O careca que lhes pôs a careca à mostra

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o empresário madeirense José berardo nada tem de santo ou de herói – bem pelo contrário, como se comprovou nas últimas semanas. Mas com a sua desbocada intervenção na comissão parlamentar de inquérito à Caixa Geral conseguiu a proeza de pôr a nu os podres de um sistema em que políticos, banqueiros e ‘boys’ da máquina do estado rapam o tacho e apresentam a conta ao Zé povinho. não admira que, por uma razão ou por outra, estejam todos contra o desastrado que pôs a boca no trombone…

De repente, ‘Joe’ Berardo tornou-se o demónio em pessoa. O pior empresário do mundo. O epítome do compadrio e da corrupção. A fonte de todas as desgraças nancei- ras que algum dia se abateram sobre a Caixa Geral de Depósitos, a banca e o País. O fanfarrão ofensivo que vai à Assembleia da República zombar dos portugueses. O descarado que confessa os truques que usa para enganar tudo e todos e ainda por cima ficar a rir. O mais repugnante exemplo do que pode haver de pior na economia portuguesa. A cada dia que passa, mais adjectivos de asco são colados ao sorriso provocador de um ‘chico-esperto’ que, a partir de uma colecção de arte, cou podre de rico e fez gato-sapato de tudo e todos.

Sim, tudo isso está muito certo. Mas que dizer, então, dos políticos e gestores que lhe abriram caminho na banca, nos corredores governamentais e na passadeira vermelha das honrarias de Estado? Onde estão os primeiros-ministros, os governadores dos bancos e os altos dirigentes das empresas públicas que zeram de um negociante boçal um dos homens mais poderosos da economia do Portugal democrático?

Família socialista
Enquanto o povo legitimamente se indigna com o descaramento de um homem que chega de Rolls Royce, usa mansões e palácios como seus, vive como um nababo, deve milhões à banca (e com desplante vai ao Parlamento dizer que nada está em seu nome, nada lhe pode ser tirado e por isso “nada deve”), os homens que desde há décadas lhe atapetam o caminho e o trazem nas palminhas juntam-se sorrateiramente ao coro dos indignados – na esperança de que, crucificando Berardo, a populaça não dê por eles. Para os homens que inventaram Berardo e lhe deram meios para crescer, o ideal seria, mesmo, que ele fosse condenado rapidamente. Banido da sociedade. Desacreditado. Silenciado de uma vez por todas – não vá ele continuar a pôr a boca no trombone

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