Eletricidade em Portugal: da surpresa à indignação

Fernando Cabral
Fernando Cabral
Eng. Informático, MBA - Desde 2011 é o administrador do semanário O Diabo

No dia 28 de Abril de 2025, de repente, tudo se apagou. Num instante regredimos várias décadas e descobrimos que as nossas vidas assentam em fundações extremamente frágeis.
O “apagão” Ibérico pôs a nu a assustadora realidade. Subitamente, o trânsito deixou de estar regulado, as comunicações deixaram de funcionar, hospitais estiveram à beira de parar por completo, mais um pouco e deixaria de haver abastecimento de água, mais uns dias e nem alimentos frescos teríamos.
A energia não é um elemento critico, é literalmente vital. Mas não se justifica entrar em pânico. A verdade é que, apesar de tudo, não caímos no caos. Tivemos talvez até a sorte de ter tido um forte aviso sem grandes consequências. No entanto, o impacto que a energia tem nas nossas vidas é muito maior do que à primeira vista nos apercebemos. A qualidade das nossas vidas, a competitividade das nossas indústrias, a produtividade e por consequência os salários – tudo depende em parte do custo e da disponibilidade da energia.
Passados quatro ou cinco dias, aparece nas notícias: “Voltámos a comprar energia a Espanha por ser muito mais barata”. Imediatamente surgiu-me a pergunta: se temos o mesmo sol e o mesmo vento que Espanha, se temos uma produção de energia hidroelétrica muito importante, como é possível a diferença de preços ser tão grande?
E logo outras duvidas surgiram: será que as centrais nucleares têm um impacto muito significativo nos custos? Até que ponto o encerramento antecipado das centrais a carvão em Portugal agravou custos e deixou o país mais inseguro?
Este foi o ponto de partida para uma investigação que levou O DIABO até à fala com o Professor Clemente Pedro Nunes. A entrevista que publicamos nestas páginas é fundamental para compreender como chegámos à atual situação e o que o futuro próximo nos reserva.
Fica claro que uma combinação de incompetência, interesses obscuros e muito provável corrupção resultou em Portugal numa verdadeira calamidade a passo lento. A origem está, com muito pouca surpresa, nos infames tempos de José Sócrates. Logo na altura houve vários avisos que se vieram a confirmar. Por exemplo, os abusos com os contratos FiT (Feed-in Tariff) são no mínimo uma aberração. Em alguns casos até 2036, há quem (os contratos não são públicos) beneficie de preço garantido e preferência na venda de energia. Sim, mesmo quando a necessidade é zero somos obrigados a comprar a um preço exorbitante, comparado com o valor no mercado. É claro que quem paga a fatura somos todos nós.
E caro leitor, quer saber a ordem de valores de que estamos a falar? Só o misterioso “défice tarifário” ascende a 2.000 milhões de euros que nos sai dos bolsos. Como termo de comparação, o novo Hospital central do Alentejo vai custar um pouco mais de 200 milhões.
Por isso, ao ler esta entrevista com calma e atenção, é recomendável meditar um pouco ou até tomar um tranquilizante. Se for como eu, vai sentir o sangue ferver. ■

FERNANDO CABRAL

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