Haveria “outra solução” para o Ultramar em 1974?

Haveria “outra solução” para o Ultramar em 1974?

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MANUEL BERNARDO

CORONEL DE INFANTARIA

Em 16 de Março de 1974 (completam-se este mês 43 anos), um grupo de oficiais ‘spinolistas’ saiu à rua numa tentativa abortada para derrubar o regime então vigente: foi a chamada “intentona das Caldas”. Ultrapassados pouco depois pela ala esquerdista do Movimento dos Oficiais das Forças Armadas que tomou nas mãos o golpe de Estado, esses oficiais viram frustrada a sua esperança numa solução para o Ultramar que não implicasse a entrega dos territórios de África ao domínio soviético. Mais de quatro décadas depois, O DIABO desafiou o Coronel Manuel Bernardo a recordar o 16 de Março de 1974 respondendo à pergunta: teria sido realmente possível uma “alternativa” ao 25 de Abril que permitisse “outra solução” para o Ultramar, que não aquela que foi depois adoptada pelo MFA? Neste artigo, o conceituado analista e escritor de temas político-militares sopesa os vários factores em jogo e responde.   

“Quando fui para a Guiné (1968), no tempo do Dr. Oliveira Salazar, tive uma grande conversa com ele, que me surpreendeu extraordinariamente […]. O problema não tinha solução militar”.

General António de Spínola, in Manuel A. Bernardo, “Marcello e Spínola/A Ruptura”, pág. 204.

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“Quando regressei de Moçambique, em Agosto de 1973, depressa eu e outros generais nos convencemos da incapacidade crescente do Presidente Marcello Caetano relativamente ao enfrentar dos problemas nacionais de então e, nomeadamente, do problema ultramarino”.

General Kaúlza de Arriaga, in Manuel A. Bernardo, “Memórias da Revolução”, pág. 117.

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“Na madrugada do 25 de Abril de 1974 […], a guerra do Ultramar não estava ganha, mas muito menos estava perdida […]. Era muito diferente a situação na Guiné, em Angola e em Moçambique. Difícil na Guiné; complicada circunstancialmente em Moçambique; quase arrumada – a nosso favor – em Angola”.

Historiador Jaime Nogueira Pinto, na sua obra “O Fim do Estado Novo e as Origens do 25 de Abril”, pág. 39.

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“A descolonização foi feita na defesa dos interesses políticos e estratégicos da União Soviética, dos seus aliados e dos seus movimentos no terreno. Foi contra os interesses permanentes de Portugal, contra os portugueses residentes em território sob nossa administração e contra os interesses das suas populações”.

Major-General Manuel Monge, in Manuel A. Bernardo, “Memórias da Revolução”, pág. 559.

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Para maior esclarecimento dos leitores, irei tentar ampliar o pensamento manifestado pelos três generais acima referidos em relação ao tema, e por mim entrevistados para os livros indicados, assim como o do historiador (também combatente na fase final da guerra) Jaime Nogueira Pinto.

António de Spínola

António de Spínola considerava ter sido surpreendido por Salazar na conversa acima referida, nomeadamente pela abertura que este manifestou em relação à guerra decorrente na Guiné. E mais à frente, nesta entrevista que me concedeu na sua residência, acrescentou:

“Tinha já tido a minha experiência de Angola. Foi aí que me apercebi da impossibilidade de resolver o problema do Ultramar português pela via exclusiva da guerra […]. Entendi que era chegada a altura de lhe fazer uma crítica frontal à sua política ultramarina. Os grandes países não tinham conseguido resolver situações idênticas. E nós, então orgulhosamente sós no mundo, jamais poderíamos levar avante uma solução utópica”.

Depois, ainda segundo António de Spínola, este colocou três condições ao Presidente do Conselho (Salazar) para aceitar o cargo de Governador e Comandante-Chefe da Guiné para que fora convidado: ter elementos na equipa da sua exclusiva escolha; montar uma emissora de rádio na Guiné; e que “se os problemas não fossem resolvidos com a celeridade exigida para um território em guerra, ele estaria autorizado em dirigir-se directamente a Salazar”. Este terá aceitado estas condições e perguntado: “Então quando é que embarca?”.

