Crónica de uma morte anunciada

Gabriel Garcia Márquez teve a audácia de começar um livro pelo fim. O desplante de, logo no título, dizer ao que vinha. Só um leitor “naïf” poderia pensar que “Crónica de uma morte anunciada” iria tratar da temática da reprodução dos golfinhos em ambiente controlado. Ainda assim, logo na primeira frase, mata toda e qualquer expectativa que pudesse existir sobre o mundo aquático e a líbido dos mamíferos quando refere: “No dia em que o matariam, Santiago Nasar levantou-se às 5h30 da manhã para esperar o navio em que chegava o bispo”. É certo e sabido que no dia em que vamos morrer convém que a malta se levante cedo. É sempre aborrecido chegar-se atrasado ao próprio funeral e, diga-se de passagem, é coisa que não cai lá muito bem. E as deselegâncias pagam-se caro. Às vezes com a própria vida. Convém também que se espere o bispo já que, se é para irmos desta para melhor, então que a coisa se faça a preceito.

Há estórias que se capeiam de títulos estranhos e esquivos, mas que facilmente nos permitem adivinhar o enredo. Sabemos perfeitamente qual o desfecho, mas lemos na esperança de que o autor ponteie aquilo com umas figuras de estilo e uns suspenses a preceito. É quase como jogar uma partida de futebol contra uma equipe manifestamente inferior e que se apresente em campo apenas com oito jogadores. A incerteza é apenas quanto ao resultado final. Assim o foi com a “geringonça” (a tal do título esquisito), como o é quanto aos governos socialistas. A certeza é que sairemos sempre pior do que o que estávamos. A incerteza é quão pior!

Na mensagem de Natal que Costa entendeu dirigir aos portugueses, o primeiro-ministro culpou a pandemia por todos os males nacionais. Num raio-X tirado à pressa ao estado da nação, Costa lavou as mãos com álcool gel, falando apenas da doença, nunca da cura. Quis esquecer e quis fazer-nos esquecer, que houve mundo e país para lá da pandemia. O que nunca houve foi Governo. Nem para lá da pandemia, nem para lá da “geringonça”. Os erros acumulados no combate pandémico, são muito mais erros políticos do que erros médicos ou da ciência. É uma incompetência, inabilidade e impreparação que Costa teima em manter, tendo a pandemia como bode respiratório (passe-se a piada!).

Como um mágico, sabe que os verdadeiros truques são aqueles que iludem a percepção. Que nos desviam o foco do essencial. Apresentou-nos Gouveia e Melo, primeiro condecorado, depois eleito personagem do ano e, por fim, nomeado Chefe do Estado Maior da Armada. A turba aplaudiu, porque todos gostamos de circo e de um bom espectáculo. E como qualquer mágico amador, também opera com coelhos. No caso, matou dois, com uma cajadada só. Já lá iremos.

O Vice-Almirante cumpriu, é certo. Munido de condições únicas, materiais, logísticas e humanas e escoltado por uma comunicação social solicita aos desmandos governativos, pôs em prática os planos militares, estudados ao pormenor, numa situação de resposta à sociedade civil. Fez o que faria qualquer militar com a sua experiência, patente e respaldo do poder político. Endeusar uma acção militar logística e administrativa é o reconhecimento da incapacidade política e da incompetência de quem dirige os serviços. O falhanço rotundo destes, posto a nu de forma inapelável e quase obscena, foi a grande vitória de Gouveia e Melo. Uma vez mais, o Governo cavalgou a reboque sacudindo a responsabilidade pelos falhanços e colhendo os louros pelos sucessos. Como assim foi, nestes últimos seis anos e em governos anteriores da mesma casta. Como assim é com os partidos que o sustentaram, que apoiaram orçamentos e políticas e que agora clarearam a voz para gritarem incompetência a plenos pulmões.

O Presidente, naquele torpor mediático que tão bem o caracteriza, tratou de o condecorar à pressa, sem curar de olhar para um passado recente. Um passado feito de intrigas e urdido de intentonas contra outros militares (Silva Paulo e Cunha Lopes), com processos que correram nos tribunais, ostentando a qualidade de arguido. É certo que cá pelo burgo não é prática virgem, mas, ainda assim, pedia-se a prudência e a cautela que Marcelo nunca soube ter.

E Gouveia e Melo lá foi pisando a passadeira vermelha que lhe foram estendendo, desmedindo-se em entrevistas até que trocou o camuflado por smoking para receber um globo de ouro. E, alimentando o circo mediático a migalhas de intenções, foi asseverando não ter desígnios políticos, jurando espírito de missão, para se desdizer na entrevista seguinte e assim sucessivamente, como se se tratasse de um jogo de sombras ou de uma operação de contra-espionagem.

Costa, apercebendo-se que a popularidade do militar crescia ao ritmo da dívida pública, perigando uma vitória em Belém, logo tratou de o propor para CEMA. O facto de Mendes Calado não ter completado sequer metade do seu mandato, de existirem outros militares mais qualificados (ou, pelo menos, que cumpriam mais critérios para a nomeação), deste não ter sequer atingido o limite de idade no cargo que ocupava, não constitui entrave para qualquer dos envolvidos (Costa, Marcelo e o próprio Vice-Almirante), que viram uma normalidade e correcção no processo que eu não sou capaz de secundar.

O lamúrio de Mendes (que não ficou) Calado não teve eco, já que a decência não vende jornais…

Assim Costa afasta o seu mais forte concorrente a Belém. Assim condiciona as chefias militares, com um presente envenenado que só o ego desmedido de Gouveia e Melo permitiu aceitar. Assim desvia os holofotes de um Serviço Nacional de Saúde, há muito em coma e com suporte imediato de vida, que soma demissões em catadupa por falta de condições e de recursos humanos. Assim garante uma campanha surda face à inoperância e incompetência dos seus ministros. Assim assegura o silêncio complacente da oposição, manca de coragem para expor a injustiça e o engodo sob pena de o pagar caro nas urnas.

A morte está anunciada. Agora é esperar para ver se os defuntos comparecem ao seu próprio funeral. ■

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