Emergências sociais e fantasias criativas

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Neste ano a Republica Popular da China celebra o 79º aniversário da ascensão a líder do Partido Comunista Chinês de Mao Tsé-Tung, o “maior herói de toda a história da China”, que estendeu as suas “contribuições imortais” a todas as batalhas pela libertação popular, sendo um ícone ideológico e moral para todos os seus camaradas e seguidores – o formidável e augusto comandante da plebe armada que iniciou a indagação mundial pelo socialismo e, nas suas próprias palavras, pela conquista da “harmonia universal”. 

Não fossemos nós abrir um livro de história e encantar-nos-íamos com esta facécia. Todavia as 60 milhões de vítimas que a sua época de emergência revolucionária fez considerar os contra-revolucionários como “coisas” extraídas da sua dignidade humana, devem pesar na nossa consciência política. Refutando a crença de que as comunidades humanas se podem rearranjar ao bel-prazer da fantasia criativa da maioria. 

O Grande Passo em Frente – ou época dos “Fantasmas da Fome”, na expressão de Jasper Becker – que marcou o governo de Mao foi um desses grandes e opulentos monumentos à inocência humana e à sua inefável capacidade de se iludir com a magnificência dos planos que a própria compõe. O “Diário Popular” Chinês descrevia esta imposição da Revolução Cultural (de uma sociedade feudal para um paraíso marxista) como a “realização de uma antiga esperança” a 3 de Setembro de 1958, sendo óbvio o entusiasmo e a dedicação para que os políticos se lançavam nesta empreitada, sonhando que esta revolução fosse começada “espontaneamente pela massa popular, fundamentada na sua grande consciência social”. 

Todavia, rapidamente se diluiu o verniz das boas intenções, e a face absolutamente hedionda da tendência tirânica para a carnificina substituiu o deslumbramento pelo sofrimento, atroz e excruciante. 

O preconceito geral dos implementadores da Revolução Cultural era de que nada, nem desde o código moral do confucionismo, ou a Declaração Universal dos Direitos do Homem, se podia sobrepor à urgência de progredir rumo ao paraíso marxista. Já nem a própria conduta revolucionária servia dado que esta “não havia sido pensada para uma situação de emergência revolucionária”. Era preciso tomar uma abordagem pragmática. Os direitos e os deveres dos cidadãos não deviam comprometer o progresso do Grande Passo em Frente, “este sim seria o que determinaria os direitos consagrados e os deveres imputados”. 

E, bem sabemos – não que muitas vezes não pareça que necessitamos imperiosamente de ser relembrados – que a fé que proclama esta afronesia é uma auto-estrada directa para a barbárie. 

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