Quanto às suas relações com Marcello Caetano, que nesse mesmo ano de 1968 sucedeu a Salazar, António de Spínola afirmou que então até se considerou como “marcelista”. No entanto, a partir da altura em que Caetano não permitiu a continuação das negociações, em 1972, no Senegal, com vista a um cessar-fogo, entrou em situação de ruptura com o governo de Lisboa, nomeadamente após a sua saída de funções, na Guiné, em Julho de 1973.

Kaúlza de Arriaga

Este militar, considerado um grande “Cabo-de-Guerra” pela sua actuação em Moçambique (1970-1973), na entrevista atrás referida, e que posteriormente apareceria a circular na internet (não foi por minha iniciativa), sobre as suas relações com Marcello Caetano, acrescentaria:

“Procurámos a sua substituição (de Caetano) através de diversas diligências, com excepção do golpe de Estado, porque temíamos a projecção que essa acção em Lisboa pudesse ter em Angola e em Moçambique, onde decorria a guerra”.

Segundo a sua versão, pressionaram Américo Thomaz (PR) para que Caetano fosse demitido, que apenas aceitou fazê-lo depois de uma última insistência sua, já depois do 16 de Março (1974); no entanto, terá hesitado na escolha do sucessor até ao 25 de Abril.

Pelo que me apercebi (e resumindo), Arriaga era apologista da continuação da guerra até que, a nível internacional, fosse possível fazer uma descolonização mais condicente com o objectivo de Moçambique (como Angola e Guiné) se tornar num “novo Brasil”; “esperar pela queda do Muro de Berlim”, que apenas ocorreu em 1989.

E a questão que se colocava era: havia meios humanos e materiais para Portugal continuar o esforço de guerra?

A coluna militar do quartel das Caldas da Rainha nos arredores de Lisboa

Jaime Nogueira Pinto

Subscrevo o que este estudioso e comentador dos Media referiu no seu livro, e atrás transcrito, sobre a situação militar nos três teatros de operações, em África. E ele acrescentava:

“Mas no quadro deste tipo de conflito, poderia sempre agravar ou melhorar. E não tinha nada a ver com as descrições apocalípticas que a propaganda veio pintar, como se se tratasse de Estalinegrado ou de um Vietname. E em termos de baixas, hoje com as estatísticas consolidadas de toda a guerra, pode, sem demagogia, dizer-se que o trânsito nas estradas portuguesas mata e estropia, em média, mais Portugueses num quadriénio, que toda a guerra nos treze anos que durou a luta em África. E ninguém deixa de andar de automóvel. O argumento é politicamente incorrectíssimo? Sem dúvida. Mas não deixa de ser verdadeiro”.

Depois desta análise bastante realista, o Professor envereda, no seu texto introdutório à 2.ª edição desta obra (1995), pelas críticas à maneira como foi realizada a descolonização no pós-25 de Abril de 1974. E acrescentaria a terminar:

“Porque, por um desses mistérios cíclicos que fazem a não linearidade e a surpresa da História, vinte anos depois do 25 de Abril é a própria África, em crise, que procura soluções de alternativa […]. A memória dos vencidos com honra – desde que transformada em património de continuidade e de agregação – é sempre um exemplo e um estímulo nesta História interminável de gerações, de espaços, de sonhos, de crises, catástrofes e recomeços, que é a vida dos homens, das famílias que Deus deu aos homens neste mundo – as Pátrias”.

O brigadeiro Pedro Serrano, 2º Comandante da Região Militar de Tomar, intima os revoltosos a renderem-se

Manuel Monge

Antes do texto atrás transcrito, este militar afirmava: “Com o 25 de Novembro (1975) podemos dizer que a força adepta da democracia tipo ocidental saiu vencedora. É verdade. Mas, no tocante à descolonização, a vanguarda pró-soviética, ou seja o PC/MFA, foi a vencedora”.

