Já chega de bater no Chega!

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Portugal tem sempre que inventar algo que não sirva para nada. Se puder inventar algo que sirva para baralhar ainda mais, sustentar a dúvida e lançar incertezas quanto ao resultado, tanto melhor. Se, para além disso, a coisa for de borla e ainda renda qualquer coisita aos do costume, então é ouro sobre azul. Num plano (pós-)pandémico e fruto de uma crise artificial inventada pelo senhor Presidente da República, o que se pedia era clareza aos intervenientes. Que os tempos de antena servissem para apresentar propostas, esclarecer cenários, escalpelizar propostas. Em suma, para que cada um dos candidatos pudesse dizer aos portugueses ao que vinha, qual o seu programa e porque é que lhe deveriam confiar o voto. Ao invés, optou-se por frentes a frentes em número que rivaliza com as temporadas do “Serviço de Urgência”. Joga-se o jogo da falsa democracia, em que todos são tratados por igual, como se todos tivessem as mesmas hipóteses, importância e representatividade. O politicamente correcto televisivo até operou o milagre de ter Rui Tavares a debater quando o Livre há muito perdeu representatividade parlamentar. Este trato de pretensa igualdade é bonito, fica bem, mas não serve para nada.

Outras democracias, daquelas a sério, que se estão a marimbar para o politicamente correcto e tratam as coisas como elas são, pretendem esclarecer os eleitores quanto aos cenários que podem resultar em caso de vitória de A ou B, relativamente a matérias de sobeja importância. Numa maratona de vários dias, cada um deles dedicado a um tema específico, os dois principais contendentes são bombardea-
dos com perguntas muito concretas relativamente aos seus programas. Por cá, inventamos debates entre candidatos que jamais terão hipóteses de ganhar e os prováveis vencedores que nem programa de Governo tinham para apresentar… 

Do circo afastou-se logo o PCP, já que a democracia e regras de conduta são boas é para os outros. O respeito pelos eleitores e outros partidos é coisa que nunca assentou bem aos comunistas, excepto quando o partido pequeno eram eles e aí os direitos e respeito pelas minorias, mais frágeis e mais indefesos era para cumprir e amplificar. É uma perspectiva utilitária do regime democrático, que serve para as conveniências e se ataca, esquece e combate quando nos é desfavorável. Aqui, nada de novo, portanto.

Rui Tavares foi a uma entrevista de emprego com Costa. Engalanou-se, levou o curriculum debaixo do braço, tratou de enaltecer o chefe e explicar o motivo pelo qual queria trabalhar naquela empresa. Afinal, era um sonho de menino e a entrevista de emprego era transmitida em directo… Não gaguejou!

Já Costa apresentou-se aos portugueses com o desejo natalício de ser primeiro-ministro. O que bem se compreende, já que nunca o foi. Assim, todo ele se desfez em explicações circulares sobre as vantagens de ter um governo socialista, após tantos anos de ineficácia e incompetência de governos socialistas que lhe antecederam. Ou seja, Costa fará tudo aquilo que Costa não lhe permitiu fazer. O quê, concretamente? Não sabe, nem explica, mas fará! Com ou sem “geringonça”? Não sabe, nem esclarece, mas fará! Com ou sem o PSD? Não sabe, nem quer saber, mas fará! O que Costa quer é uma maioria absoluta, para poder fazer. A mesma que Costa repudiou por considerar as maiorias absolutas perigosas. E, o Costa candidato, demitir-se-á se não ganhar as eleições, no respeito pelo espírito democrático, já que se os portugueses confiam o voto a outro, então deve ser esse outro a governar. A conclusão óbvia é que o Costa candidato sofre de amnésia grave e não há SNS que o salve!

Mas, pior: o Costa candidato pode ganhar e não ter condições de governabilidade por ausência de entendimentos com as outras forças partidárias. Qual é então a solução? “Lá ber”… Demitir-se-á, deixando a outros, não eleitos e nos quais os portugueses não votaram, o ónus da formação de um governo. Quanto a democracia, respeito pelos cidadãos e sentido de estado, estamos conversados!

Catarina converteu-se em directo. Durasse o programa mais uns minutos e aguardaríamos a beatificação. A postura seráfica e as citações papais não disfarçaram um discurso gasto, populista e acusações falsas e irresponsáveis. Mostrou o que é o Bloco de Esquerda: uma corrente ideológica pejada de lugares comuns, nula de soluções e deserta de ideias programáticas. Foi derrotada por KO e arrastada pela lama, por culpa própria. O que capitalizou – se é que capitalizou – terá sido por mera piedade, já que ninguém gosta de ver um combate tão desigual. Será, contudo, etéreo.

Rio era quem mais tinha a perder, já que disputava o mesmo eleitorado. Ou por outra, parte do eleitorado que lhe poderá assegurar a vitória. Ventura, no seu estilo combativo, directo, acutilante e, por vezes, rude, tentou levá-lo às cordas. Conseguiu, na maior parte das vezes, incapacitando o líder do PSD no que toca à exposição de ideias, manietando-o no diálogo e obrigando-o a respostas directas. Em questiúnculas; em matérias marginais às quais não deveria ter respondido. Foi o elefante a prestar contas à formiga. Rio caiu na armadilha e, embora, não derrotado, teve que encaixar golpes violentos. Poderá (e deverá) capitalizar a tareia pedagógica quando defrontar Costa. 

Ventura é um peso pluma em plena ascensão. Golpeia com uma voracidade impressionante e uma acutilância ímpar. Nem sempre joga de acordo com as regras, mas golpeia onde dói mais. Pode não se gostar do estilo, duvidar da mensagem, discordar da análise ou até repudiar algumas soluções. Mas Ventura fala para aqueles que não sabem para o que os seus impostos servem, para os que sentem desigualdades de tratamento na pele, para as forças de segurança que se sentem marginalizadas e esquecidas, para os pensionistas que disputam apoios e reformas com outros. Para um Portugal que também existe. E que conta muitos votos.

A única coisa que não se percebe é, se tão pouco o separa do PSD (segundo o próprio), porque é que de lá ele saiu e nunca nele se tentou afirmar. O pedido de noivado vem a despropósito, mas um namoro por correspondência não estará fora de questão.

Findos os debates logo correram os egrégios analistas em salvíficas leituras de vencedores e vencidos. Não reconhecendo especial competência à maior parte deles, duas notas que me parecem importantes:

– A clareza, pertinência e equidistância de Ricardo Costa, num registo assertivo, correcto e muito para além do replicar do que foi dito. Aportou uma análise crítica do que foi dito e do que ficou por dizer, sem tibiezas, sem preferências e sem complexos. 

– Ao invés, Pedro Marques Lopes, incapaz do distanciamento que se lhe impunha, como se tivesse sido ele alvo de ataques pessoais, destilando ódio, repudiou Ventura, colando-lhe expressões que o próprio nunca proferiu e apodando-o de fascista. Mas, claro está, fê-lo no palco e não no ringue.