Em debate: Amber Heard e Johnny Depp

0
560

Para as mais radicais, o homem é sempre o culpado por Diogo Gil Gagean

“Tell the world, Johnny, tell them, Johnny Depp, I, Johnny Depp, a man, I’m a victim too of domestic violence. Good luck with that”.

Um dos casos mais mediáticos dos últimos tempos, foi o que opôs em tribunal Amber Heard a Johnny Depp.

De um lado, a vítima Amber. Do outro o agressor Depp. Ainda antes do processo propriamente dito se iniciar na sala de audiências do tribunal, já se acantonavam nas trincheiras militantes do lado “O Homem é sempre o agressor” e do lado dos não activistas a posição era de deixar a justiça trabalhar. 

Amber Heard apresentava-se como a vítima da relação e embora já em 2009 tivesse sido detida em Seattle por abusar fisicamente da sua namorada da altura, Tasya van Ree, as hostes que saíram em sua defesa ignoraram este facto, pois agora o caso era contra Depp.

A acusação ao actor de violência doméstica teve graves repercussões na sua vida profissional, viu-se afastado do elenco de “Monstros Fantásticos 3” e da saga “Piratas das Caraíbas”, tudo devido as acusações de que era alvo. 

Findo o julgamento que na sua essência veio dar razão a Johnny Depp, logo saíram da toca os habituais indignados com as sentenças sempre que estas não vão ao encontro das suas expectativas e claro que em Portugal o coro de indignados, embora seja sempre o mesmo nestas matérias, é também um que tem bastante visibilidade e logo tem bastante responsabilidade quando emite as suas opiniões toldadas pelo fanatismo que os move.

Uma famosa cronista da nossa praça, militante convicta do feminismo, compara o caso a uma caça às bruxas e diz mesmo: “É impossível olhar para o julgamento que opôs Amber
Heard e Johnny Depp, bem como a envolvente mediática e as reacções nas redes sociais, e considerar que se tratou de aplicação da justiça”. Esta afirmação mostra bem o “mindset” actual dos activistas. Como a condenada foi uma mulher, logo não houve justiça.

Pouco importam os factos provados em tribunal ou que Heard tenha decepado um dedo ao então marido, que lhe tenha atirado com objectos, que o tenha agredido verbal e fisicamente ou que lhe tenha deixado uma “prenda” na cama do casal. O que importa aqui é o homem agressor v.s. mulher vítima.

Esta posição das feministas é mais prejudicial à sua causa do que à primeira vista parece: o facto de mostrar sempre a mulher como vítima menoriza o seu forte papel na sociedade e a sua intervenção social, conotando-a sempre com o lado mais fraco. 

Esta luta pelo feminismo, que por cá já levou Catarina Martins a afirmar que a “lingerie” oferecida pelo homem à mulher é como uma “burqa”, vem mostrar claramente a agenda radical do movimento.

O movimento feminista já há muito que deixou de ser por uma luta de igualdade entre os sexos e passou a ser uma luta marxista, que veio substituir a luta de classes. 

Os marxistas sempre viram a família como o maior obstáculo à sua afirmação social. Na ex-URSS, o código da família que impunha o amor livre atirou milhares de mulheres para a prostituição, levou a uma degradação social e, mais tarde, foi substituí-
do por leis a incentivar a criação de família. 

Para as mais radicais, o homem é sempre o culpado e ignoram os dados existentes relativos a violência doméstica entre casais do mesmo sexo e nos quais a violência exercida é muito maior sobre o companheiro nos casais homossexuais femininos.  

Existem várias vítimas de violência doméstica por esse mundo fora e essas vítimas têm de ser protegidas, independentemente de serem homens ou mulheres, e compete-nos a todos pugnar por um mundo onde todos se sintam seguros em casa ou na rua.

P.S. – Nas comemorações do 10 de Junho o presidente Marcelo Rebelo de Sousa foi a Londres visitar a elite portuguesa que vive na capital britânica, deixando de fora milhares de empresários e trabalhadores que diariamente lutam por uma vida melhor fora de um país que não lhes deu oportunidades. Esta atitude do Presidente é o espelho dos nossos governantes, que sistematicamente escondem debaixo do tapete os mais desfavorecidos para apenas mostrarem as poucas histórias de sucesso, comportamento típico de ditaduras falhadas. ■


O “Wokismo” leva-nos para caminhos incertos por José Guilherme Oliveira

Quer se queira quer não, o julgamento mediático entre o actor Johnny Depp e a sua ex-mulher Amber Heard, representava também um confronto com o movimento “Woke”, um espelho cultural da nova tendência da esquerda. 

Nesta nova consciência social, as ideias que não entram na categoria de aceitáveis são consideradas imorais. 

O “movimento” “Woke” e os estudos activistas e radicais, com a sua cultura de guerra e cancelamento e a sua implantação sustentada também na academia, com o surgimento dos novos estudos em justiça social, estão a levar-nos para caminhos estreitos e incertos.

capacidade ou pelo menos a intenção de tornar a opressão visível, através de um método operacional, digamos, que através de apresentar as situações de forma confrontacional, usando a arma da vitimização, colocando de um lado as vítimas oprimidas e do outro os poderosos e violentos opressores, tem feito o seu caminho de forma crescente, na cultura ocidental. 

Este é o método, estejamos a falar de pós-colonialismo, feminismo e teorias de género, raça e interseccionalidade. 

Não se sabe onde este caminho nos leva, mas “Deus nos livre”. Ninguém está seguro.

Se alguém, por infortúnio, cair nas garras dos novos activistas, por uma expressão menos conseguida ou opinião menos consentânea com as tendências, verá a sua vida destruída, atirada para o chão, arrasada, e sem capacidade de defesa nem de resposta, perante julgamentos instantâneos, baseados em afirmações, desvalorizando qualquer tipo de provas, avaliados apenas pelo crivo de uma nova ordem moral inquestionável. Quem ousar questionar pela racionalidade e pela ciência e pela moral, será no mínimo insultado, apelidado do pior e, no limite, Cancelado. 

É tudo muito tranquilo enquanto não atingir a nossa trincheira, mas, entretanto, no Canadá, já houve queima de livros do “Tintim” e a “mãe” do Harry Potter sofreu na pele, por ter insinuado, veja-se o atrevimento, que para ser mulher era preciso menstruar.

A vitória judicial, veio de alguma forma abrandar o ciclo compressor que se encontra em vigor.

O circo foi montado de acordo a fórmula, de um lado a vítima, desgraçada, oprimida e objecto de sevícias várias, do outro lado o opressor poderoso que infligiu o cardápio todo de maldades. Desta vez foi possível o escrutínio feito à base de provas, testemunhos e sob contraditório. Verificaram-se e descobriram-se factos. No decurso do litígio, entre outras coisas, soube-se que a vítima, coitada, achou por bem “aliviar-se” na cama do opressor, mesmo em cima dos lençóis. Maldito “poio”. 

Afinal as vítimas não são assim tão vítimas e os opressores não são o demónio na terra.

Com isto quem perdeu foram também a verdadeiras vítimas de violência, que os “Wokes”, na ânsia, desvalorizam.

P.S. – O problema é que a reacção ao movimento “Woke” dá-se encabeçado por uma direita radical, disparatada muitas vezes, encabeçada por figuras histriónicas, animados no confronto estridente, desvalorizando a razão, a ciência e a lógica, radicalizando os lados. 

A vitória alcança-se pela decência e pela ponderação, assim haja vontade. ■