Costa mendiga investimentos

António Costa lembrou os tempos de José Sócrates, quando este andava pelo mundo, acompanhado de vastas comitivas de empresários, a vender a excelência de Portugal. Sócrates fez sucessivas incursões à Venezuela e ao Brasil, entre vários destinos. Boa parte das promessas de cooperação vieram, no entanto, a cair por terra.

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Falando na Feira de Hannover, que este ano escolheu Portugal como país parceiro, o PM defendeu que Portugal tem “uma localização extraordinária para quem quer produzir para o mundo”. Num estilo panfletário, salientou que o país está “à menor distância de todos os outros continentes”, realçando a qualidade da ‘mercadoria’ que tem para vender.

Em declarações aos jornalistas depois de ter visitado os “stands” nacionais da feira de Hannover, António Costa foi questionado se, à semelhança do Presidente da República, considera que Portugal pode ser um “beneficiário líquido da situação internacional”.

Rodeando a questão António Costa frisou que “aquilo que oferece hoje vantagens competitivas a Portugal são vários factores”, começando por destacar “a excelência” do talento português e dos seus recursos humanos, mas também o facto de a Comissão Europeia considerar que Portugal é o país que “está em melhores condições de assegurar a transição energética”.

António Costa referiu ainda que Portugal tem hoje “centros de investigação científica, universidades, politécnicos a trabalhar muito fortemente com as empresas naquilo que é o seu esforço de automação, de eficiência energética”.

Outra vantagem competitiva destacada por Costa foi o facto de Portugal ser “o quarto país mais seguro do mundo e com uma localização extraordinária para quem produz para o resto do mundo”.

“Obviamente, quem produz na Europa para a Europa, há porventura outras localizações mais atractivas do ponto de vista geográfico. Do ponto de vista de quem produz da Europa para o resto do mundo, não é por acaso que sempre fomos a porta de entrada da Europa com o mundo”, sublinhou.

A menor distância

O chefe do executivo português destacou que Portugal é o país que está “à menor distância de todos os outros continentes” e defendeu que “não é por acaso” que Portugal “é o ponto de amarração dos novos cabos submarinos que vão ser feitos, da América do Sul, do sul de África, da Ásia para Portugal”.

“Portanto, entre o talento, a excelência das nossas empresas, dos nossos centros de investigação científica, da nossa posição geográfica, do facto de sermos um dos países mais pacíficos do mundo, obviamente tudo isto são vantagens competitivas muito grandes”, realçou.

Abordando a participação de Portugal na feira de Hannover, o primeiro-ministro fez um “balanço muito positivo”, destacando a “quantidade de empresas que foi possível mobilizar” para a edição deste ano.

“Habitualmente, temos 40 empresas nesta feira, desta vez estamos com 109 empresas e em áreas muito diversas: desde a área da produção de peças, às áreas mais sofisticadas de tecnologias industriais, de ‘software’, na área digital e muito forte também na área da energia”, referiu.

O primeiro-ministro sustentou que é precisamente nessas áreas que “as empresas industriais estão neste momento a investir: é na transição energética, é na transição digital”.

“Esta não é uma feira para vir comprar os produtos finais, nem as nossas roupas, nem os nossos sapatos, mas é uma feira da indústria para a indústria, e dos nossos serviços para as indústrias”, referiu.

Montra de Portugal

António Costa considerou assim que a presença portuguesa na “Hannover Messe’22”, “foi uma enorme montra do que de melhor Portugal faz para todo o mundo”.

No que se refere à cooperação com a Alemanha, o primeiro-ministro referiu que “a Alemanha é um dos grandes investidores em Portugal: muitas das empresas já estão há mais de 100 anos em Portugal”.

“Portanto, conhecem-nos bem e percebem bem qual é a nossa qualidade. Temos mais de 600 empresas alemãs a investirem em Portugal e temos milhares que compram em Portugal. Esta feira, aliás, é mesmo para isso: é para vender para as indústrias alemãs”, sublinhou.

Sines e o gás

Continuando a tentar “vender as oportunidades de Portugal” o primeiro-ministro defendeu que a “Alemanha necessita de gás”, sendo o abastecimento através do porto de Sines uma “oferta que ajuda” Berlim. Mas não revelou se o chanceler Scholz mostrou interesse na distribuição de gás a partir de Portugal.

Costa assegurou que teve uma longa conversa com Scholz sobre as “relações bilaterais” entre Portugal e a Alemanha, mas também “sobre a situação na Europa” e como é que os dois países “podem cooperar em conjunto”.

“A Europa revelou uma vulnerabilidade grande do ponto de vista energético e Portugal tem condições únicas para ser uma plataforma de fornecimento de energia à Europa”, considerou o primeiro-ministro.

No entanto, António Costa não revelou se o chanceler alemão mostrou interesse no que se refere ao abastecimento de gás natural a partir do porto de Sines, à semelhança do que fez o primeiro-ministro polaco, Mateusz Morawieck, que, durante uma visita de Costa à Polónia, em 20 de Maio, disse que o seu país estava “interessado nesse tipo de cooperação com Portugal”.

Questionado se a Alemanha quer receber o gás natural reexportado por Portugal, Costa respondeu: “Não. A Alemanha precisa de gás, ponto. Se ele vier também do porto de Sines, excelente, mas do que precisa basicamente é de gás”.

“Esta é mais uma oferta que ajuda a Alemanha, mas não só a Alemanha, ajuda a Polónia, ajuda os países do Leste europeu que estão altamente dependentes até agora do fornecimento de gás russo e que estamos todos numa luta contra-relógio para aumentar essa independência do conjunto da Europa relativamente ao gás russo”, indicou.

O primeiro-ministro defendeu que, para alcançar essa independência, a Europa precisa de “diversificar as fontes e, por outro lado, diversificar as rotas”.

“Quanto mais rotas nós tivermos para fornecimentos de energia, menos ficamos dependentes de um só fornecedor, de dois fornecedores, ou de três fornecedores”, sublinhou o primeiro-ministro.

Durante uma visita à Polónia, em 20 de Maio, António Costa e o seu homólogo polaco consideraram viável a ideia de abastecimento energético aos países da Europa do leste ser feita a partir do porto de Sines, com Morawieck a salientar a capacidades logísticas dos terminais portuários do seu país em termos de recepção e descarga.

O primeiro-ministro classificou como prioritário o investimento nas interconexões entre a Península Ibérica e o resto da Europa, não só para abastecimento do gás natural proveniente dos Estados Unidos e da Nigéria, mas também, no futuro, para a capacidade nacional de produção de hidrogénio verde, “a baixo custo, beneficiando da facilidade em produção de energia solar”.

“Precisamos de respostas imediatas: estamos a discutir com o Governo polaco, assim como com outros governos europeus, a possibilidade de utilizar o porto de Sines como uma plataforma de transferência a partir de grandes navios metaneiros para outros de média e pequena dimensões. Esses navios mais pequenos terão melhores condições para operar nas zonas mais congestionadas do mar do Norte e do Báltico”, especificou o primeiro-ministro português.■