De anjo a demónio

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Bastou que um “consórcio internacional de jornalistas” decidisse pôr fim aos negócios da família de José Eduardo dos Santos para que ruísse, em apenas uma semana, um império empresarial que levou décadas a montar e que custou aos pobres angolanos duas décadas de atraso, guerra e miséria: tanto quanto foi preciso para que Isabel dos Santos acumulasse uma fortuna pessoal avaliada em dois mil milhões de euros. Observadores europeus dizem agora que o clã angolano “dos Santos” deve ter abusado da sua sorte e estendido demais os seus tentáculos, pisando os tentáculos de “alguém” e espoletando uma reacção de dimensões dantescas. Seja qual for a explicação remota e subterrânea para o súbito interesse nos negócios do ditador deposto e da sua filha dilecta, Angola está, finalmente, a livrar-se do principal sugadouro das suas riquezas.

A iniciativa pública deveu-se ao Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (ICIJ), uma ‘poole’ que engloba 37 órgãos de comunicação social de vários países – como os britânicos ‘The Guardian’ e BBC e o português ‘Expresso’, do empresário Pinto Balsemão – e que contou com a participação de mais de uma centena de jornalistas. Estes, usando fontes infiltradas, conseguiram obter acesso a “mais de 715 mil ficheiros” que foram analisados pelo ICIJ e permitiram juntar provas de centenas de negócios de Isabel dos Santos conseguidos com favorecimento no tempo em que seu pai, José Eduardo dos Santos, era Presidente da República de Angola. Os documentos remontam a 1980, mas estão principalmente focados na última década.

Segundo o ICIJ, ficou inequivocamente demonstrado que a fortuna de Isabel dos Santos, considerada “a mulher mais rica de África”, foi obtida através do uso indevido de bens nacionais angolanos e de “esquemas de corrupção”. A investigação é já conhecida como ‘LuandaLeaks’, usando a expressão inglesa “leak”, que é correntemente usada para “fuga de água” ou, eufemisticamente, para “fuga de informação”.

Uma das denúncias do ICIJ diz respeito a 115 milhões de dólares que Isabel dos Santos conseguiu desviar da Sonangol para uma conta ‘offshore’ no Dubai entre Maio e Novembro de 2017, quando a filha do ex-ditador presidia à empresa petrolífera estatal. Segundo o ‘Expresso’, essa transferência foi justificada como sendo um pagamento de serviços de consultoria prestados à Sonangol, mas “as transferências tiveram como destino uma conta bancária de uma companhia offshore, a Matter Business Solutions, controlada pelo principal advogado da empresária angolana, o português Jorge Brito Pereira, sócio da Uría Menéndez, o escritório de Proença de Carvalho”. O ICIJ revela ainda que “em menos de 24 horas a conta da Sonangol no Eurobic Lisboa, banco de que Isabel dos Santos é a principal accionista, foi esvaziada e ficou com saldo negativo no dia seguinte à demissão da empresária” da petrolífera.

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