De cravo na lapela, no Cabana…

Foram milhares, espalhados pelas principais praças e avenidas das cidades, a empunhar cravos vermelhos e a gritar liberdade. Putos ranhosos pela mão, que antes preferiam andar atrás de uma bola ou colarem os olhos no telemóvel, copiavam os pais e gritavam a plenos pulmões “Salazar nunca mais”. Ainda que não sabendo que Salazar não era Jesus e que não há notícias do mesmo ter ressuscitado, sentiam-se parte de algo maior do que eles, parte de uma comunidade, de uma partilha de valores. Um pouco como os seus pais, que foram levados pela mão dos progenitores e avós, numa altura em que ainda se poderia justificar o frémito da celebração popular, já que era uma conquista recente. Hoje sobram memórias, deturpadas na história e em palavras de ordem repetidas à exaustão. Pouco mais que isso.

O Estado Novo surgiu com a Constituição de 33 e durou até 74, sendo que Salazar governou 35 deles, tendo abandonado o poder em 68. O regime manteve-se, pois, por quase mais uma década após a sua queda e a revolução de Abril não teve contornos populares, resultando de divergências entre as altas patentes militares.

É esta a história que não se conta e que se foi romanceando, ano após ano, adulterando personagens e enredo. Os cravos que levam milhares à rua estão imbuídos de uma mentira, muito mais simpática, lhana e aprazível que a realidade de interesses pessoais e financeiros que ditaram a tomada do poder. O aproveitamento e regozijo popular justifica-se pelas conquistas inerentes, mas a deturpação dos factos tem motivações políticas que o tempo foi esboroando, confundindo realidades e assumindo contornos de uma verdade indisputável, arreigada numa bandeira da esquerda portuguesa.

Um grupo de amigos, entendeu fazer uma celebração comemorativa dos seus 50 anos. Escolheram o restaurante Cabana, por sugestão de um deles. Todos assentiram, já que nenhum conhecia. Aos 60, discutindo onde festejariam, foi sugerido o restaurante Cabana, já que as empregadas eram jeitosas e muito simpáticas. Todos assentiram na sugestão. Aproximando-se os 70, o conviva encarregue do encontro, sugeriu que fossem ao Cabana já que o ambiente era tranquilo, a comida era boa e os preços em conta. Foi aprovado por unanimidade. Aos 80, todos concordaram que o Cabana seria uma excelente ideia, porque tinha acesso para as cadeiras de rodas e as casas de banho eram no piso térreo. Aos 90, quando foi sugerido o Cabano, todos acharam uma excelente ideia porque nunca lá tinham ido…

Por cá passa-se mais ou menos o mesmo, sendo as manifestações de Abril pouco mais do que um convívio de néscios e de quem sofre de Alzheimer. A maioria dos manifestantes que sai à rua e empunha cravos como se a revolução tivesse sido ontem desconhece o que foi o 25 de Novembro, não sabe quando foi implantada a República e é incapaz de apontar a data da Restauração da Independência e o seu significado.

Se olharmos para Espanha, Franco governou Espanha durante quase 40 anos, até à sua morte e depois de ter subido ao poder através de golpe militar. No seu consulado governativo morreram milhares de pessoas, a Espanha tornou-se aliada da Alemanha nazi e as opressões a estudantes e trabalhadores eram recorrentes e extremamente violentas. A classe média, praticamente não existia e os índices de crescimento e de nível de vida eram substancialmente inferiores aos nossos. Embora a queda do regime em Espanha tenha ocorrido em 75, é celebrada, sobretudo, de forma institucional e não como se de uma romaria popular se tratasse. Os espanhóis percebem bem que meio século após a morte de Franco e a instauração de uma democracia parlamentar (embora o Chefe de Estado seja o Rei), a mesma está devidamente consolidada e que a conquista pelos valores democráticos é diária e não um mero marco histórico.

Não advogando virtudes a qualquer regime autoritário, a pergunta que se impõe é se quem ganha oitocentos euros, trabalhando de sol a sol e pagando duzentos ou trezentos de renda de casa, é verdadeiramente livre. Ou o pensionista, que gasta a sua reforma de quatrocentos euros em medicação, comendo e vivendo da caridade de terceiros, o é. Ou os sem abrigo, que dormem ao relento e dependem das sopas dos pobres para afagar o estômago? Ou os milhões de portugueses que não têm médico de família e têm que ficar horas nas filas de espera dos centros de saúde? Ou as grávidas que dão à luz na beira da estrada ou em ambulâncias porque as urgências estão encerradas? Ou qualquer um de nós que vê os processos de Sócrates prescreverem mais de uma década após a sua detenção?

É que mais do que os discursos com sotaque na Assembleia da República, os pareceres que não existem e são transformados em questões de semântica ou o inenarrável e obtuso discurso de Costa que, depois de negar a amamentação do Chega e pretender que a comunicação social cale o meio milhão de portugueses que votou, democrática e legitimamente em Ventura, se digna atropelar a língua portuguesa ao referir “camaradas e camarados” e ao dirigir-se a “todas e todos as empresas brasileiras”, Abril é dignidade e respeito. Abril conquista-se todos os dias e não em cerimónias de circunstância por aqueles que mais teimam em negá-lo. E, sobretudo, Abril celebra-se nas urnas, com a vitórias dos eleitos e mais votados, tenham eles cravos ou hibiscos.

Já agora, porque é que no próximo 25 de Abril, para celebrar os 50 anos, não vamos todos ao Cabana?

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