Não brinquem com a Morte, Snrs. Deputados

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Não brinquem com a Morte, Snrs. Deputados, nem joguem com ela, até porque, ao menos, devem reconhecer que é mais esperta, firme e certeira do que qualquer de nós. Sabem porquê? Porque não é arrastada por fantasias revolucionárias, ou de outra laia, obedecendo ao que a natureza lhe ditou. Cumpre, implacavelmente, os comandos que tenha recebido, procurando-nos, e encontrando-nos, a todos nós, à hora certa, quer estejamos em Lisboa quer foragidos, camuflados e aterrados, por suspeita de que ela nos ronda, em qualquer sítio que julgarmos por ela desconhecido ou inacessível. Ela tudo conhece. E lá nos vai acordar, abanar e arrastar, se for caso disso, em razão da nossa resistência, que só torna mais dolorosa a despedida da vida, a qual, para os crentes, poderá ser uma luminosa esperança, possivelmente negada aos Snrs. Deputados, mesmo quando sejam frequentadores de igrejas, mesquitas e sinagogas. Ela não se ilude com a facilidade própria dos cidadãos eleitores. E supõe-se que não goste de tentarem antecipar-lhe as tarefas, ao capricho dos clientes, ou de outros, todos seguros e talvez seleccionados para próximas tarefas. 

Segundo as crónicas romanceadas islâmicas, um poderoso sultão, afligido pelas frequentes visões que, em Bagdad, tinha da Morte, mas seguro da sua indiscutível omnipotência, decidiu iludi-la e preparou-se para, no mais pesado segredo, seguir para Samarcanda, nos confins da raia fronteiriça. Quando, porém, se preparava para partir, ou já saindo da sua capital, a Morte apareceu-lhe, de novo, para lhe murmurar, num sussurro suave, como se fora tranquilizante: “Lá te espero, esta noite, em Samarcanda”. Consta que o sultão, tirano voluntarioso, conforme tantos, e sobretudo aqueles cuja tirania é inesperada, por caber-lhes em sorte, por lotaria popular, não quis desistir do intento de ludibriar a Morte, e, embora temeroso da promessa recebida, seguiu viagem para Samarcanda, mas, depois de findá-la, já rodeado nos esplendores dos seus repuxos de águas, das suas tapeçarias e dos seus coxins lavrados, morreu naquela mesma noite. A Morte prometera e cumprira. E os islamitas, notáveis como obscuros, na fraternidade da sua condição humana, convenceram-se também de que se o sultão, que tudo podia, tivera de submeter-se, resignado, ao poder da Morte, a força desta era infinita. Bem se sabe que os Snrs. Deputados também receberam das competências que se arrogaram, por golpe momentâneo de força, poderes soberanos, absolutos, pelos quais se revogam os códigos de origem divina, que são também os de todas as civilizações com raízes conhecidas. Mas será duvidosa a capacidade desses mesmos poderes para brincar com a Morte. Por isso, será aconselhável que os Snrs. Deputados sigam outra via e nem conservem memória dessa tentativa de interferir com a Morte que possa perturbar a boa educação dos filhos e dos netos e a tranquilidade de espírito do tempo de reflexão, de velhice e de reforma. 

De resto, é estranho que os Snrs. Deputados se atrevam a brincar com a Morte, quando dela tanto medo têm. Desse medo desaustinado deram prova sobeja todos quantos, quebrando civismo elementar e até o decoro, se precipitaram para as vacinas, que não lhes cabiam, segundo as precedências estabelecidas. Assim, perderam toda a autoridade, como “pais da Pátria”, para inquirirem sobre o que se tem passado quanto ao saque anárquico de vacinas, roubadas aos pobres e aos doentes, que, nesta triste 3ª. República, coberta pelo estandarte da igualdade, já, manifestamente, baixaram à condição de cidadãos de 2ª. ordem, ou menos ainda, se se tiverem em conta as exigências do protocolo do Estado, os privilégios dos militantes partidários e nem se sabe de quantas seitas, talvez secretas, talvez existindo apenas de facto, mas o regime acolheu carinhosamente, em termos de desvelo. Mas, enfim, Snrs. Deputados, não haverá que lamentar que o manifesto medo da morte, os impeça, por decência, de abordar a matéria respeitante aos abusos cometidos em torno da apropriação imoral das vacinas.

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Há muitas outras matérias que os Snrs. Deputados não deveriam esquecer. Entre elas ocorre a oportunidade, e a actualidade, de lembrar o esforço realizado por toda a nação, orientada pelo regime da 2ª. República, por vezes designada por Ditadura, e outros nomes, certamente por ignorância, porque o ódio político não pode levar seres civilizados a tanto, no sentido de pôr em funcionamento um Serviço Nacional de Saúde preparado para os portugueses. Depois de arrumadas as Finanças, e não obstante as dificuldades extremas da época, foi disso que se tratou. E deu-se imediata projecção ao plano, construindo e pondo a funcionar as magníficas unidades hospitalares de Santa Maria, em Lisboa, e de S. João, no Porto. E o projecto prosseguiu, com sucesso, estendendo-se para os mais diversos distritos. A cobertura sanitária do país ficou feita, com capitais portugueses, com pessoal português e com direcções portuguesas. Cumpre agora, sobretudo aos Snrs. Deputados apurar o que aconteceu. E a razão pela qual o Serviço Nacional de Saúde foi traído, para dar lugar a unidades capitalistas estrangeiras, porquanto, para elas, os doentes constituem apenas instrumentos que lhes permitem, embora sendo bem tratados, contribuírem para o verdadeiro fim, que é o de ganhar dinheiro e levar para fora de portas, os lucros apurados. Quer sejam obtidos pela insuficiente remuneração dos médicos, dos enfermeiros ou de outros elementos de trabalho. Pensem nisso, pois tanto basta para saber qual foi o destino do Serviço Nacional de Saúde, que tanto está contribuindo para as nossas humilhações e para o nosso desprestígio, ao qual vou assistindo, há meio século, em extremo de amargura.

Quanto à Morte, poupem-na. E, já que têm tanto medo dela, respeitem-na. É sempre bom respeitar alguém, ou alguma coisa. Sobretudo quando já se tenha esquecido o respeito dos pais, dos benfeitores, dos mestres, das próprias mulheres. E quando se não respeite e negue Deus, apenas porque nunca o encontraram nos passeios do Rossio. E se negue a Pátria, por se a ter confundido apenas com as batatas do almoço. Porque, na gíria de Lisboa, era comum de muitos marginais e equiparados que, quando ouviam referências à Pátria, logo atalhassem “Ora, a Pátria e as batatas”. Como se alguma ideia perdida ainda lhes permitisse recear que, sem a dita Pátria, a ingestão pacífica das batatas da refeição seguinte estivesse assegurada. Mas o medo talvez garanta melhor um respeito formal, a quem não tenha capacidade sequer de respeitar-se a si próprio. Por isso, talvez seja aconselhável, como mínimo, o respeito da Morte. ■