Fake News à moda da esquerda

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O retrato de Mussolini na secretária de Salazar

Sempre que seja oportuno ou adequado, em qualquer pedaço de prosa sobre Oliveira Salazar, inevitavelmente se estampa uma foto tornada quase icónica: o governante à sua secretária falando ao telefone e em cujo tampo, à direita, está uma moldura com a fotografia autografada de Mussolini. A intenção é invariavelmente a mesma: colar a imagem de Salazar ao fundador em Itália da doutrina fascista. O mesmo acontece com uma ou duas outras fotos em que o Chefe do Governo faz a saudação romana, que fora adoptada pelos seguidores do fascismo.

Como é óbvio, o aproveitamento dessas duas raras ocasiões não é inocente. Para os historiadores marxistas ou para aqueles, bastantes, que gravitam na sua órbita, mormente os jornalistas, é um excelente ensejo para passar a mensagem da sua tese: o salazarismo era um fascismo, mas em versão portuguesa. Não iremos entrar na saturada polémica, que até a hoje persiste, de saber se o Estado Novo era ou não fascista. Factores ineludíveis provam que não. Em síntese muito feliz, José Miguel Sardica opina que “o regime de Salazar foi uma experiência ditatorial não fascista, moderada, autoritária e explicitamente não totalitária”. E, se assim é para o salazarismo, muito menos o será para o seu criador. Prova disso está na decisão governamental de, em Julho de 1934, pura e simplesmente dissolver o Movimento Nacional-Sindicalista, liderado pelo antigo integralista Francisco Rolão Preto. Este, sim, com características e atavios copiados ‘ipsis verbis’ do modelo fascista. Na nota oficiosa redigida por Salazar, então publicada, explicita-se que a decisão fora tomada pela comprovada inspiração do Movimento Nacional-Sindicalista em certos modelos estrangeiros, nomeadamente o fascismo italiano. Nada mais claro e objectivo. Por isso, qualificar o Presidente do Conselho de fascista, quando dele próprio parte a medida que corta cerce a única tentativa em Portugal de implementar um partido de padrão fascista, é pretender enviesar grosseiramente a realidade histórica.

Para melhor se compreender a existência da fotografia de Mussolini sobre a mesa de trabalho de Salazar, recebida por Julho de 1934, mister é recuar um pouco no tempo. No rescaldo da 1ª Grande Guerra Mundial, os anos 20 do século passado foram palco de uma proliferação de organizações e movimentos comunistas em muitos países da Europa. Os desastrosos resultados económicos, políticos e sociais desses exercícios de poder, quantas vezes anárquico, levaram naturalmente a uma reacção das maiorias moderadas – que não apenas as elites, tais como os capitães da indústria, os grandes agrários e as altas patentes militares mais conservadoras, como querem fazer crer os actuais historiadores marxistas-trotskista-leninista e maoístas. Não surpreende, portanto, que na década seguinte, e por natural reacção, se assista à profusão de regimes autoritários, fascistas ou com tendências fascizantes. Além dos logicamente citados como paradigma, a Itália e a Alemanha, há que referir vários outros: o Estado Novo português, na decorrência da Ditadura Militar que derruba a democracia caótica da 1ª República; o regime ditatorial castrense do General Franco em Espanha, após uma sanguinolenta guerra civil; e ainda os casos de governos autocráticos ou de cariz fascista implantados na Áustria de Engelbert Dellfus, na Hungria de Miklós Horthy, na Grécia de Ionnis Metaxas, na Jugoslávia de Alexandre III , na Roménia de Carol II, na Bulgária de Bóris III e ainda nas ditaduras dos Estados Bálticos da Estónia de Constantin Pats, da Lituânia de Antanas Smetona e da Letónia de Karlis Ulmares

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