E sobre as consequências deste tipo de descolonização, Manuel Monge acrescenta, no que se refere aos três territórios ultramarinos que vimos analisando: “Em resumo: deixámos em Angola e Moçambique duas intermináveis guerras civis, que lançaram esses países na miséria, no ódio e na degradação […]. Na Guiné-Bissau ficou no poder Luís Cabral, cujo governo perseguiu e mandou matar milhares de compatriotas seus, que tinham servido com os portugueses. Só com a chegada do Presidente Nino Vieira terminou a chacina”.

Concluindo…

À questão colocada, sobre se haveria “outra solução” para o Ultramar em 1974, a resposta, depois de abordarmos estes e outros depoimentos de quem teve responsabilidades nos teatros de operações, é necessariamente não! E para mim julgo que o ‘timing’ já tinha sido ultrapassado, havia alguns anos, para terminar a guerra de modo que a descolonização fosse realizada de outra maneira (julgo que em 1972 houve a última tentativa ainda aceitável para esse efeito). As negociações teriam obrigatoriamente que ser realizadas com os movimentos guerrilheiros, de preferência com Portugal em posição de maior força militar, tal como terá sucedido com os franceses na Argélia.

Assim, o nosso País acabaria por ser um joguete perante as duas super-potências, que em Agosto de 1975, em Helsínquia, “homologaram” a maneira como a descolonização em África estava a ser realizada.

Sobre o Autor

Manuel Amaro Bernardo, Coronel de Infantaria na reforma, nasceu em Faro, em 28-3-1939, e reside em Carnaxide. Após completar o Curso da Academia Militar (1959), desempenhou durante 36 anos funções de comando e chefia de pessoal militar e civil, oito dos quais em África (Angola e Moçambique), nas quatro comissões por escala que cumpriu entre 1961 e 1973.

Após o 25 de Abril, com o posto de major, esteve colocado no Batalhão de Comandos (depois Regimento), tendo feito parte do Posto de Comando, na Amadora, que coordenou as acções militares de contenção do golpe de 25 de Novembro de 1975. Depois do Curso Geral de Comando e Estado-Maior (1976/77), desempenhou as funções de Director de Instrução do Regimento de Infantaria de Angra do Heroísmo (1977/78), foi Oficial de Operações e 2.º Comandante do então Batalhão n.º 2 da GNR (1979/85). Após desempenhar as funções de Subchefe do Estado-Maior, no Quartel-General da Região Militar Sul, em Évora, esteve colocado nos Tribunais Militares Territoriais de Lisboa, onde foi Promotor de Justiça e Juiz Vogal/Presidente, durante cerca de oito anos (1987/95). É diplomado com o Curso Complementar de Ciências da Informação da Universidade Católica Portuguesa (1990/93).

O Coronel Manuel Bernardo é presença habitual na imprensa, tendo sido colaborador de jornais diários e semanários nacionais e regionais. Foi redactor da revista “Mama Sume”, da Associação de Comandos, e colaborador do “Boletim da Associação da Força Aérea Portuguesa” e de “O Combatente”, da Liga dos Combatentes. N’O DIABO tem publicado vários artigos ao longo dos anos.

Tem vasta obra publicada em livro. Em 1977 estreou-se assinando com o pseudónimo “Manuel Branco” a obra “Os Comandos no Eixo da Revolução/Crise Permanente do PREC/Portugal 1975/76 (352 pp) na Editorial Abril (seis semanas no quadro dos best-sellers).

Publicou depois: “Marcello e Spínola/A Ruptura/As Forças Armadas e a Imprensa na Queda do Estado Novo/Portugal 1973-1974” (1994); “Equívocos e Realidades/Portugal 1974-1975” (1999); “Timor/Abandono e Tragédia/A ‘Descolonização’ de Timor (1974-1975)”, em co-autoria (2000); “Combater em Moçambique/Guerra e Descolonização 1964-1975” (2003); “Memórias da Revolução/Portugal 1974-1975” (2004); “25 de Novembro/Os ‘Comandos’ e o Combate pela Liberdade”, em co-autoria (2005); “Guerra, Paz e Fuzilamentos dos Guerreiros/Guiné 1970-1980” (2007); e “Grades de Papel/Caxias 1975/Condomínio Fechado”, em co-autoria (2013).

