Em debate: o que gostaria de ter visto debatido na campanha?

0
585

“O aumento da inflação” por Diogo Gil Gagean

Com a campanha eleitoral maioritariamente centrada na temática do salário mínimo nacional, TAP, SNS e escalões de IRS, muitos assuntos importantes ficaram por discutir. Todos os partidos estudaram um guião já visto e revisto e muito pouco apresentaram de novo à discussão do futuro dos portugueses. Qualquer “alien” que leia e ouça a comunicação social portuguesa, pode achar que António Costa é uma jovem promessa da política nacional e que nada tem a ver com a situação em que o país se encontra. 

Um dos méritos de António Costa foi conseguir fazer com que se discuta muito pouco do seu legado governativo e muito da traição da extrema-esquerda.

Claro que a concorrência ignorou ou preferiu não trazer para o debate questões importantes e que em muito podem influenciar o futuro da Nação.

Um dos assuntos que nos deveria preocupar é o da inflação. Com o previsível aumento da inflação em 2022 (de recordar que nos Estados Unidos se deu o maior aumento desde 1982) que precauções tomou o Governo para acautelar esta mais do que previsível subida? Com o aumento da inflação o que vai acontecer ao financiamento da dívida púbica portuguesa? A experiência de 2011 não nos ensinou nada.

Que efeito terá sobre as famílias portuguesas um aumento da Euribor? Sobre estes assuntos o silêncio dos candidatos foi ensurdecedor.

Num país que se quer moderno e desenvolvido os números da pobreza aumentaram para níveis vergonhosos. Quase dois milhões de portugueses vivem em situações de grande carência económica. Embora se compreenda que os efeitos políticos devem sempre ter uma visão a longo prazo, para estas pessoas as políticas e a sua execução urgem. Não falo de subsídios, mas sim de políticas de criação de emprego e apoio as empresas durante os próximos 18 meses, para que assim seja possível devolver, com o máximo de urgência, as pessoas a uma vida digna e activa. Eu sei que este é um tema que deve envergonhar qualquer português, mas temos de o discutir. Os políticos fugiram do tema como o diabo da cruz.

Temos ainda um tema que já foi abordado até à exaustão nos últimos anos, mas que nesta campanha eleitoral estranhamente se mantém afastado. Falamos, claro, da regionalização. 

PS e PSD já parecem ter tudo acertado com o PR para o próximo passo a dar na criação de mais cargos políticos à custa dos contribuintes. Num país geo-
graficamente pequeno, achar que a descentralização se faz através da regionalização é mesmo um embuste. Sobre esta matéria teria sido engraçado ver o que os liberais, animalistas e livres teriam para dizer ao “centrão”.

Por fim temos o problema do baixo índice de nascimentos em Portugal. Não se entende como podem os políticos nacionais ignorar o problema da natalidade. Numa semana em que ficámos a saber que a natalidade foi a mais baixa de sempre, nem uma palavra se ouviu dos nossos dirigentes ou candidatos a dirigentes.

Num país onde as previsões apontam para que em 2050 apenas cinco milhões de pessoas estejam em idade activa, faz-me muita confusão não ouvir do primeiro-ministro uma palavra sobre este assunto. Um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos que conclui que 92 por cento dos portugueses quer ter filhos e que ter dois ou três filhos era um sonho inalcançável. 

O aumento da natalidade está sempre inerente ao desenvolvimento económico e às condições que o Estado coloca ao dispor das famílias. É necessário aumentar o tempo de licença de parentalidade, apoios financeiros, redução de horário laboral dos pais nos primeiros anos de vida da criança e é fundamental o apoio à criação de emprego jovem para evitar que estes emigrem e fiquem por cá a criar e desenvolver a sua família.

O aumento da natalidade deveria ser um dos desígnios nacionais. ■


O restauro da decência do Estado” por José Guilherme Oliveira

Apetece-me fazer um ponto prévio, destacando a reaparição do “anima feroz”. 

Será que está morto? Ou esta aparição é um estertor da morte?

Independente da resposta, o que é certo é que o motivo pelo qual o eng.º Sócrates reapareceu é sério demais para que possa ser discutido na perspectiva de claque – até porque o homem já não tem tribo – ou com o desvalor que se costuma dar aos derrotados. 

A ser verdadeira a sua narrativa, estaríamos perante uma justiça de justiceiros da qual se considera vítima, uma justiça com agenda, que a ser verdade confirma o “estado a que isto chegou”.

Esquecida a figura do queixoso, vem-me à memória o discurso motivacional do Salgueiro Maia, quando disse para os seus soldados na madrugada do 25 de Abril de 1974: “Há diversas modalidades de Estado: os estados socialistas, os estados corporativos e o estado a que isto chegou! Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos”.

Era isto mesmo que eu gostava de ver alguém trazer á liça.

Alguém que assuma a desgraça, faça o diagnóstico óbvio do que nos trouxe aqui e, para além das questões económicas, fiscais, laborais, sociais e todas as outras que nos apoquentam e atrasam comparativamente com os demais países, se proponha à questão óbvia e essencial: é necessário transformar o Estado numa pessoa de bem. 

Costumo dizer em conversas informais e em tom jocoso, que se o Estado fosse pessoa física estava preso. 

O Estado que temos por hoje é um estado “Mostrengo”, que assusta, de quem os cidadãos têm medo e em quem não confiam.

Cada cidadão que recebe uma carta da AT treme, pois sabe que do outro lado está alguém sem ética nem escrúpulos, que cobra indevidamente, que coage a cobrança, que cobardemente e irresponsavelmente se atira a cada um dos contribuintes, saqueando-o sem dó. 

Não há quem não tenha escutado estórias de comportamentos de magistrados, com poder à solta, dotados de livre arbítrio, da justiça à medida, dos processos perdidos nos corredores à espera da prescrição, 

Quantas empresas faliram porque o Estado não paga o que deve?! Ou paga tarde o que deve? 

Tenho a utopia de um Estado virtuoso.

Enquanto homem de esquerda não discuto a sua existência muito mais do que reguladora, atrever-me-ia até a dizer premonitoriamente, que o futuro reclamará mais Estado, mas nunca este.

O Estado, enquanto entidade abstracta, é resultado concreto da acção humana e este que temos é fruto da geração pós-25 de Abril, repleta de “videirinhos”, novos ricos e deslumbrados, mas também de barões sem escrúpulos e de ambições desmedidas, gente que ainda pulula por aí e com protagonismo. Já nada têm para dar. 

“O restauro da decência do Estado”. Era esta a parangona que gostava de ver nos programas dos partidos. Esta é a causa mais funda e só a partir dela é são possíveis as outras. Poderão dizer que isto não é uma causa de esquerda. Aceito. 

Mas antes de ser de esquerda, é preciso dar cabo do “Estado papão”. ■