Em debate: Cavaco vs Costa

A turba saiu das cavernas por Diogo Gil Gagean

Cavaco Silva, qual Lázaro da Betânia, voltou à vida política e com um magistral artigo no “Observador” abalou a política nacional.

Se dúvidas existissem sobre a importância que o ex-primeiro-ministro e ex-Presidente da República ainda tem, basta atentarmos nas reacções às suas palavras. O mais sintomático do ódio que a elite lisboeta e os avençados da comunicação social têm ao economista é o ataque vil que fazem ao sujeito e não à mensagem. 

Confesso que não sou um admirador do estilo austero de Cavaco Silva, mas prefiro este estilo mais resguardado ao do actual Presidente, que mais parece um comentador televisivo do que propriamente o mais alto representante da nação.

A esquerda amofinada com as palavras do natural de Boliqueime demonstra bem que nunca ultrapassou as governações de Cavaco. Os anos de 85 a 95 sob governação do PSD foram os anos que nos permitiram tirar Portugal da cauda da Europa e da miséria que grassava em terras lusas. E isso a esquerda não perdoa, pois foi Cavaco que acabou de vez com o sonho marxista de liderar Portugal. Já todos sabemos, sem miséria e pobreza não há votos nos extremistas. 

O artigo de Cavaco Silva nada diz de novo, mas também não diz mentira nenhuma. Lança isso sim um desafio importantíssimo a António Costa; desafia António Costa a fazer melhor do que ele fez com a maioria absoluta. 

Foi esta audácia de Cavaco em desafiar o novo dono disto tudo que levou a turba a sair das cavernas e lançar-se ao ex-Presidente. Francisco Louçã no seu solilóquio semanal comparou Cavaco a Jorge Jesus. Isabel Moreira, que bem podia ser militante do BE, diz que não é Cavaco que estabelece a bitola para Costa – e com razão Isabel. Quem estabelece a bitola para Costa devia ser o povo português, mas com uma comunicação social parcial e completamente controlada é difícil os portugueses estabelecerem uma bitola justa para Costa. Num país sério, os jornalistas, que não a Anabela Neves, escrutinariam o estrangulamento fiscal a que estamos sujeitos, a inflação e o Orçamento de Estado. Convido os leitores a imaginarem como seria a comunicação social nas mãos do Estado. Se apenas como receptáculos de subsídios e publicidades encomendadas já estão como estão, imaginem com Francisco Louçã e João Galamba como directores editoriais. Assustador, não é? Felizmente Cavaco Silva privatizou a comunicação social e abriu portas para a entrada de novos canais de televisão privados.

Acho graça aos socialistas quando dizem que Cavaco está ressabiado com o país. Então lá poderia Cavaco Silva estar chateado com quem lhe deu quatro maiorias absolutas? Quem está ressabiado com Cavaco é a esquerda que ainda não lhe perdoou as privatizações, que liberalizaram e modernizaram o país. 

Cavaco aproximou-nos da Europa. O nosso PIB em 95 era de 81% da média da EU. Para 2023 é esperado que seja de 77%. Os seis anos de Costa foram desperdiçados. Se uns culpam a pandemia e a guerra é porque não olham para os restantes membros da EU. Infelizmente já só podemos olhar para cima, pois atrás de nós, só a Roménia.

P.S. – Em Inglaterra celebrou-se o jubileu da Rainha Isabel II. Por cá no burgo foi um fartote de comentadores a opinarem sobre o acontecimento em terras de sua majestade. 

Prestei especial atenção aos comentadores afectos ao Bloco de Esquerda, principalmente ao seu historiador-mor e um dos responsáveis pela maior tentativa de alterar a nossa história a favor da narrativa vigente: Fernando Rosas. Diz Fernando Rosas que falta legitimidade democrática à monarquia, e afirmou isto sem se rir. Claro que a “jornalista” que o acompanhava não fez o trabalho de casa. Então Rosas, que é um admirador confesso de Mao e de Castro, tem o dislate de arguir a legitimidade democrática da monarquia britânica? O conceito de monarquia parlamentar ultrapassa-o completamente.

Garanto aos leitores que já houve mais eleições em Inglaterra do que na URSS, Roménia, China, Cuba e Jugoslávia todas juntas nos últimos 100 anos. ■


O antigo PR fez de líder da oposição por José Guilherme Oliveira

O combate continua e já não é de agora.

Podemos recuar à tomada de posse do primeiro governo do António Costa, a famigerada “geringonça”, o XXI Governo da terceira República, em 2015. No seu discurso, o então Presidente Cavaco, que presidia ao acto, claramente contrafeito, depois do acto falho de um governo do PSD liderado novamente por Passos Coelho, não poupou o formado por António Costa.

Quer o conteúdo e o tom de desagrado do então Presidente, deixando vincada a pouca confiança na solução e nas pessoas, sublinhava as dúvidas sérias que tinha.

Convenhamos que foi um discurso pouco apropriado para o momento. Com remoques, uma série de avisos quase ameaças.

António Costa anda na ribalta política há trinta anos. Podemos dizer que já conhecemos, pelo menos tiramos-lhe a pinta e todos o tratamos “O Costa” com alguma familiaridade.

Ora, o homem registou e aproveitou agora a oportunidade para responder ao mimo e, vai daí, no seu discurso de tomada de posse, atirou: “fazendo eu parte de uma geração que lutou contra uma maioria absoluta, que confundia maioria absoluta com poder absoluto…”.

O golpe foi tão desnecessário, quanto certeiro. Quem julgou que o pleito terminara, com um empate, engana-se. O Homem de Boliqueime, que de facto nunca esteve inerte, reage e responde, puxando dos galões e exibindo as diferenças entre ambos enquanto primeiros-ministros, reafirma as dúvidas quanto à capacidade e mantém a desconfiança no oponente. 

O duelo manteve, ainda assim, os níveis de cavalheirismo exigidos, mas creio não ficará por aqui.

Mas convenhamos, a entrevista e o artigo do Cavaco Silva, criaram um burburinho despropositado. Numa sociedade democrática este tipo de troca de galhardetes é perfeitamente natural e até recomendável. Mantém a democracia a borbulhar. 

Se calhar a reacção tem a ver com os protagonistas. Ninguém estranharia se um dos intervenientes fosse o dr. Mário Soares, a grande referência política do Portugal contemporâneo.

Não passa de um mero episódio sem qualquer relevo e o único que lhe vejo é que, além do mais, o antigo Presidente fez circunstancialmente de líder da oposição.

A vida continua normal.

P.S. – Enquanto isso, em Inglaterra acabou de se saber que a moção de censura ao governo do Boris não passou (ali sim, uma confusão séria) e, como consequência, a figura mantêm-se, assim como o seu governo. Direi que é caso os “Tories” celebrarem. ■

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