Presidenciais: uma leitura dos resultados

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Como é apanágio, em Portugal raramente existem derrotados, seja qual for o acto eleitoral. Para os líderes partidários, há sempre uma luz que justifica a não derrota. Esta eleição presidencial não foi excepção. Porém, a realidade é madrasta e mostra sempre uma realidade e uma verdade bem distintas, dolorosa para muitos. E, novamente, foi o que agora aconteceu.

Desde o início da campanha eleitoral que o foco da mesma se centrou no duelo entre André Ventura e Ana Gomes, já que ambos reclamavam como um dos principais objectivos vencer o outro, ficando assim em segundo lugar, isto porque a vitória de Marcelo Rebelo de Sousa era dada como certa. Curiosamente, ambos os candidatos tinham igualmente como objectivo obrigar à realização de uma segunda volta, propósito, em meu entender, muito mais propagandístico do que realista.

A vitória de Marcelo Rebelo de Sousa foi dada como certa desde sempre, indicando as sondagens uma margem que a garantia logo no primeiro escrutínio. Essas mesmas sondagens colocavam sempre Ana Gomes como a segunda mais votada, muito à frente de André Ventura, alvo do ataque vindo de todos os quadrantes, sendo a única candidatura que sofreu manifestações de repúdio e ataques físicos durante a campanha, praticados por apoiantes dos candidatos da extrema-esquerda – Ana Gomes, Marisa Matias e João Ferreira –, mas sobretudo das duas primeiras, numa clara e inequívoca mostra da intolerância, hipocrisia e arrogância que reinam por aquelas bandas.

No final, o que nos trouxe o resultado final da eleição presidencial? A esperada vitória de Marcelo Rebelo de Sousa, o segundo lugar de Ana Gomes e o terceiro (mesmo coladinho) de André Ventura. Paralelamente, uma estrondosa derrota do Bloco de Esquerda e do Partido Comunista Português e uma agradável surpresa vinda do candidato apoiado pelo Iniciativa Liberal. “Tino de Rans” manteve-se igual a si próprio.

Face a este cenário, vamos a factos.

Marcelo Rebelo de Sousa(60,70%) conseguiu ganhar em todos os Concelhos, algo nunca alcançado por nenhum outro vencedor, facto absolutamente assinalável e que traduz efectivamente uma vitória pessoal. Não sei onde surgiu o “confronto” com os 70% alcançados por Mário Soares aquando da sua reeleição, mas é algo – em minha opinião – nunca comparável, pois as situações em nada são parecidas. O momento actual é completamente diferente do vivido então e igualmente os outros candidatos também não são os mesmos. Conseguiu também aumentar o número de votos. É, portanto, um vencedor, muito para além da vitória em si mesma. Contrastando com a postura do discurso de há cinco anos, mostrou-se reservado e apreensivo. Quem o ouvisse e desconhecesse a razão do discurso, jamais imaginaria tratar-se de alguém que acabara de ganhar uma eleição com quase 61% de votos. Dá que pensar…

Ana Gomes(12,97%) conseguiu o objectivo de ficar à frente de André Ventura, mas é uma derrotada. Derrotada porque não alcançou o objectivo de uma segunda volta, porque apenas teve mais 44.762 votos do que André Ventura (isto sem contar com os votos da Europa e fora da Europa, que diminuirão em muito esta diferença) e apenas mais 1% da intenção de voto. Uma derrota, porque em 294 Concelhos apenas ficou à frente de Ventura em 90; e em 20 Distritos, apenas lhe ganhou em oito. Estrondosa derrota, aliás bem visível no semblante carregado demonstrado aquando da sua intervenção na noite eleitoral. Mesmo assim, no discurso, tratou-se de uma estrondosa vitória contra o “fascismo”…

 André Ventura (11,90%) derrotado nos dois principais propósitos – conseguir uma segunda volta e ficar em segundo – acaba por ser o segundo grande vencedor da noite, pelos motivos atrás citados. Fica em segundo lugar em 204 Concelhos e em 12 Distritos, instalando-se confortavelmente em bastiões normalmente nas “mãos” dos comunistas e socialistas, como Beja, Évora, Portalegre ou Faro, só para citar alguns. Além disso, sobe na intenção de voto de uns escassos 1,9% (67.826 votos) nas últimas Legislativas para quase 12%, conquistando quase meio milhão de eleitores, o que é extraordinário. Este, sim, teve argumentos para se declarar vitorioso, sobretudo face à infame campanha de que foi alvo em alguns órgãos da comunicação social e aos constantes ataques de ser de extrema-direita – de que não tem tido arte nem engenho para se defender. 

