Da aparente perda da virgindade

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Robles

MANUEL SILVEIRA DA CUNHA

O senhor engenheiro Ricardo Robles é membro de um partido que até hoje se afirmou como a última virgem ofendida. Se havia um partido puro e imaculado, era o partido da senhora Catarina Martins. O partido que denunciava os “ladrões”, os “criminosos”.

Na voz sibilina de Francisco Louçã, eles eram os corruptos, como o senhor José Pinto de Sousa, eles eram os banqueiros, como o senhor Ricardo Salgado, eles eram os especuladores imobiliários, chefiados aliás pelo arquitecto Salgado na Câmara de Lisboa, Salgado ao qual o eng. Robles veio a unir alegremente o seu destino quando decidiu tornar-se vereador do Bloco de Esquerda ao serviço do mesmo Salgado, que, de facto, é o verdadeiro presidente da Câmara Municipal de Lisboa.

Robles, o vereador do Bloco, já tinha vendido a alma ao diabo quando decidiu juntar-se ao PS. A suprema incoerência do Bloco foi esta, este foi o pecado original: quem vota com Medina, que deixa Salgado fazer o que quer na vereação, vota de facto no grande arquitecto da Câmara.
Quando entrou para a vereação socialista, Robles passou a ser uma espécie de José Sá Fernandes de olhos azuis, é mais modernaço, de barriga menos pronunciada, de ar menos corrompido pelos anos e repastos de décadas, mas não menos um traidor de quem o elegeu, um comparsa da especulação imobiliária que a vereação lisboeta tem vindo a aprovar repetidamente, quer através de planos de reabilitação destinados a fomentar o alojamento local, quer através da aprovação de repetidos hotéis, dezenas deles, na baixa da cidade.

Apesar da retórica, para apaniguado ver e ouvir, Robles já era um agente do capital especulativo ao alinhar com Medina, Salgado e restantes membros da vereação socialista que tem destruído a cidade e expulsado os seus habitantes.

Robles, em inúmeras intervenções públicas, criticou os tubarões da especulação imobiliária, atacou o inefável arquitecto Salgado, primo de outro famoso Salgado, como o grande agente do capital da especulação imobiliária. Quantas vezes o Robles veio a público atacar o “carrossel” da especulação imobiliária, a gentrificação do centro da cidade, a terciarização, a expulsão dos pequenos negócios para dar lugar aos hotéis, mais de trinta licenciados pelo seu arqui-inimigo nas suas intervenções da Assembleia Municipal de Lisboa, quando ainda o Sr. Robles não era do PS, no tempo de António Costa, que carregava, palavras do próprio Robles, o mealheiro da especulação imobiliária debaixo do braço?

Isto foi afirmado entre 2013 e hoje. Pelo meio, investia num prédio da Segurança Social, comprando a preço de saldo ao Sector Público para se tornar privado – onde é que ouvimos Robles condenar isto? Fez o senhor Robles obras, gastou mais de seiscentos mil euros, e colocou o prédio à venda por cinco milhões e setecentos mil euros, um lucro de 4,7 milhões!

Entretanto correu com todos os inquilinos, ele diz que fez acordos, provavelmente ao abrigo e debaixo do guarda-chuva da anatematizada lei Cristas, e mantém um conflito com um restaurante que diz eufemisticamente “será resolvido em tribunal”. Sobrou uma fracção ocupada, tem entre trinta e quarenta metros quadrados. Resta saber se as pessoas que lá estavam não estariam protegidas, pela sua avançada idade, e o apregoado “magnânimo” Robles não teve de engolir o sapo de ficar com inquilinos que, de outro modo, despejaria sem dó nem piedade, como despejou, com acordos ou sem estes, como no caso do restaurante, os outros arrendatários.

Mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo. A venda pela Sotheby’s anunciava que as casas estavam preparadas para alojamento local e basta ver as áreas propostas e o anúncio: “oportunidade única em área turística no coração de Lisboa, são 11 apartamentos, sendo que o maior tem 41 metros quadrados e o mais pequeno 25. Os restantes têm 28, 29, 30, 31, 33 e 35 metros quadrados”…

Então casas de 25 metros quadrados eram para viver mais a família da irmã? Alguém no seu perfeito juízo quer convencer o público de que estava a preparar um prédio para habitação permanente com áreas deste calibre? A prova final de que o preço era altamente especulativo é que o prédio esteve à venda largos meses e ninguém pegou nele. Se os preços fossem justos, teria sido vendido em muito pouco tempo. Finalmente surpreende o tempo recorde em que as licenças foram obtidas e as obras de grande ampliação em cima da muralha fernandina, com prejuízos graves de vizinhos, nomeadamente o prédio contíguo de Marcos Soromenho Santos.

Resta ainda a questão do valor patrimonial e a real isenção de IMI do prédio do Robles que ficou próximo do preço de venda original pela segurança social. Afinal aquilo vale muitos milhões ou apenas pouco mais de trezentos mil euros? Afinal o Robles, ao pagar pouco por aquilo que vale muito, não estará a roubar os desfavorecidos que precisam do dinheiro dos impostos dos mais ricos para medicamentos, reformas, subsídios de desemprego e por aí adiante? Será que o Bloco defende a fuga ao fisco? Não deveria Robles informar as finanças de que o prédio vale muito mais?

Fica o retrato da traição de Robles ao seu partido. Ou não será traição? É que Catarina Martins defendeu o seu putativo apaniguado. Mariana Mortágua também defendeu o Robles, mas já deu sinais de desconforto. O papa emérito Louçã, como bom economista, comentou que Robles pediu um preço demasiado elevado pelo prédio! Tem razão, esteve à venda por 5,7 milhões e ninguém lhe pegou. O conselho do mais caviar dos esquerdistas seria pedir um preço mais moderado, talvez quatro milhões? Resta saber o que faria Robles se eu lhe tivesse aparecido à frente com 5,7 milhões de euros. Será que teria tido a actual hombridade, agora que foi exposto ao sol, de me dizer que colocou o prédio à venda só por desporto mas que de facto as casinhas eram para ficar no mercado de arrendamento lisboeta para famílias carenciadas?

Fica a imagem de um partido de hipócritas, lesto a condenar os outros mas lento a assumir os seus erros. Um partido moralista que prega como frei Tomás: faz o que ele diz, não faças o que ele faz.