Novos partidos ameaçam fragmentar Centro-Direita

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Por muito que Rui Rio tente desvalorizar o risco, o novo partido anunciado por Santana Lopes e o projecto “liberal de direita” de Sofia Ferreira podem vir a ter um impacto sério na vida interna do PSD.

Santana Lopes culminou o seu afastamento da liderança de Rui Rio com o anúncio de que admitia abandonar o seu partido de sempre, o PPD/PSD, como faz questão de se lhe referir, e ponderava mesmo a criação de um outro. Uma posição que pode fragmentar o Centro-Direita, que desde o 25 de Abril tem no PSD e no CDS-PP as duas forças partidárias em que se distribui.

É certo que ao longo dos anos existiram tentativas de criar partidos alternativos, como a Nova Democracia, de Manuel Monteiro, que nunca vingaram. Mas o peso político de Pedro Santana Lopes e os seus dotes de tribuno podem fazer deste caso uma situação bem diferente. Um novo partido que recolha uma votação de 5 ou 6% pode fazer mossa efectiva nos partidos tradicionais à direita do PS.

Para já, Rui Rio informou, em recente entrevista na TVI, que a sede nacional não tinha recebido nenhuma comunicação de desfiliação do ex- Primeiro-Ministro e ex-líder do PSD. Rio admitiu que uma desfiliação, a concretizar-se, podia ir buscar alguns votos ao PSD e outros ao CDS-PP, mas acrescentou que, segundo a sua previsão, nada de muito significativo surgiria no xadrez partidário. Confirmou, ainda, que a sua ideia para o PSD crescer é ir buscar votos à abstenção e ao eleitorado de centro que tradicionalmente oscila entre o PSD e o PS.

O actual líder assumiu que “o dr. Santana Lopes faz parte da história do PSD, e faz parte muito mais por bons episódios e bons motivos do que por motivos menos bons, isso é absolutamente inquestionável. Portanto é, como agora se diz, um activo que o partido perde, se ele sair”, afirmou Rui Rio.

Contudo, a eventual criação de um novo partido não é um tema indiferente ao PSD. Claro que não é possível fazer uma ligação imediata entre a quase metade de votos que Santana Lopes arrecadou nas ‘directas’ de Janeiro, que perdeu para Rui Rio, e uma saída em massa de militantes da São Caetano à Lapa para uma nova força política que possa aparecer na vida política. Mas esse novo partido poderá ter impacto sério na vida interna do PSD, por muito que Rui Rio tente desvalorizar esse risco.

A concretização da desfiliação está unicamente dependente da vontade de Santana Lopes, e pode ocorrer a qualquer altura, apesar de existir quem considere que este está na fase de consultar várias personalidades.

Fim de relação

Foi já em finais de Junho que o ex-Primeiro-Ministro, em entrevista à ‘Visão’, assegurou que “acabou” a relação que mantinha com o PSD há já 40 anos. Na mesma altura adiantou que a hipótese de fundar um partido novo não estava posta de parte. “A minha intervenção política não se fará mais dentro do PSD. Isso acabou. É uma relação que acabou. Deixámos de viver juntos”, afirmou, de forma peremptória, o ex-líder ‘laranja’.

Pedro Santana Lopes revelava ainda que estava a ponderar de que forma iria continuar na política: “Não desisto de lutar pelo meu país. Tenho é de ver como é que é o melhor modo de continuar”, indicou. O ex-líder laranja assumiu que, ao longo do seu percurso no PSD, “várias vezes” teve este estado de espírito. E rematou: “Se calhar é melhor fazer uma organização partidária em que eu possa mais à vontade ter a intervenção política que acho que devo ter”.

O certo é que, das vezes em que esteve inclinado para criar um novo partido, não avançou. A primeira vez que o seu nome esteve ligado à constituição de uma nova organização foi em 1996, quando o seu nome surgiu pela primeira vez associado a um novo partido – o Partido Social Liberal, que correspondia exactamente às iniciais do seu próprio nome.

Entretanto, José Pacheco Pereira chegou a revelar, numa edição do programa televisivo Quadratura do Círculo, que em 2011 tinha sido convidado por Santana Lopes para formar um novo partido. Santana admitiria um dia depois, em entrevista ao ‘observador’, que apenas tinha pensado no assunto sem passar à prática: “Não pratiquei nenhum acto — ninguém pode dizer que o fiz — nesse sentido. Os meus actos todos são pelo meu partido (…). No acto de contrição há pensamentos, palavras, actos e omissões, mas eu acho que o pensamento é o pecado mais ligeiro”. Católico convicto, Santana Lopes quis deixar claro que se tratou apenas de um pensamento, mas que continuou perfeitamente fiel ao PPD/PSD.

Nesta terceira vez que a hipótese foi aflorada, o certo é que até ao momento não houve ainda nenhum desenvolvimento palpável. Sabe-se que a criação de um novo partido preocupa muita gente dentro do PSD. Apesar de imperar a regra do silêncio, percebe-se que Marcelo Rebelo de Sousa também ficou preocupado com a posição de Santana Lopes e terá havido uma demorada reunião em Belém. O Presidente da República sabe que Santana Lopes tem peso junto dos sociais-democratas, e que o facto de a liderança de Rui Rio estar a aparecer como bastante frouxa agrava os riscos para a área do Centro-Direita, ainda mais se Santana concretizar a sua saída do PSD.

A hipótese D21

Uma das questões relevantes quando se fala em fundar um partido refere-se aos custos que lhe são inerentes. A única experiência bem sucedida em Portugal nos últimos anos foi a criação do Bloco de Esquerda. Neste caso, o facto de se estar perante a fusão de anteriores organizações partidárias como a UDP, o PSR e a Política XX conseguiu minorar os custos.
À direita, a situação existente é mais complexa e a questão dos custos para se ter um partido que consiga ter implantação nacional poderá ser um quebra-cabeças difícil de se resolver.
Ainda assim, há quem esteja a tentar fundar um novo partido na área política à direita do PS. Sofia Afonso Ferreira, 41 anos, tradicional apoiante do PSD e líder de um movimento cívico alternativo, está a recolher assinaturas para concretizar o Democracia21 (D21), que quer afirmar-se como “um partido liberal de direita”.

A fundadora do movimento D21 explica que o anúncio de não recandidatura de Pedro Passos Coelho “foi um pouco determinante” para que abandonasse a militância social-democrata. Não concordou nem com a candidatura de Rui Rio nem com a de Santana Lopes, e “ficar independentemente de quem ganhasse” não lhe dava “garantias de mudança”.
Sofia reconhece que a nova liderança ‘laranja’ está a falhar. “Não só não constituiu nenhuma mudança como penso que o PSD está a dar passos errados”, diz. A liderança de Rui Rio teve, para Sofia Afonso Ferreira, um “início desastroso”.

Mal Santana falou de criar um novo partido, Sofia Afonso Ferreira, disse ao jornal ‘i’ que gostaria de ver o antigo líder do PSD nas fileiras do partido que se está a formar. “Seria um grande ganho que se juntasse à Democracia21”, confessa Sofia Afonso Ferreira.

No rescaldo da entrevista em que Santana Lopes disse pôr fim à sua relação com o PSD, houve uma reunião entre os dois. Sofia Afonso Ferreira garante que “não existe qualquer acordo firmado com Santana Lopes”, mas estará aprazado novo encontro, ainda sem data.

A verdade é que estamos no mesmo espectro político, argumentou a dinamizadora do Democracia21, que está em processo de recolha de assinaturas para transformar o movimento num novo partido.