Já todos se habituaram aos “elefantes brancos”

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elefantes brancos

Se por tudo e por nada o bom português gosta de acusar os políticos de “falarem muito e nada fazerem” é porque existem, na nossa memória colectiva, vastos indícios de que o parlatório só produz obra inútil. Na verdade, nem é preciso recorrer à memória: a qualquer esquina se tropeça em “elefantes brancos” – uns construídos e apodrecendo sem préstimo, outros abandonados a meio, outros ainda que, não tendo passado do papel, pesam como verdadeiros monumentos à incompetência.

Basta passar por Entrecampos para se chocar com o território dantesco da antiga Feira Popular de Lisboa, que da degradação se transformou em mais uma montanha-russa de desilusões, desconfiança e incertezas. Um dos vários “monumentos” que fomentam a premissa de que só se acredita quando se vê.

A pior consequência do amontoado nacional de “grandes planos” que ficaram na gaveta ou erraram o alvo é, sem dúvida, a construção de uma visão colectiva de desconfiança da gestão político-económica do País, que se estende muito para além das crenças partidárias. E assim é sustentada a noção de que o investimento público não passa de “fogo de vista” eleitoral colmatado por uma incompetência política generalizada, que não se importa de esvaziar os bolsos para vender ilusões.

A verdade é que o português não perdoa os mais de 100 milhões de euros gastos no TVG que nunca chegou de Madrid ou o depósito de nada que se tornou o Campo de Golfe das Amoreiras, em Lisboa. Sejam estes projectos fracassados da responsabilidade do Estado ou do sector privado, no final da linha a culpa será sempre de quem permite a estagnação ou má gestão dos mesmos: quem governa o País.

O processo é encarado sempre da mesma maneira: após a divulgação do insucesso de um determinado investimento, vem a gritaria de insatisfação por parte do eleitorado. Apontam-se dedos acusadores. Quando a fervura acalma, aceita-se a perda e fecham-se negócios. Passado pouco tempo, quando a criatividade para piadas satíricas no café acaba, já todos se habituaram ao “elefante branco”.

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