Confesso que ao ler o programa do Chega não vislumbro o porquê de tal conexão. Mas mesmo que houvesse, é inacreditável e inadmissível que os políticos, comentadores e Media se insurjam contra um partido de extrema-direita e aplaudam, apoiem, bajulem e permitam partidos de extrema-esquerda. Tal só é possível devido a um duvidoso carácter, uma total falta de coerência e uma completa ausência de sentido democrático.

João Ferreira (4,32%) é um dos perdedores da noite. Fica atrás de André Ventura em Évora, Beja, Portalegre e Setúbal, bastiões outrora comunistas – socialistas nas últimas legislativas – e não consegue passar a mensagem, já gasta, dos “coitadinhos”, relegando o PCP para segundo plano. Também o seu discurso realçou a vitória da mensagem, do apoio popular e etc., factores habituais da ‘cassete’ comunista, que nunca perde umas eleições.

Marisa Matias (3,95%) é, sem margem para qualquer dúvida, a grande derrotada da noite, obtendo sensivelmente pouco mais de 1/3 dos votos ganhos na última eleição presidencial. Uma verdadeira catástrofe, que não merece muitos mais comentários. Grande parte do seu eleitorado votou Ana Gomes – alguém que se enquadra no mesmo espectro político, apesar de não o reconhecer publicamente – sem o estigma “BE”, já gasto. Inacreditavelmente, para as dirigentes do BE, a mensagem saiu reforçada, tratando-se pois de uma vitória. E… “a luta continua!”…

Tiago Mayan (3,22%) foi a grande surpresa da noite. Tratando-se de um desconhecido, apoiado pelo partido Iniciativa Liberal, que nas últimas legislativas obteve apenas 1,3% de votos, consegue quase triplicá-los, o que é obra. Mantendo ao longo da campanha uma linguagem calma, lúcida e coerente, conseguiu, sobretudo entre os jovens, que a mensagem passasse. De salientar também o quarto lugar obtido junto dos emigrantes. Além do aumento de votantes, obteve também a vitória de aglomerar em torno das suas ideias (e do Partido IL) um sector importantíssimo da sociedade, tendo em vista o médio / longo prazo. O futuro o dirá.

Vitorino Silva, ou “Tino de Rans” (2,94%) quedou-se pelo mesmo lugar que obtivera nas eleições de 2016. Fica a curiosidade de ter vencido Marisa Matias e João Ferreira em 4 Distritos. Ao invés, perdeu Rans – que ganhara em 2016 –, de onde é natural, para Marcelo Rebelo de Sousa.

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À margem dos candidatos, dos vencedores e vencidos, houve contudo um grande vencedor: António Costa. 

O Primeiro-Ministro, ciente da vitória de Marcelo Rebelo de Sousa, da dispersão de votos socialistas entre um hipotético candidato socialista e Ana Gomes, o fenómeno André Ventura – que também retirou votos aos socialistas – preferiu não apresentar nenhum candidato do PS, apoiar publicamente Rebelo de Sousa e, dessa forma, sem ter que dar a cara e proferir discursos, “anonimamente”, passar despercebido e estar ao lado do vencedor. O habitual malabarismo de Costa, que normalmente resulta e que lhe vai trazendo dividendos, sobretudo porque não existe por parte do (ainda) maior Partido da Oposição uma oposição (passe o pleonasmo) capaz e eficiente. 

Como o CDS e o PSD continuam a ser atingidos pelo vírus do complexo de esquerda, a debandada de votantes para Partidos como o Chega ou a Iniciativa Liberal vai aumentando, o que só favorece o PS. Tudo vai correndo de feição a um Costa que, apesar de, paralelamente, se ir afundando numa completa incapacidade de governar e encaminhando o País para mais uma bancarrota, continua de pedra e cal.

Já o discurso do PS, pela voz de César, alinhou pelo mesmo diapasão dos seus camaradas da “geringonça”, isto é, do BE e do PCP, ficando-se pelo regozijo de André Ventura ter sido terceiro (a índole marxista do PS a funcionar), com a diferença de, com vista a apoiar o líder António Costa, congratular-se com a vitória de Marcelo Rebelo de Sousa. Muito fraco, mostrando o poucochinho que vale este Partido Socialista e as suas gentes.

Não posso terminar sem comentar as atitudes de algumas figuras públicas, face aos resultados.

Houve quem criticasse a postura dos partidos de extrema-esquerda em atacar sistematicamente o Chega, pois dessa forma acabaram por lhe dar mais força, esquecendo-se o mesmo crítico de que, sempre que teve oportunidade, fez o mesmo durante as suas análises semanais; outro (pasme-se!) renegou as suas origens porque o Chega ganhou na terra onde nasceu; e ainda um outro sugeriu que se pensasse em proibir o voto dos emigrantes porque maioritariamente se situam à Direita. Inacreditável, mas verdadeiro. Se a imbecilidade e estupidez pagassem imposto…

Daqui a cinco anos, haverá mais. ■