Homens bons; homens mortos

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A (alegada – e prometo que irei tentar justificar o adjectivo) morte de João Rendeiro trouxe à liça uma série de questões, tendo dividido o mundo virtual opinativo (quase tentado a escrever o virtual mundo opinativo) entre o merecimento do castigo e a santificação “post-mortem”. Este segundo é uma característica muito própria do ser humano: beatificar os defuntos no corolário que todo o homem morto era um homem bom (atenção, não trocar a ordem frásica, já que o inverso não é obrigatoriamente verdadeiro!). Esta afirmação roça uma teologia muito própria de expiação de culpas e pecadilhos, projectando uma solidariedade cristã (ou próxima disso) num desconhecido de quem o pouco que sabemos é que faleceu. O “coitado”, que emprestamos ao nome do defunto, parece servir de salvo-conduto para o reino dos céus, num apelo inaudível para que Deus (qualquer que seja) receba a sua alma e lhe dê o eterno descanso. Abro um parêntesis muito largo para as almas que não descansam, já que deve ser uma canseira passar a eternidade de um lado para o outro…  Será uma vida mais ou menos parecida com a de Sócrates que, durante a eternidade que dura a instrução do seu processo, anda ora por cá, ora pelo Brasil, sem parar verdadeiramente em sítio algum!

Retomando: depois das (muito) breves comiserações, seguimos as nossas vidas, de coração cheio, sentindo-nos bons filhos de Deus, educados na fé e no respeito pelas vidas humanas. Mal paramos para pensar que esse respeito era merecido e devido quando a pessoa ainda fumava e pagava impostos e de pouco serve depois de bater a caçoleta. O préstimo que poder dar a esse respeito serôdio de nada serve ao defunto…

Ao invés, não porque transvestidos de anticristos ou descrentes no além, mas por mero pragmatismo e coerência de raciocínio, há aqueles que, quase querendo ser algozes, advogam a justiça e merecimento do destino. A vida destes está bastante simplificada, já que os juízos de valor são sempre presentes e não carecem de profissões de fé. Se era mau, trafulha, ladrão e outros que tal, e morreu, tanto melhor, é bem feito! Há um quase frivolismo maniqueísta que se compreende, goste-se ou não!

Difícil é encontrarmos o meio termo. Rendeiro não foi pessoa consensual. O seu ego, os seus disparates, a sua cobiça e a sua ambição desmedida, custou-nos muito, a todos, e irá custar durante muitos anos. A sobranceria demonstrada no decurso dos processos judiciais, a vida de luxo quando era procurado pela Justiça, os quadros que ganharam forma animal e se puseram a andar para fora da sua mansão e a fuga para parte incerta ridicularizando a Justiça portuguesa, em nada ajudaram para que se criasse empatia com o banqueiro enquanto este ainda respirava.

É certo que foi este que, devidamente aconselhado (presume-se) escolheu a costa paradisíaca da África do Sul para assentar arraiais. E que, depois de capturado, escolheu permanecer numa prisão extremamente violenta e sobrelotada, vivendo em condições quase desumanas, a regressar a Portugal e enfrentar as malhas da justiça, num processo legal e garantístico dos seus direitos enquanto arguido e ser humano. Foram escolhas suas, supostamente livres, consciente e devidamente esclarecidas (muito mais até que o comum dos mortais em situações semelhantes). 

Rendeiro não se tornou um homem bom porque (alegadamente) pôs uma corda ao pescoço. Também não foi merecido ou bem feito, porque o “castigo” foi auto-infligido.

Tornou-se, apenas, um homem morto, que nem o direito a um reconhecimento cabal e inequívoco do corpo mereceu, originando um rol de suspeitas escusado, para si, para os seus e para as autoridades envolvidas.

Mais importante do que as considerações teleológicas, as crenças religiosas ou os estados de alma é saber como chegámos aqui. Como, enquanto sociedade, podemos permitir que os processos se eternizem, que os arguidos se evadam, que os condenados vivam em condições desumanas e os reclusos se enforquem. Que os conselheiros, pagos a peso de ouro, continuem a perorar, neste e noutros processos sem serem confrontados ou questionados sobre o desfecho dos seus conselhos. 

É que todo este sistema, podre, caduco, ineficaz e, nalguns casos, até desumano, podemos mudar. Enquanto homens, enquanto sociedade, enquanto eleitores… Garantir a celeridade dos processos, o reforço de pessoal na Justiça e nas forças de segurança, a efectivação e melhor coordenação das políticas de cooperação internacional, prisões dignas, dotadas de condições e de pessoal suficiente e com formação adequada, um correcto e eficaz acompanhamento ao nível da saúde mental dos reclusos, da ocupação dos seus tempos e actividades em função da sua personalidade, perigosidade e tipo de crime praticado, a classificação dos estabelecimentos prisionais não em função da altura dos muros, do número de guardas e de torres de vigia, mas em função das valências e condições que oferecem e correcta e adequada distribuição dos reclusos segundo os referidos princípios, cabe ao Governo. Terá custos, é certo, mas bem menores que a chacota internacional ou as vidas de uns quantos Joões presas por um lençol ao tecto de uma cela…

E convém não esquecer que, de todos os sítios que Sócrates poderia ter escolhido para se doutorar, optou pelo Brasil, onde o seu amigo Lula leva um enorme avanço nas sondagens na corrida para a presidência. Não fosse este circunstancialismo político-temporal e não sei se a universidade de Caracas não seria academicamente mais apelativa que a de São Paulo. Coincidência ou mero acaso, as intersecções em ambos os casos são mais que muitas. Processualmente, garantisticamente e na empatia (ou falta dela) que os protagonistas projectam na sociedade. Espera-se, seguramente, um outro desfecho. 

Faça Sócrates as opções que entenda por convenientes, não é isso que fará dele um homem bom. 

Já nós, seremos bons quando passarmos a exigir governos que lhes dêem lençóis para os cobrir nas noites de frio e não para se enforcarem…

“Requiesce in pace”! ■