Medina não acerta uma

Seja nas promessas de habitação, nas políticas de saúde, na gestão dos dinheiros públicos ou nas festas populares, o autarca Fernando Medina, presuntivo sucessor de Costa na liderança socialista, só faz disparate.

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É sabido que os políticos gostam de prometer mas raramente cumprem o que prometem. Aí não há novidade. Mas uma recente campanha pública anti-socialista conseguiu apurar, preto no branco, a chocante extensão das promessas não cumpridas do actual presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina, antigo secretário de Estado de Sócrates e protegido de António Costa. E o resultado é assustador: nas áreas da saúde e da habitação, onde o autarca mais se espraiou em juras para ser eleito, ao fim de anos não estão cumpridos nem 10 por cento do que prometeu. 

A campanha foi lançada pelo candidato da oposição de centro-direita à Câmara de Lisboa, Carlos Moedas, que num conjunto de cartazes urbanos ridiculariza o autarca socialista e os fracassos da sua governação na capital. A direcção de campanha de Moedas recorda que as promessas eleitorais de Medina “foram muitas, mas pouco ou nada se desenvolveram” em termos reais. E pergunta, com sarcasmo: “Estará Medina a guardar os últimos meses de mandato para concretizar as suas promessas e tentar atirar areia para os olhos dos lisboetas, numa desesperada medida eleitoral?”.

Fernando Medina começou por aceder à presidência da Câmara de Lisboa em 2015, sem se submeter a votos, quando António Costa (quebrando, também ele, uma promessa) abandonou a autarquia para se tornar primeiro-ministro. Medina, que era vice-presidente, herdou o cargo sem saber ler nem escrever. 

Só em 2017, após dois anos de propaganda no cargo, concorreu às autárquicas com um ramalhete de promessas vistosas. E uma delas era clara: “Iremos dar continuidade ao maior programa de habitação pública na cidade de Lisboa das últimas décadas, através do Programa de Renda Acessível, disponibilizando mais de 6.000 casas a preços acessíveis”. Agora, em final de mandato, conclui-se que o número de fogos disponibilizados a “renda acessível” não chega sequer a 400. Cerca de 6% do prometido.

Outra das promessas falhadas refere-se à instalação de “14 novos centros de saúde” no concelho. A equipa de Moedas fez as contas e apurou que apenas um novo centro de saúde foi criado ao longo de todo o mandato: cerca de 7% do que tinha sido apregoado na campanha eleitoral.

“Estes falhanços reflectem, mais uma vez, a desconsideração que Fernando Medina tem pelos lisboetas, que aguardam há anos a concretização de propostas nunca tornadas reais”, acusa a equipa de Carlos Moedas. Neste concreto, aliás, o edil socialista limita-se a seguir as pegadas do Governo PS. Também o ministro do Ambiente e da Transição Energética, Matos Fernandes, anunciou em 2017 que o Executivo pretendia colocar no mercado 170 mil habitações de renda acessível em oito anos, mas um ano depois já reduzia a promessa para 100 mil casas, quase metade, a disponibilizar em dez anos, isto é, em 2028. Onde estará o governante quando, dentro de sete anos, alguém quiser pedir-lhe contas?

Mas não é só nas promessas não cumpridas que Fernando Medina leva ‘cartão amarelo’. A gestão dos dinheiros públicos está também em xeque, com a Câmara a averbar um prejuízo de 46 milhões de euros em 2020. Os resultados apresentados esta semana revelam ainda um passivo exigível de 359 milhões de euros, enquanto os rendimentos operacionais minguaram 177 milhões de euros em 2020 face a 2019.

Em subsídios e subvenções é que Medina se revela um mãos rotas. Só entre 2018 e 2020, o edil socialista distribuiu directamente mais de 196 milhões de euros, um total que a imprensa já comparou a “duas vezes o valor da transferência de Cristiano Ronaldo”. Há dinheiro para todos – públicos e privados, associações, fundações, institutos, cooperativas ou sociedades. São cerca de 500 pessoas e entidades que todos os anos beneficiam dos favores do autarca: empresas unipessoais, empresas camarárias, associações de vizinhos, agentes das áreas do desporto (16,3 milhões), da música e dos espectáculos (23,1 milhões). 

Algumas das alíneas dos subsídios merecem referência especial. Duas empresas do produtor cinematográfico Paulo Branco (Leopardo Filmes e Medeia Filmes) receberam da Câmara mais de um milhão de euros nos últimos três anos, a par de mais 3,7 milhões de outros apoios oficiais. E os grupos dramáticos Comuna e Teatro Aberto receberam de Medina, por junto, 820 mil euros desde 2018. Para não falar dos mais de 2 milhões de euros dados de bandeja à Moda Lisboa… ■