Ministro do Ambiente não tem futuro como vidente

0
641

Que terá levado o ministro do Ambiente a anunciar, com uma convicção invulgar (e imprudente), que “quem comprar carros ‘diesel’ não terá valor na troca daqui a quatro anos”? A afirmação de José Matos Fernandes deixou perplexos e inquietos os proprietários de carros movidos a gasóleo – e, como resultado prático, apenas conseguiu enfurecer as associações de vendedores auto. No próprio momento em que o governante falava, a indústria do ‘diesel’ entrava na “guerra das emissões” com argumentos imbatíveis. Os carros a gasóleo acabarão um dia, sim, como tudo nesta vida. Mas ainda faltam uns bons anos…

A frase caiu como uma bomba nos meios do comércio automóvel nacional: “Hoje é muito evidente que quem comprar um carro ‘diesel’ muito provavelmente daqui a quatro ou cinco anos não vai ter grande valor na sua troca”. Dissera-a José Matos Fernandes, o membro do Governo com a pasta do Ambiente e Transição Energética, em entrevista ao ‘Jornal de Negócios’. E, para dar uma aparência de base científica à ‘boutade’, o ministro acrescentara: “a previsão está nos estudos do Plano Nacional Energia-Clima 2030 (PNEC) e no Roteiro para a Neutralidade Carbónica”.

Azar dos azares, nenhum desses estudos afirma que o ‘diesel’ esteja com os pés para a cova, e muito menos que o seu óbito possa prever-se para daqui a “quatro ou cinco anos”. Bem pelo contrário: o PNEC não se refere sequer ao ‘diesel’ isoladamente; e o Roteiro prevê, taxativamente, a “continuação da dieselização (65% do consumo do gasóleo em 2010 ‘versus’ 71 a 72% em 2020)”. No caso concreto do transporte de mercadorias, o Roteiro afirma mesmo que “a mobilidade [dos veículos pesados] até 2045 continua a ser assegurada exclusivamente com recurso ao gasóleo”.

Mas havia mais razões para o ministro Matos Fernandes ter ficado calado. E uma delas aprende-se nas escolas preparatórias: os motores a gasóleo são muito menos poluentes da atmosfera do que os motores a gasolina, pois emitem taxas mais baixas de dióxido de carbono (o famigerado CO2). A redução do ‘diesel’, que o governante parece querer implementar à força de assustar a população, em nada contribuiria para uma melhoria do meio ambiente. A combustão do gasóleo é perniciosa, isso sim, para a saúde do ser humano, porque provoca a emissão de mais partículas finas (as NOx) do que a combustão da gasolina – mas isso, em nada influindo no ambiente, poderia ser matéria de preocupação para o Ministério da Saúde. Que não parece nada preocupado…

• Leia este artigo na íntegra na edição em papel desta semana já nas bancas