Gostamos de brincar aos grandes, sem termos noção do nosso papel

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Anda Putin preocupado se invade ou não a Ucrânia, a pesar os prós e contras, desfazendo-se em telefonemas de francês aprimorado e alemão após ver os tutoriais de Rui Rio, e Portugal presta resposta musculada, capaz de fazer o russo tremer. Curiosamente, nas rádios e televisões, quando pensei que a mesma fosse entregue em mão pelo Medina. Imaginei umas gatafunhadas, tipo prescrição médica, a dizer: “Vladimir, põe-te a pau!”. Mensagem singela, é certo, mas nós que nascemos no século passado bem sabemos a importância do conselho parental. Um “põe-te a pau” vindo do progenitor punha-nos logo em sentido pois era o prenúncio de uma tareia terapêutica. Hoje, à distância que a idade e sabedoria impõem, percebemos a bonomia da expressão. Era um aviso (o único, diga-se!), que nos instava a mudar de comportamento. Era também uma oportunidade de mudança. Em bom rigor, os nossos pais nem queriam aplicar o correctivo que, mesmo há décadas atrás, era uma chatice bater na canalha e eles bem dispensavam o exercício físico que o assentar de uma boa lamparina nas trombas representava. O “põe-te a pau” nunca vinha acompanhado de predicado. Não era preciso. Estava implícito! Fosse o que fosse, nunca era coisa boa. Essa garantia era como o algodão – não enganava! 

Já Putin, engana. Comporta-se como Costa. O “agarrem-me, senão invado”, tem um certo travo de “agarrem-me, senão governo”. Tipo miúdos, só com ameaças vãs.

Ainda assim, Costa mostrou que não se fica. Começou por mandar limpar os russos na final de futsal, só para eles perceberem ao que vínhamos. Que, para quem bebe bagaço, o mito dos bebedores de vodka ao pequeno almoço soa a estória de embalar. Quero, por isso, crer que o discurso inflamado do nosso primeiro, encerra ameaça muito mais grave do que mandar o Santos Silva despentear Putin. O tal bilhetinho que o núncio Medina levará a seguir ao “põe-te a pau!”, será uma declaração de guerra à séria. Qualquer coisa como:

“Portugal declara guerra à Rússia. Informamos que possuímos 34 tanques (12 em funcionamento. O PNS está a negociar a compra de peças em segunda mão a Espanha), 2 mísseis de curto alcance (com instruções em chinês, por troca com os ventiladores que ainda estamos à espera), um submarino (no estaleiro, mas muito bonito), uma fragata escola, 5 antiaéreas (que a Alemanha nos ofereceu depois da II Guerra Mundial), 6 aviões Fiat e 25.000 homens prontos para combate (alguns armados com faca de mato)”.

Responderia a Rússia:

“Aceitamos a Guerra. Temos 620.000 tanques. 4.000 submarinos, 12.000 fragatas. 7.000 “crusaders”, 1.500 porta-aviões, mais de 100.000 meios aéreos, vários mísseis nucleares, um conjunto de defesas que ocupa toda a Ossétia do Norte e 15 milhões de soldados”.

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