Educação e industrialização

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Recentemente, o primeiro-ministro António Costa, pressionado na Assembleia da República, admitiu que a razão dos países do Leste europeu nos estarem a passar à frente se deve ao seu melhor nível educativo. Infelizmente não explicou a razão por que, passado quase meio século depois do 25 de Abril, os portugueses não terem ainda atingindo o mesmo nível educativo dos países da antiga “Cortina de Ferro”, para mais vivendo em democracia.

A meu ver existem três razões principais para o atraso da educação em Portugal: (1) os governos nunca terem compreendido que o atraso educativo português se combate, principalmente, na primeira fase da vidas das crianças através das creches e do pré-escolar, o que tem a ver com os elevados níveis de pobreza e de ignorância endémica existente nas famílias portuguesas; (2) porque no período da chamada revolução educativa, a seguir ao 25 de Abril, deram entrada no ensino muitos milhares de novos professores sem a vocação necessária, contratados sem critério, apenas por falta de outras oportunidades de emprego, professores sem a formação e a motivação adequadas e com uma direcção educativa do ministério burocrática, pouco exigente, desorganizada e privilegiando o investimento no ensino superior. Modelo que resultou numa grande divisão entre pobres e ricos aquando do acesso ao ensino oficial, aos seis ou sete anos; (3) falta de exigência e conformismo educativo de todo o sistema.

Apenas com António Guterres se começou a falar do pré-escolar e apenas como um complemento e sem a total cobertura social e geográfica, com baixo financiamento e pouca qualidade. Além disso, sem um sistema de transporte escolar, o que é essencial para disciplinar a frequência das crianças nos dias e horários adequados, além de um incentivo para as famílias. Além disso, com muitas educadoras sem a formação necessária, escolas geralmente caras e uma cobertura nacional mais do que insuficiente. Apenas as creches e o pré-escolar privados mudaram o panorama escolar e mantiveram níveis de qualidade adequados, mas apenas em sectores da sociedade economicamente privilegiados. O resultado são grandes diferenças de formação das crianças à entrada do ensino oficial, diferenças criadoras de frustração educativa e social nas crianças oriundas das classes sociais mais pobres, cuja vivência em família está longe de ser formativa, o que conduz ao insucesso escolar posterior, incluindo o insucesso no ensino superior com níveis elevados de abandono e de fraco aproveitamento. 

Nas casas das famílias pobres não há livros, não há escola de natação, de música, nem idas aos museus ou ao teatro, nem férias na praia. Em contrapartida há má alimentação, droga, violência, muita ignorância e muitas dificuldades financeiras que envenenam a vida familiar. Sabemos que há sempre excepções positivas, mas que não alteram o essencial do diagnóstico. Perante este cenário a solução do Ministério da Educação tem passado por reduzir as avaliações e a exigência em todos os níveis do ensino público. O facto de, pouco a pouco, as escolas privadas se terem vindo a superiorizar nos “rankings” existentes não comporta nenhuma surpresa e, como diria o outro, é da vida.

A consequência deste estado de coisas são os baixos salários e por duas razões: (a) baixo nível educativo para as necessidades de uma economia moderna, o que inclui muitos licenciados com cursos a que se usa chamar de “ciências ocultas”; (b) baixa industrialização da economia, limitação essa determinante, porque na indústria existem inúmeras actividades repetitivas que se treinam com uma relativamente fácil e barata formação profissional. Por exemplo, os trabalhadores da “AutoEuropa” usufruem de melhores salários e não é por força da existência de sindicatos, mas apenas porque a empresa é tecnologicamente avançada, faz boa formação, é rentável e, naturalmente, é competitiva no mercado internacional. Os trabalhadores desta empresa não são especiais, eram semelhantes a muitos outros quando iniciaram a sua actividade, mas é nas boas empresas industriais, principalmente exportadoras, que existem melhores e mais bem pagos empregos para as classes sociais mais desfavorecidas.

O que acontece então a muitos outros trabalhadores que não conseguem empregos na indústria? Esses sobrevivem na agricultura, nas feiras e mercados, nos restaurantes, nos cafés e pastelarias, na hotelaria, nos minimercados que enxameiam as cidades, na pesca artesanal, nas limpezas dos escritórios e das casas das famílias citadinas com melhores rendimentos, na hotelaria, nos transportes e nos biscates mais variados. Noventa por cento das empresas portuguesas são muito pequenas, na sua quase totalidade sobrevivem no mercado interno onde há uma enorme concorrência e em geral praticam preços muito baixos num mercado altamente deprimido, seja pelo baixo poder de compra, seja pelo número excessivo de empesas e de trabalhadores individuais que concorrem entre si. Trata-se daquilo a que tenho chamado a tragédia nacional do emprego na economia dual, isto é, existe um número insuficiente de empresas industriais de alguma dimensão e uma percentagem aterradora de muito pequenas empresas não competitivas internacionalmente. Os baixos salários são apenas a forma usada para manter essa economia dual a funcionar, razão porque a subida dos salários mínimos acabará por ser transformadora, terminando com alguns milhares dos empregos descritos e provocando um nível mais elevado de desemprego. Ou seja, a dualidade existente na economia portuguesa tem uma função meramente social e não económica. 

Presumo que em todos os países existe uma certa dualidade da economia, mas não com a dimensão que tem em Portugal, onde as falhas na educação e na formação profissional são uma causa determinante. Uma outra razão, penso, é cultural, muitos milhares de portugueses apreciam não ter chefes ou horários, de trabalharem quando lhes apetece e de possuírem o controlo e a liberdade total das suas vidas. Os muitos e variados apoios sociais ajudam.

O atraso português no contexto das nações europeias tem naturalmente muitas outras razões, mas acredito, pela experiência já vivida, que apenas poderemos desejar vencer a pobreza da nossa sociedade através da educação e a partir das creches e do pré-escolar, além da industrialização. Claro que os sectores de serviços tecnologicamente avançados têm o seu papel na competitividade da economia, mas, para isso, existe um número excessivo de portugueses com cursos superiores oriundos das ciências sociais, em grande parte destinados ao desemprego, ou a trabalhar para o Estado e para a emigração. Razão da falta de profissionais qualificados suficientes para se poder pensar nos serviços como a solução para o nosso atraso económico. 

Neste nosso tempo, apostar na educação e na industrialização é a solução certa para Portugal, estratégia que o Governo e o PRR olimpicamente desconhecem. Aliás, se acrescentarmos o investimento estrangeiro e as exportações, teremos encontrado a fórmula do sucesso das duas melhores fases da economia portuguesa dos últimos cem anos: os períodos da EFTA e do PEDIP/“AutoEuropa”. 

Existe um outro problema nas sociedades modernas, agora em quase todos os países, o qual tem ainda a ver com a educação, que hoje se destina exclusivamente a fornecer conhecimentos às crianças e aos jovens, quando parece ser evidente a necessidade de formar, com igual valor, as competências individuais e os comportamentos. Continua erradamente a considerar-se que estas áreas de formação são matéria da família, solução que nunca foi verdadeira e hoje o é ainda menos.

Ou seja, sem compreender que a educação, em sentido amplo, é a chave do desenvolvimento e do crescimento da economia, Portugal continuará a atrasar-se relativamente aos restantes países europeus. ■