Marcelo volta a pender para a esquerda

O Presidente da República, que nos últimos tempos parecia ter-se demarcado da política socialista para assumir o seu papel de árbitro da vida nacional, afinal parece ter tido uma recaída. Sempre em nome da decantada “estabilidade”, Marcelo Rebelo de Sousa volta a dar uma mãozinha a António Costa ao defender que o ideal, mesmo, era que das eleições de 30 de Janeiro saísse uma maioria absoluta. Sem nunca a invocar expressamente…

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Por muito que as sondagens não indiquem essa probabilidade nas próximas legislativas de 30 de Janeiro, Marcelo Rebelo de Sousa assumiu-se como um defensor de uma maioria absoluta que dê estabilidade ao país. Como no quadro partidário esse objectivo é assumido em exclusivo pelo PS (enquanto o PSD dá sinal de se contentar com um segundo lugar honroso), já se percebeu quem acabará por beneficiar desta inesperada ajuda presidencial: a esquerda socialista.  

Na tradicional mensagem de Ano Novo, Marcelo traçou as linhas gerais do que deseja para o país: a mesmíssima maioria expressiva que o líder socialista já defendeu como sendo de “um voto mais um”. O Presidente abordou as eleições legislativas de 30 de Janeiro para defender que os portugueses terão de «decidir a Assembleia da República e o Governo para os próximos quatro anos, uma Assembleia da República e um Governo com legitimidade renovada». Para bom entendedor…

No seu quinto discurso de Ano Novo desde que tomou posse como Presidente da República, em 2016, Marcelo Rebelo de Sousa falou sobretudo da actual situação pandémica: “O ano que findou prometia ser um fim e um recomeço, mas não foi. Esboçou esse recomeço, tarde e timidamente. O ano que agora iniciamos tem de virar a página, consolidando, decidindo, reinventando, reaproximando. Retomemos a caminhada juntos”, apelou.

O Presidente da República defende que, em 2022, Portugal deve «consolidar o percurso para a superação da pandemia», considerando que os meses entre Janeiro e Março serão o «tempo crucial» para fechar «um capítulo da história». Retraçando o ano de 2021, Marcelo Rebelo de Sousa afirmou que os primeiros seis meses «foram, aqui e lá fora, mais duros do que em 2020, em pandemia, paragem económica, crise social, descompensação nas pessoas e desgaste nas instituições».

Na sua mensagem, emitida a partir do Palácio de Belém, Marcelo deixou também referências concretas ao enquadramento internacional. Entre os acontecimentos mundiais com relevo para Portugal, o Presidente da República destacou a reeleição «por aclamação» de António Guterres para secretário-geral da Organização das Nações Unidas  e também a presidência portuguesa do Conselho da União Europeia (UE), que decorreu no primeiro semestre do ano, relembrando neste capítulo a aprovação do «certificado digital, dos fundos europeus para os próximos anos e a lei do clima» – também aqui identificando-se com o discurso auto-elogioso do Governo socialista.

Em termos mais concretos, o PR desejou um 2022 “com menos pandemia, mais crescimento, menos pobreza, mais empenho nos desafios do clima, menos egoísmo de povos e Estados, mais atenção ao custo imediato da vida, da energia e dos bens básicos, numa Europa com mais convergência, menos esperas, mais reconstrução, menos desigualdades, mais aposta na juventude, menos solidão para aqueles já não são jovens, sobretudo nos países em rápido envelhecimento”.

Costa secunda Marcelo

O líder socialista António Costa deve ter esfregado as mãos de contente com o tom do discurso presidencial, em geral neutro e em várias passagens favorável ao desiderato socialista. No rescaldo da mensagem do PR, o secretário-geral do PS aproveitou a deixa e defendeu a necessidade de um “Governo estável para os próximos quatro anos”, de maneira a evitar “sobressaltos políticos”, e afirmou que “é tempo de virar a página da pandemia”.

“No final deste mês, vamos decidir que Governo queremos para Portugal. Precisamos de um Governo estável para os próximos quatro anos, para não andarmos de crise em crise, nem voltarmos a ter sobressaltos políticos tão dramáticos como este que estamos a viver no combate à pandemia”, afirmou António Costa num vídeo divulgado nas páginas oficiais do secretário-geral socialista.

O também primeiro-ministro defendeu que “há mais vida para além desta pandemia” e, recorrendo à mesma expressão utilizada pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, na sua mensagem de Ano Novo, afirmou que “é tempo de virar a página”, à semelhança do que aconteceu quando o país virou “a página da austeridade”. “Temos de nos focar na recuperação e no progresso. Não podemos desperdiçar a oportunidade que criámos de podermos fazer mais, muito mais”, salientou.

António Costa reiterou que é necessária “estabilidade nas decisões” e considerou que é preciso “não adiar” e “não parar”. “Temos de consolidar o que está a ser feito e temos de avançar na recuperação e no progresso. Juntos seguimos e conseguimos”, disse o socialista, utilizando uma frase de campanha às legislativas. 

Recorde-se que já antes, em entrevista à CNN Portugal, António Costa pediu o voto de “metade mais um” dos eleitores que forem às urnas em 30 de Janeiro, evitando recorrer ao termo “maioria absoluta”, e reiterou que se demitirá se perder as eleições legislativas. Durante a entrevista, o primeiro-ministro foi questionado sobre se a palavra “absoluta” queima e se o objectivo eleitoral é mesmo a maioria absoluta. Costa respondeu sem hesitar, mas voltando a evitar a palavra “absoluta”.

PSD quer ser “protagonista”

O maior partido da oposição, o PSD, também concordou com o Presidente da República na necessidade de “virar a página”. Mas quanto a objectivos, o discurso dominante é timorato, apontando para um resultado eleitoral que lhe permita “ser protagonista” dos «novos momentos de que o país precisa».

