Talvez porque, na nossa inconsequência ancestral, não saibamos homenagear os vivos como eles por vezes merecem, somos sempre ditirâmbicos a louvar os mortos.

O velho dito romano “de mortuis nihil nisi bonum” (dos mortos, nada digas a não ser bem) é praticado em Portugal na sua expressão máxima, hiperbólica, absoluta.

Indivíduos que em vida foram desprezíveis ou insignificantes, odiados com todas as venetas da má-língua ou arrastados na lama dos seus vícios e defeitos públicos, no momento em que entregam a alma ao criador transformam-se, por magia, em heróis da Enciclopédia e deuses do Olimpo.

Não há morto nosso que não seja exemplar, excepcional, fantástico, maravilhoso, irrepreensível, brilhante, belo, inteligente, magnânimo, original, bom pai, bom filho e bom espírito (por vezes santo) – e foi sempre culpa do mundo inteiro não ter dado por ele mais cedo.

Quase apetece morrer só para ler o obituário.

Como a classe dominante em Portugal é constituída por gente que cresceu entre a Mafaldinha e o Corto Maltese, é normal que os maiores heróis da necrologia nacional sejam figuras de banda desenhada.

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