  • PAFioso Mentiroso

    Angola e Moçambique não foram colonizados de uma maneira como foi a Africa do Sul, para permitir um desenvolvimento mais rápido e evitar a guerra civil entre tribos apoiadas pela União Soviética e pelos EUA. Portugal teve a oportunidade de colonizar aqueles territórios com os judeus que o Hitler abateu (porque ninguém os queria) e depois da primeira guerra mundial Portugal devia ter aberto um processo de colonização dos territórios Africanos com gente da Índia (Goa, Damão e Diu) e China (Macau). Esquecendo os milhares de mortos que Angola e Moçambique tiveram com as suas guerras civis apos a independência, eles ate tiveram sorte com os Portugueses porque nos não fomos usurpadores como a Inglaterra fez na Africa do Sul e médio oriente. Portugal colonizou os acores, Madeira e Brasil, mas apenas geriu os restantes territórios. Na minha opinião o Salazar devia ter feito uma permuta com a Angola, obrigando a maioria da população de Portugal continental a emigrar para Angola, e colonizar Portugal continental com população Africana de maneira a que os brancos fossem um minoria em Portugal e uma maioria em Angola.

  • Teixeira.net

    Foi exactamente por ser o nosso maior inimigo, que a URSS foi a 1ª a desaparecer: por ser comunista, por auxiliar os terroristas a atacarem o território nacional. Excluindo o Ultramar, A UE, os EUA (apoiaram a FNLA) e China estão a sofrer ataques terríveis e como eu já mostrei em documentos da Defesa Americana, dos Russos,…não sabem como se hão-de defender. E por uma razão muito simples: os Sistemas de Defesa que eles têm, arranjamos nós no Toys R Us!
    Que chatice!
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    EXEMPLO DE UM DOS ATAQUES DOS NOSSOS SISTEMAS A INSTALAÇÕES SOVIÉTIICAS, PARA NÃO FALAR DE CHERNOBYL:

    Blast Reported at Soviet Plant That Makes Vital Missile Part
    By ROBERT PEAR, Special to the New York Times
    Published: May 18, 1988

    WASHINGTON, May 17— An explosion has destroyed several buildings at a Soviet plant that produces rocket motors and fuel for long-range missiles, the Defense Department reported tonight.
    Pentagon officials said the explosion, which took place last Thursday, appeared to be a significant setback for Moscow’s intercontinental ballistic missile program. The officials said the explosion could delay the production and deployment of SS-24 missiles for at least six months.
    The Pentagon said the explosion took place at a missile-propellant plant in Pavlograd, a city of 20,000 in the Ukraine 500 miles south of Moscow. Only Such Factory
    Administration officials said the Pavlograd plant was the only Soviet factory that manufactured the main rocket motors for the SS-24 missiles.
    The Kremlin began deploying the missiles last year, according to the Defense Department. The SS-24 carries up to 10 nuclear warheads and can be deployed in silos or on rail tracks as a mobile missile. It is about the size of Washington’s MX missile.
    The Defense Department issued a statement saying the explosion appeared likely to delay ”Soviet solid-propellant missile programs.” It was not immediately clear whether the blast would affect production of the SS-25, a mobile Soviet missile that carries a single warhead. Both missiles use solid-fuel propellants.
    Administration officials said the explosion at Pavlograd, detected by a United States spy satellite, apparently destroyed several assembly lines at the fuel production plant. ‘Catastrophic’
    An Administration official said the explosion was ”catastrophic” for the Pavlograd plant but not necessarily for the the SS-24 program because the Soviet Union would rebuild the plant. The official said he did not know how long the rebuilding would take.
    The Pentagon did not know the cause of the explosion or the number of casualties, but an Administration official said he assumed that there were injuries because the damage was severe.
    The main work of the plant, according to American officials, was to build cylinders of rocket fuel. Such cylinders are known as rocket motors because their fuel burns with explosive force, driving the rockets with immense power. A fire in the fuel assembly plant would set off a major explosion if it accidentally ignited the fuel.
    The accident at the Pavlograd plant came just two weeks after a series of explosions destroyed an American solid rocket fuel plant in Nevada.
    map of the Soviet Union highlighting Pavlograd