Diálogos improváveis: a zaragatoa da discórdia!

Estamos todos? Podemos dar início ao Conselho de Ministros? Ora bem, hoje vamos discutir… (Pausa, após levantar os olhos:) Sim, Mariana, podes falar. Não precisas pôr o dedo no ar…

– O confinamento em Lisboa vai-se manter? É que o papá e a mamã queriam ir à Marinha Grande este fim-de-semana… (As vozes dispersam por toda a sala…)

– Boa, boa. Eu, por acaso, também tenho uma caçada no Alentejo!

– Eu já marquei hotel no Algarve. A Graça e o Ferro disseram muito bem daquilo…

– A mim também me dava jeito. Tenho que pôr o Maserati na estrada a ver se aquilo afina… estes carros italianos, já se sabe…

(António põe ordem na mesa:)

– Ok, ok! Acabe-se lá com o cerco e podem todos ir passar o fim-de-semana onde quiserem. 

– Ó pá, mas assim vão estar os restaurantes todos à pinha… vai ser uma seca para arranjar mesa…

– Calma lá… Já todos têm o certificado?

(Todos, em coro:)

– Sim!!!

– Então vamos lá ver. A partir de agora, aos fins-de-semana, só vai a restaurantes quem tiver o certificado, boa?

(Todos, esfuziantes, excepto um:) 

– Excelente! És o maior! Viva!

(O tal, a medo:)

– Ó António, mas isso não é inconstitucional?

(António levanta os olhos, por cima dos óculos, e dispara:)

– Como é que tu te chamas, mesmo?

– Nélson…

– E tens a certeza que és meu ministro?

– Sim, sou o ministro do …

(António interrompe:)

– A partir de agora, não te sentas mais aí… Passas a sentar-te lá ao fundo, ao pé do reitor.

– Heitor, António. Heitor!

– Isso.

(Marta, com a voz trémula:)

– Só com o certificado? Vamos deixar de vender testes?

– Boa questão. Pode ser também com teste negativo feito nos restaurantes…

(No meio do entusiamo geral, alguns a rir a bandeiras despregadas pensando que era piada, um deles arrisca:)

– Há um ano, para fazer uma colheita, tínhamos que vestir o pessoal tipo astronauta. Lembram-se daquela questão dos EPIs que nunca mais chegavam? Das máscaras tipo FP25, com quatro filtros xpto, feitas com tecnologia de Marte e que tinham que ser trocadas a cada quatro horas? Dos médicos e enfermeiros, todos a protestar pela sua segurança? E agora vamos pôr os empregados de mesa a enfiar zaragatoas na nariganga do pessoal para estes poderem afiambrar uns filetes de polvo? E onde é que pomos os testes, que são resíduos biológicos e que podem contaminar? E se o pessoal quiser ir ao WC? E podem servir-se tremoços e amendoins enquanto se aguardam os resultados?

(O silêncio foi sepulcral. Todos viraram a cabeça no mesmo sentido. António tamborilou os dedos, arregalou os olhos tipo “kinguio” e, de voz cava, mas pausada:)

– Ó Tiago, tu não estás um bocado fora de pé? Ali, para o canto, já! E não te viras até acabar a reunião. Falta disciplinar, pimba!

– E os dados dos testes? Quem é que fica responsável por eles?

– Pedimos ao Medina! Ahahahahaha!

(A turba acompanha a gargalhada. António reúne os papéis e pergunta:)

– Alguém tem mais objecções? Não? Nada? Então eu tenho uma questão que me anda a maçar: vocês acham que o Rui Costa tem condições para ser presidente do Benfica?

(João Pedro, portista dos quatro costados:)

– Achas? Então ele não sabia de tudo? Alguém se acredita que sendo ele o número dois do Vieira pudesse não saber? Isso era o mesmo que dizer que o número dois do governo do Sócrates não sabia do que se estav… (Interrompeu aqui. Visivelmente atrapalhado, continuou): 

– Deixem lá! Eu saio pelo meu pé!

– Queres boleia, pá?

– Eduardo, para lá com essas piadas!!! ■

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