Convergência possível?

0
1841

Foram dois dias de conclave das principais figuras do centro-direita, alegadamente com o propósito de constituírem uma agenda não-socialista alternativa ao actual poder político da esquerda e da extrema-esquerda. Mas a montanha pariu um rato – e da reunião magna nada saiu de concreto.

A III Convenção do Movimento Europa e Liberdade (MEL), reunida na terça e quarta-feira, no Centro de Congressos de Lisboa, juntou de facto os principais dirigentes da área não-socialista, e até alguns políticos da esquerda moderada dispostos a um debate abrangente de boa-vontade. Contudo, a demanda da quadratura do círculo revelou-se isso mesmo: a busca do impossível através de um diálogo de surdos.

Acossado por sondagens catastróficas e pela oposição interna, o líder do CDS, Francisco Rodrigues dos Santos, foi à Convenção namorar o PSD e apaziguar o eleitorado do Chega. Rui Rio, presidente do PSD, aproveitou a reunião para proclamar o seu horror à direita, ainda que piscando o olho ao CDS e ao Chega, pois também os social-democratas têm vindo a ser maltratados pelas sondagens e ainda não sabem a que diabos terão de aliar-se para sobreviverem no mapa eleitoral. André Ventura, do Chega, usou o palco da Convenção para começar a insinuar-se como “o único” que faz oposição em Portugal, castigando o PSD e o CDS com ferroadas cruéis. E João Cotrim de Figueiredo, da Iniciativa Liberal, só lá foi dizer que não estava lá.

À reunião chegaram a chamar, por excesso de optimismo, “lua de MEL”; mas o que aconteceu foi um conjunto de monólogos num gabinete de divórcios amigáveis. Numa Convenção em que cada qual falou para o seu público, inutilizando qualquer possibilidade de articulação de esforços para constituir uma alternativa e tirar a esquerda do poder, a única figura a entusiasmar a plateia foi o antigo primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, por cognome O Desejado. Mas até esse afirmou que só ali estava para “assistir” e que a sua presença não significava, sequer, um regresso à actividade política. 

Paradoxalmente, as intervenções mais conciliatórias vieram de três participantes “fora da caixa”: o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros do PS Luís Amado, o deputado socialista Sérgio Sousa Pinto e o antigo dirigente do PS Álvaro Beleza. E as mais interessantes foram as de personalidades desligadas da vida partidária: Jaime Nogueira Pinto, Rui Ramos, José Miguel Júdice, Henrique Neto e Mira Amaral.

Para o ano há mais… ■