Líder dos patrões em sintonia com esquerda no caso da dívida pública

Líder dos patrões em sintonia com esquerda no caso da dívida pública

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Eva Cabral

O líder da CIP colocou-se ao lado dos partidos da extrema-esquerda que apoiam o Governo de António Costa ao afirmar que “será mais difícil a economia crescer enquanto a dívida estiver elevada”.

O tom e os fundamentos invocados para defender a reestruturação da dívida são diferentes, e até se afastam teoricamente das razões esgrimidas pela esquerda radical. Mas, em todo o caso, declarações como a do líder da CIP prejudicam sempre o País pelo aumento da percepção do risco sentido por quem se disponibiliza a comprar dívida portuguesa, com o inevitável aumento das taxas de juro.

Falando numa conferência organizada pela CIP – “Moldar o Futuro, o Imperativo do Crescimento” – António Saraiva, presidente daquela organização patronal, afirmou que enquanto a dívida pública se mantiver elevada o crescimento da economia portuguesa será mais difícil, mas excluiu o recurso a um perdão da dívida.

Para o líder dos patrões, a solução passa por uma “reestruturação”, sem que se esclareça o modelo. Em boa verdade, alguns pagamentos antecipados ao FMI, iniciados no Executivo de Passos Coelho e que se mantiveram no de António Costa, representam já uma “reestruturação de dívida”. Mas a margem para se percorrer este caminho é estreita quando a dívida pública continuou a aumentar em 2016.

António Saraiva é claro sobre o tema: “Reconhecemos que, enquanto a dívida pública se mantiver elevada, o crescimento económico [de Portugal] será mais difícil. Temos de aliviar o pesado fardo que o serviço da dívida tem, mas a solução não passará por perdão da dívida ou por pedidos unilaterais por parte de Portugal”.

Para o líder da CIP, o recurso a este tipo de medida “seria contraproducente” porque “elevaria o prémio de risco exigido pelos mercados” e nesse sentido “ fragilizaria ainda mais os bancos nacionais”.

António Saraiva adianta a posição de economistas que entendem que “a solução passará por uma reestruturação que aconteça pela positiva num contexto de mercado e resultante de políticas económicas que se traduzam em maior crescimento”.

“Os problemas com que a economia portuguesa se confronta, nomeadamente o desemprego e o endividamento público e privado, só poderão ser ultrapassados se criarmos as condições necessárias a uma significativa melhoria da competitividade que permita atingir taxas anuais de crescimento económico superiores a 3%”, adianta. Isto quando o crescimento de Portugal foi de 1,6% em 2015 mas voltou a baixar pata 1,4 % em 2016, o que preocupa os empresários.

Os níveis da dívida pública estão, segundo a CIP, a limitar um crescimento mais elevado, porque colocam constrangimentos à condução de uma política orçamental mais favorável ao crescimento e avolumam as pressões nos mercados financeiros internacionais que se reflectem nas taxas de juro e tornam o acesso ao crédito mais difícil.

Saraiva considera que só “o regresso à rota da convergência real com os parceiros da União Europeia” poderá garantir a prazo a prosperidade da economia portuguesa. A CIP entende que Portugal tem alternado entre a recessão e crescimento anémico e que a actividade económica no País está em níveis comparáveis aos de 2004, “longe de ter recuperado plenamente da crise”.

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