Extremistas fomentam clima de confronto

Com apelos à guerra entre etnias, monumentos vandalizados, um tom exacerbado de violência na praça pública e cada vez mais insultos e ameaças nas redes sociais, a “temperatura psicológica” do país está a rebentar o termómetro. O último episódio desta escalada foi a manifestação de radicais que espumavam pela boca com gritos de morte contra o cavaleiro João Moura.

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Lisboa, praça do Campo Pequeno, 26 de Agosto. Um grupelho insignificante mas ruidoso, a que as televisões gulosas de escândalo dão ampliação, manifesta-se contra a homenagem que decorre na principal arena tauromáquica do país. O cavaleiro João Moura é o homenageado. Mas as expressões faciais de ódio dos manifestantes não enganam, naquela tarde de “luta” contra alegados “maus-tratos a animais”. Os punhos erguidos, os gritos roucos, os encontrões às forças policiais e as ameaças expressas de “vingança” compõem um quadro medonho de agressividade, a lembrar os piores dias do período revolucionário de 1975.

As autoridades, através de informadores infiltrados nos meios extremistas da esquerda, sabiam com antecedência que a manifestação iria assumir contornos de violência. Por isso o contingente policial foi reforçado e à volta de toda a praça colocado um dispositivo com grades para dissuadir confrontos físicos. Mas o clima que se instalou ameaça descontrolar-se. Entre os próprios manifestantes há zaragatas, empurrões, gritos  e braços em riste. É chamado o Corpo de Intervenção da PSP. No final da homenagem a João Moura há ainda desacatos à passagem de espectadores a caminho dos seus carros. Por fim, uma hora depois de terminado o espectáculo, os extremistas enrolam as bandeiras e os cartazes e o sossego volta ao Campo Pequeno. 

A preparação desta cena de ódio não foi deixada ao acaso. A organização coube ao minúsculo partido Pessoas, Animais, Natureza (PAN) e as convocatórias repetiram-se pela internet ao longo dos dias anteriores. Particularmente activa esteve uma tal “Intervenção e Resgate Animal”, um grupelho extremista cujo acrónimo (IRA) lembra, talvez não por acaso, o partido separatista irlandês que matou centenas de pessoas ao longo de décadas de atentados terroristas.

Total ausência de civismo

Habitualmente, os activistas da IRA apresentam-se de cara tapada por balaclavas, como os terroristas na Irlanda e os SUVs no Portugal do PREC, e têm sido acusados de ameaças e perseguições armadas a pessoas que mantêm as velhas tradições rústicas e venatórias portuguesas. Segundo o JN, “um dos membros deste grupo será Cristina Rodrigues, chefe de gabinete do grupo parlamentar do PAN e membro da comissão política do partido”, o qual já anunciou que “mantém a confiança política na sua dirigente”.

As contas da IRA no Facebook e no Instagram serviram para mobilizar militantes, em muitos casos com apelos carregados de rancor. Para que a manifestação não acabasse totalmente em ‘flop’, a organização chegou ao ponto de “disponibilizar” um autocarro para “levar manifestantes do Porto”.

No dia seguinte, a Protoiro / Federação Portuguesa de Tauromaquia acusou o PAN de incitamento público à violência. “Condenamos o uso de um discurso de incentivo ao ódio e de justicialismo público por parte do PAN”, referiu em comunicado a Protoiro, que acusou ainda o PAN de “desrespeitar os mais básicos princípios de um Estado de Direito democrático” na sua “tentativa de ataque à cultura tauromáquica e aos valores de tolerância e respeito pela liberdade e diferença de pensamento”.

No comunicado, a Federação Portuguesa de Tauromaquia condena “a violência, insultos, vandalismos, intimidações e agressões que foram realizadas pelos manifestantes, atacando cidadãos e famílias, muitas vezes na presença de crianças, numa demonstração de ódio e total ausência de civismo”, e elogia “a forma ordeira, pacífica e civilizada com que os aficionados suportam estas demonstrações de violência”.

Problema mais geral

Mas não é só em torno da tauromaquia que está instalada uma atmosfera de confronto e violência. No último fim-de-semana, a questão foi posta em termos mais gerais pelo presidente do CDS-PP, Francisco Rodrigues dos Santos, que acusou várias personalidades da esquerda da autoria moral dos crimes contra o património que têm ocorrido em Portugal, apelidando-os de “ignorantes radicais” e pedindo que sejam julgados. O líder centrista frisou que é tempo de julgar os “autores morais deste tipo de atitudes”.

Prosseguindo, ‘Chicão’ deu três exemplos: Ascenso Simões, que “tem incitado à destruição do Padrão dos Descobrimentos”; Mamadou Ba, “pago com dinheiro público em comissões de combate ao racismo quando é dos maiores racistas que temos no nosso país, que diz inclusivamente, metaforicamente falando, que é tempo de matarmos o homem branco”; e Joacine Katar Moreira, que “está sentada no Parlamento” e “lidera estes movimentos anti-Portugal”.

Alguns destes comportamentos encontram eco nas chamadas “redes sociais”, onde ultimamente se tem agravado o tom exaltado e intolerante de comentários e ‘posts’, por vezes com trocas de insultos e ameaças de retaliação física. O caso do dirigente do auto-proclamado SOS-Racismo, Mamadou Ba, foi dos mais comentados, pois os seus apelos à “morte do homem branco” seguem-se a declarações de ódio dirigidas contra os agentes da PSP, corporação a que chamou “bosta da bófia”. A sua explicação displicente de que se trataria de “metáforas” destina-se, obviamente, a evitar processos judiciais, sem que retire o essencial das suas mensagens ou por elas peça desculpa.

O vandalismo contra estátuas e monumentos nacionais, capítulo em que o deputado socialista Ascenso Simões e uma militante radical francesa assinaram lamentáveis episódios, é outra expressão do clima crispado que se sente hoje em Portugal. “Vivemos a ‘cultura do cancelamento’, em que o passado é lido de forma apressada, as estátuas são derrubadas e os gritos de indignação – geralmente, senão sempre – são fruto mais de ignorância do que estudo, conhecimento e análise”, escreveu no jornal ‘Observador’ o Padre Ricardo Figueiredo, Prior de Óbidos. No seu artigo, o sacerdote alerta para “uma sociedade que está em risco de esquecer de onde vem e qual a sua identidade”. ■