Moinhos de maré do Barreiro: Um crime contra o património

Portugal desvaloriza o seu vasto património arqueológico. Num país com tanta história, estes vestígios acabam frequentemente destruídos por construtores civis que não querem ficar com as obras paradas. Não se preserva para memória futura e não se facilita a intervenção de arqueólogos para avaliar o que esconde o terreno.

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A Associação Barreiro Património Memória e Futuro é clara na acusação: a destruição dos moinhos de maré e do sapal da caldeira grande em Alburrica, no Barreiro, é um crime patrimonial e ambiental. A Associação, que realizou uma sessão de esclarecimento e denúncia, com uma visita ao local com a presença de dois arqueólogos, alertou para a necessidade urgente de salvaguardar o que ainda for possível daquele precioso legado histórico.

Os moinhos de maré de Alburrica, que estiveram em funcionamento desde a Baixa Idade Média e foram desactivados em meados do século XX, eram formados por uma caldeira que se enchia de água através de uma porta (adufa) quando a maré enchia, e por uma construção onde se situavam diversos pares de mós que se destinavam à moenda de farinha. O cereal ali moído era oriundo das plantações em volta, nomeadamente das férteis terras do Lavradio, Coina e Santo António da Charneca, e mais tarde também das extensas searas do Alentejo.

O caso dos moinhos de Alburrica está a ser sinalizado pela comunidade arqueológica nacional como um exemplo flagrante do desprezo a que está votada a conservação patrimonial. 

Construir de novo

Segundo a Associação, “o moinho de maré grande já não existe, foi arrasado, como o pequeno também já o tinha sido pela Câmara Municipal do Barreiro. A riqueza cultural, identitária e económica deste bem patrimonial de arqueologia industrial morreu”. Nada sobrou do edifício: nem arcadas, nem mesmo a estacaria sobre a qual o moinho se encontrava construído.

A Associação considera que a destruição deste edificado não é entendível quando especialistas destacam a importância dos moinhos não só para o Barreiro mas também para todo o estuário do Tejo: “São tão importantes à nossa escala como o Coliseu é para Roma e, apesar de este ter partes em ruí-
na, nunca passou pela cabeça de ninguém, em Itália, arrasá-las para fazer paredes novas”.

Paradoxalmente, é precisamente isto que se projecta para Alburrica. Em Novembro de 2021, o município barreirense, arqueologicamente um dos mais ricos do distrito de Setúbal, assinou com a Agência Portuguesa do Ambiente um protocolo de cooperação técnica para a “requalificação” da Caldeira Grande, na zona de Alburrica. Contudo, o plano da autarquia não é reconstruir (uma vez que os moinhos de maré em ruínas que foram entretanto destruídos), mas sim “construir de novo”, imitando a aparência dos moinhos originais. Para esta mesma Caldeira Grande a autarquia tem projetada uma das maiores praias fluviais da Área Metropolitana de Lisboa, um projeto que deverá estar concluído até ao final de 2023.

Não faz sentido, acusa a Associação Barreiro Património Memória e Futuro. “Este património só tem valor patrimonial se for restaurado, e restaurar não é reconstruir como era. É preciso que se tome o que resta do original e se fique a perceber as várias idades do edifício”, explica Carla Marina Santos, da Associação, apontando como mau exemplo o que foi feito com o Moinho Pequeno. Este, como refere o presidente da Associação, José Encarnação, já não existe porque há três anos foi deitado abaixo com uma retroescavadora, sendo depois “recuperado” como um edifício moderno.

“Alguns dirão que estava em ruína, que o local estava abandonado, que era tempo de apagar estas cicatrizes”, comenta Carla Marina. “Porém, Alburrica e o seu património é um caso muito especial na Área Metropolitana de Lisboa, enquanto Paisagem Cultural ou Paisagem Humana Evolutiva da UNESCO, sendo por essa razão a sua classificação como Sítio de Interesse Municipal para preservação moageira, ambiental e paisagística”, explica. “O que aqui foi feito, sem quaisquer estudos de arqueologia, contraria claramente a Carta do Património Industrial”.

Do ponto de vista ambiental, a Associação também considera estarem a ser cometidos erros na Caldeira Grande. As caldeiras dos moinhos de maré, explicou a Associação, são sapais e, portanto, zonas prioritárias de restauro por razões ecológicas e ambientais, pelo que «do ponto de vista ambiental, outro crime foi cometido»: a caldeira está seca e o seu ecossistema morto. «Como é possível receber dois milhões de euros de fundos comunitários, para destruir um sapal? Gostaríamos de ter resposta para partilhar convosco, mas, até agora, nenhum organismo respondeu às nossas interrogações», frisa a Associação.

“Fachadismo”

Em muitos locais do país os vestígios arqueológicos são destruídos para proporcionarem novas fontes de rendimento privado. Dois arqueólogos que participaram na acção da Associação Barreiro Património Memória e Futuro alertaram para “uma cenarização do património” a decorrer em muitas zonas urbanas como mera forma de valorização imobiliária que destrói ou adultera os bens arqueológicos. «Os metros quadrados valem muito e a existência de bens arqueológicos pode ser uma mais-valia na sua valorização patrimonial. Para não incomodar, ou são destruídos previamente ou são completamente reinventados para recriar um ambiente útil e vendável numa perspetiva do mercado imobiliário», acusa Luís Raposo, arqueólogo e presidente do Conselho Internacional de Museus da Europa.

Jorge Custódio, investigador do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, partilha a mesma opinião e defende a extinção da Direção-Geral do Património por considerar que esta não está a desempenhar o seu papel: “não garante a preservação do património nem os critérios homogéneos de classificações, assim como não tem uma atitude reguladora nem fiscalizadora”. O investigador preconiza, em alternativa, a criação de uma entidade independente como o antigo Instituto Português do Património Arquitectónico, sem estar diretamente dependente do poder político.

Luís Raposo lamentou que haja uma corrente de promoção urbana generalizada de valorização do território tirando partido dos vestígios patrimoniais, mas adulterando-os. “Inventa-se património a partir de algo que não existe ou que existia como ruína”, sublinha, adiantando que o país «há muito que se confronta com uma política de rentabilização do mercado imobiliário através do chamado ‹fachadismo›», ou seja, com a destruição do interior dos edifícios mantendo apenas as fachadas.

Agora, segundo o especialista, há uma nova e pior corrente de destruição completa dos imóveis com a indicação de que será “de novo construído” como se tratasse de uma reconstrução patrimonial, quando, na verdade, é uma rentabilização mercantil do imobiliário. “Seria completamente absurdo reconstruir a igreja do Carmo em Lisboa, porque é como ruína que é memoria, é assim que é percebida e é assim que é valorizada socialmente. É um descaramento total e uma aldrabice completa”.

Jorge Custódio entende que, no caso em concreto do Barreiro, as ruínas de um moinho tinham valor patrimonial. “Não foram previamente objecto de salvaguarda arqueológica, a que a lei obriga em caso de imóvel em vias de classificação ou classificado. Havia uma obrigação da autarquia em proceder ao seu estudo”, disse. E a Câmara do Barreiro nada fez. ■