Nunca mais vamos poder falar do passado como pessoas normais

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Pode ser o resultado desta era das redes sociais, em que podemos presenciar quotidianamente a maldade e a mesquinhez dos nossos concidadãos, ou pode ser um sinal dos tempos, ou então é apenas o indelével caminho para a decadência que é a maldição dos homens. A verdade é que já nem se pode falar no passado como se fôssemos pessoas normais.

Podia falar nas leis de memória histórica, que proibem qualquer tipo de opinião ou análise histórica contrária à doutrina oficial do Estado, mas vou antes falar de uma dicotomia cada vez mais presente, irritantemente, no nosso dia-a-dia.

Seja através da berraria das associações anti-racismo ou dos grupos de saudosistas do império, a opinião pública está cada vez mais radicalizada no que toca ao nosso passado colonizador.

De um lado temos uma Esquerda radical anti-homem branco que procura impôr sobre o passado expansionista português uma sombra de mácula, como se o homem branco tivesse inventado todas as coisas cruéis e más e todas as formas de opressão e repressão possíveis. Antes do homem branco não havia escravatura, nem conquistas, nem saques, nem desigualdades. Tudo corria em amena cavaqueira. Nada mais falso. Até os tibetanos, já mais que convertidos pelas palavras apaziguadoras do budismo, andavam nos séculos XVI e XVII a fazer razias cruentas pela China e outros vizinhos, à procura de saque e escravos.

Perante este chorrilho de disparates que a extrema-esquerda procura estabelecer como narrativa oficial nas escolas e nas faculdades, à vista de todos e em plena legalidade, assistimos no mundo ocidental a uma reacção altamente perseguida pelos meios de comunicação social, empenhados no ponto de vista oficial. Essa reacção existe nos EUA em jornalistas como Gavin McGiness, que criou os Proud Boys, um grupo que se define como “ocidentais chauvinistas” e que defendem aquilo que consideram a herança ocidental: o capitalismo, as instituições liberais, etc.

Em Portugal também existem grupos que procuram ver no passado colonial português um desfile de gente simpática. Daí partir a ideia de que no império eram os locais que se auto-governavam, que a miscigenação integrava toda a gente no braço espiritual da Coroa, etc., são ideias que partem de um exagero ou de uma interpretação muito generosa do que se passava no terreno durante o Império Português.

Se é inegável que as soluções administrativas dentro do Império Português eram mais “doces” para os nativos do que nos restantes territórios dominados por europeus, isso deve-se também à escassez de recursos da Coroa, que tudo fez para evitar o despovoamento do Reino de Portugal. Para isso foram criadas fortes leis de controlo da imigração que destoam, vivamente, com a pretensão de algumas destas associações lusotropicalistas em criar uma “cidadania lusófona”. Se os reis impediram a livre circulação de homens naqueles tempos, para evitar que Portugal ficasse deserto, também o haveriam de fazer hoje para evitar que Portugal ficasse absurdamente cheio!

Os discursos tornaram-se tão radicalmente rocambolescos que temos de reforçar, em nome da racionalidade, que o Império Português foi, de facto, um sistema de domínio de um tipo particular de pessoas. Não pode haver dúvidas! Porque os reis de Portugal, os líderes desse império, governavam especialmente em prol dos seus súbditos em Portugal, que constituíam a maioria dos seus quadros administrativos, das suas melhores forças armadas e potencial criativo e financeiro! E essas populações, na altura tal como hoje, eram predominantemente brancas. Por isso, negar que o Império português, apesar da sua extensa multiculturalidade e da forma única como aproveitou quadros nativos na administração e na religião, era de facto um Império Europeu criado para Europeus é uma loucura tão grande como determinar que os Impérios Europeus foram os únicos impérios opressores da História do Mundo. ■