudo, Livraria Figueirinhas, 1945, p. 40).

Perante este aparente dilema – “um filósofo que não é um homem é tudo menos um filósofo” (Unamuno) e “um homem que não é filósofo é tudo menos um homem” (Marinho) –, Leonardo Coimbra – e Arnaldo de Pinho, na sua esteira – diriam, provavelmente, que ambas as teses são verdadeiras, tão verdadeiras quanto complementares. A vida dos dois parece, pelo menos, comprovar tal presunção: foram os dois filósofos (e teólogos) porque essa foi a sua forma (necessária) de serem humanos; e não deixaram por isso, enquanto filósofos, de serem humanos… No que respeita à vida de Leonardo Coimbra, salienta ainda Arnaldo de Pinho, citando António Quadros, que “quando a poderosa inteligência de Leonardo Coimbra surge na vida portuguesa, encontra uma situação mental esvaziada de conteúdo. A segunda metade do século XIX assistira por um lado à crítica da teologia católica ou do magistério eclesiástico e por outro ao triunfo intelectual de um pensamento estrangeirado nas linhas de força que, vindas do iluminismo setecentista, desembocavam no positivismo e idealismo” (p. 147). E eis-nos aqui perante um outro aparente dilema: se o pensamento filosófico é verdadeiramente universal, será essa universalidade necessariamente “estrangeirada”?

A própria vida de Leonardo Coimbra (e a de Arnaldo de Pinho) parece, uma vez mais, refutar esse equívoco que teima em persistir entre nós. Com efeito, se o pensamento filosófico (e teológico) é verdadeiramente universal, e só o será se assim for, essa universalidade não é necessariamente “estrangeirada” – pelo contrário. Daí a atenção de ambos, de Leonardo Coimbra e de Arnaldo de Pinho, pela nossa língua e cultura. ■

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