André Coelho Lima, vice-presidente do PSD, considerou que a mensagem de Ano Novo de Marcelo Rebelo de Sousa ficou marcada pela «expressão a que os portugueses estão mais habituados» na viragem do ano: «Ano novo, vida nova». O dirigente ‘laranja’ afirmou que a mensagem do chefe de Estado «assentou muito na pandemia, na paragem económica, na crise social e também em algo que é muito importante para o PSD, a descompensação das pessoas, ou seja, os efeitos indiretos ou laterais da pandemia». Mas «sobretudo assentou na esperança, naquilo que é a viragem deste novo ano e na proximidade que temos de um acto eleitoral”.

E Coelho Lima precisou: “É obviamente com sentido de dever e com muita proximidade das palavras do senhor Presidente da República que nos associamos à necessidade do virar de página do nosso país”, salientando que o PSD “se apresenta naturalmente com toda a humildade a estas eleições com o objetivo de as vencer”, para “protagonizar esse virar de página, para protagonizar essa ambição, esses novos momentos que o país precisa”. E o vice-presidente ‘laranja’ concluiu: “É essa dimensão de esperança e de ambição da mensagem do senhor Presidente da República que também tem o PSD, com a qual se apresenta nas próximas eleições”.

CDS: “direita certa”

O CDS-PP acompanhou “na generalidade” a mensagem de Ano Novo do Presidente da República e defendeu que as eleições legislativas de dia 30 podem constituir uma oportunidade para Portugal “virar de página” com a “direita certa” – uma expressão lançada pelo líder centrista, Francisco Rodrigues dos Santos, e agora repetida à saciedade como ‘slogan’ de campanha.

Martim Borges de Freitas, presidente da mesa do Congresso do CDS e também cabeça de lista do partido por Aveiro, considerou que as legislativas “podem na verdade significar um virar de página porque as pessoas são de facto mais livres para poder votar”, sustentando que “o voto útil em Portugal deixou de existir” porque desde 2015 “não é necessária a maioria de um só partido para governar, como nem sequer é necessária a vitória de um partido para que seja indicado o primeiro-ministro”.

Apontando que “a esquerda esgotou todas as suas possibilidades ao ponto de terem de ser convocadas eleições antecipadas”, Borges de Freitas defendeu que “à direita há um partido que torna a mudança possível”, sustentando que “o CDS é um partido cujos valores são inquestionáveis, é um partido que se apresentará com propostas concretas e é um partido que é confiável. É, portanto, a direita certa. Essa direita certa pode significar a mudança, pode significar o virar de página”, salientou.

No que toca à pandemia, o CDS-PP aproveitou para criticar o Governo, afirmando que «não é com gestão do medo que se resolvem os problemas do país, o primeiro dos quais é a recuperação económica e o crescimento económico».

IL fala em oportunidade

Já o presidente da Iniciativa Liberal (IL) defendeu que “é de facto hora de virar a página” na gestão da pandemia e no modelo de desenvolvimento de Portugal e considerou que as eleições legislativas constituem essa oportunidade.

Numa reação à mensagem presidencial de Ano Novo, João Cotrim Figueiredo saudou o mote escolhido por Marcelo Rebelo de Sousa, enumerando: “Virar a página na gestão da pandemia, mas também virar a página no modelo de desenvolvimento de Portugal, nas políticas que são aplicadas em Portugal e que não podem continuar a produzir mau emprego, poucas oportunidades, salários baixos”. O líder da IL considerou que “essa oportunidade de virar a página virá já no dia 30 de Janeiro”, em que será possível “votar em opções verdadeiramente liberais”.

João Cotrim Figueiredo considerou que a mensagem deste ano não foi “o melhor discurso, a intervenção mais empolgante do senhor Presidente”, mas teve pelo menos a virtude de “tornar claro” que há divergência do Governo “relativamente à abordagem da pandemia e esta excessiva dramatização que o Governo do PS parece querer imprimir a esta questão, quem sabe se por interesses eleitorais, mas certamente com prejuízo da vida social e económica de todos nós”.

Chega: “falhou no essencial”

O líder do Chega considerou que a mensagem de Ano Novo do Presidente da República “falhou no essencial”, criticando-o por não ter identificado os responsáveis pela crise política e por ter-se focado demasiado na pandemia. André Ventura defendeu que, apesar de Marcelo Rebelo de Sousa ter procurado “transmitir aos portugueses alguma confiança, continuou a falhar no essencial”.

“O Presidente da República, consciente de que vamos entrar num novo ciclo político imprevisível, foi incapaz, na nossa perspetiva, de identificar os verdadeiros responsáveis pela crise que estamos a viver: o PS e a extrema-esquerda, que não conseguiram fazer aprovar o Orçamento do Estado e resolver a situação económica e política do país”, indicou.

O presidente do Chega considerou também que, ainda que o chefe de Estado tenha sido “capaz de transmitir aos portugueses a força que é preciso para os desafios” que vão ter de ser ultrapassados, deu a impressão de que o país “vive fechado única e exclusivamente à volta da pandemia”. Ora, “Portugal tem hoje muitos problemas para além da situação da evolução do Covid “, afirmou, elencando questões como “as falências consecutivas, a falta de apoio aos negócios, aos comércios, aos empresários” ou a “destruição progressiva de empregos”.

Segundo André Ventura, “tudo isto ficou fora dos pontos centrais” do discurso do Presidente da República. Isso não deveria ter acontecido. Marcelo Rebelo de Sousa é, ou deve ser, o representante máximo de Portugal e, neste momento, Portugal tem muitas outras preocupações”, afirmou. ■