Salazar, retrato de corpo inteiro

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Depois de Franco Nogueira, nenhum outro historiador se ocupou, com tanta ciência e tanta dedicação, do estudo da figura de António de Oliveira Salazar como o Embaixador Fernando de Castro Brandão, ilustre colaborador deste jornal. Depois de ter dado já à estampa o essencial da sua vasta obra sobre o estadista, Castro Brandão foi suficientemente generoso para aceder a publicar n’O DIABO, ao longo dos últimos anos, pequenos ensaios parcelares sobre – e citamos o Autor – “aspectos menos conhecidos ou mesmo ignorados da vida e da personalidade de Oliveira Salazar”. É a reunião desses ensaios, acrescentada de três estudos mais extensos, que compõe o livro que o Embaixador Castro Brandão recentemente fez chegar às livrarias, com chancela das Edições Ex-Libris: “Salazar: Faces de um Estadista”, brochado, 672 páginas.

Fernando de Castro Brandão é ourives único de uma especialidade rara. Tendo entrado na Historiografia portuguesa através da difícil porta da Cronologia, que requer uma exactidão a toda a prova, habituou-se a valorizar o detalhe e a minúcia. Trouxe essa escola para os estudos salazarianos – e com esse bisturi soube escalpelizar aspectos da nossa História Contemporânea que outros, por descuido ou leviandade, tinham deixado por tratar. Podem parecer, por vezes, “temas menores”, como refere o Embaixador no prefácio desta sua mais recente obra. Mas precisamente por isso são frequentemente descurados, enquanto vistos à lupa acabam por revelar-se sumamente importantes para a compreensão rigorosa das figuras e dos factos da História. E dá um exemplo flagrante.

Rigor e coragem 

Desde sempre se especulou sobre um alegado romance de Oliveira Salazar com Glória Castanheira, ainda nos tempos de Coimbra, tinha o lente de Direito apenas 30 anos. A especulação passou de autor em autor, sem qualquer investigação, e até o sóbrio e escrupuloso Franco Nogueira caiu na tentação de admitir ter existido “uma relação entre o então Professor da Universidade de Coimbra e aquela Senhora da sociedade local e admirada pianista amadora”. O caso poderia parecer menor, mas com base nele sucessivas gerações de historiadores pretenderam fixar a imagem de um jovem Salazar “namoradeiro” enquanto permaneceu na cidade do Mondego. Insatisfeito perante a escassa evidência da tese, Castro Brandão fez aquilo que todos os outros deveriam ter feito: indagou sobre a identidade de Glória Castanheira até lhe obter um retrato palpável. “Pois bem”, conta o Embaixador no seu livro, “graças a uma pesquisa aturada veio a descobrir-se que D. Glória Castanheira era uma anciã, para a época, de 53 anos” – sendo fácil concluir que “no burgo coimbrão da altura seria impensável que uma dama daquela idade pudesse ter a estultícia de, sequer, alimentar um idílio com um cavalheiro 23 anos mais novo!”. A importância que pode ter algo aparentemente tão banal como a idade de uma pessoa…

A par do rigor, a obra de Fernando de Castro Brandão distingue-se da mediania pela frontalidade na abordagem. Ao contrário da cegarrega de pretensos historiadores que hoje dominam pelo ruído ideológico a Historiografia, a Universidade e a edição livreira, o Embaixador rejeita liminarmente “a mentira, a adulteração ou o embuste que campeiam nos juízos detractores de quantos fustigam a memória” de Salazar, assumindo por isso “uma interpretação despida da actual e generalizada atitude de crítica acintosamente falseada, se não ferozmente pejorativa”. 

Esta coragem, não apenas intelectual mas também cívica, dá-lhe alento para justificadamente esperar que o seu labor investigativo ajude as gerações vindouras a questionarem a narrativa unissonante com que hoje ainda se aborda Salazar e o Estado Novo. Que não restem dúvidas: a obra do Embaixador Fernando de Castro Brandão é, já hoje, uma fonte pura de saber que nenhum investigador sério pode ignorar.

Alguns amigos
e Christine Garnier

“Salazar: Faces de um Estadista” é composto por 46 estudos breves (cada um deles com uma dezena de páginas, em média), a que o Autor acrescentou três trabalhos inéditos, um pouco mais extensos e por isso dificilmente publicáveis em páginas de jornal.

Um desses textos novos analisa em detalhe a relação de Oliveira Salazar com o jurista e diplomata falhado Manuel Anselmo. Se no que respeita a Salazar ficamos a conhecer melhor a sua proverbial atitude de prudência e recato, já no caso de Anselmo o estudo de Castro Brandão desvela-nos o perfil incisivo de uma das figuras mais enigmáticas da Direita salazarista, homem polémico e truculento que fez correr rios de tinta durante décadas de Estado Novo mas que muito poucos conheceram no pormenor agora oferecido nesta obra.

Um segundo texto inédito ocupa-se dos amigos de Salazar, aqueles com quem o Presidente do Conselho partilhou momentos da sua vida pessoal ou transes íntimos do seu percurso de estadista, desde o Padre Gonçalves Cerejeira, velho companheiro de Coimbra e depois Patriarca de Lisboa e Cardeal romano, até Mário de Figueiredo, companheiro no seminário de Viseu e mais tarde jurista e figura grada do Estado Novo (os dois únicos, com o pouco conhecido José António Marques, a tratar Salazar por ‘tu’). É um capítulo admirável de investigação, que mostra a seriedade com que o Presidente do Conselho encarava as suas relações pessoais, algumas bem surpreendentes ou inesperadas.

O terceiro capítulo inédito debruça-se longa e minuciosamente sobre o encontro do estadista com a jornalista francesa Christine Garnier, a propósito da preparação do livro “Vacances Avec Salazar”, e acompanha a evolução dessa relação através dos anos. É um dos textos mais interessantes desta obra, não por qualquer “picante” que possa conter, mas pela serena análise da personalidade profunda de António de Oliveira Salazar, da importância política que concedia à comunicação e da separação estrita (até mesmo financeira) que interpunha entre a esfera privada e a vida pública.

Os restantes 46 capítulos já o leitor habitual d’O DIABO pôde ler nestas colunas de jornal, ao longo dos anos, embora constitua agora um prazer suplementar o poder saboreá-los de seguida, na lógica com que originariamente o Autor os concebeu.

Público e privado  

O primeiro de todos reforça a faceta de exactidão e rigor presente em toda a obra de Castro Brandão, e que começámos por referir no início desta recensão: trata da data da queda, no Forte do Estoril, em Agosto de 1968, queda essa que haveria de inutilizar Salazar para a governação e determinar a sua morte, dois anos mais tarde. O dia em que esse acidente doméstico terá ocorrido revela-se, aqui de novo, de uma extrema importância, pois não só tem sido fonte de discórdia entre historiadores como marca o fim de uma era na História portuguesa contemporânea. Se dúvidas havia sobre essa data precisa, elas ficam cabalmente esclarecidas neste livro.

O apego do Presidente do Conselho ao torrão natal, a aldeia de Vimieiro, no concelho beirão de Santa Comba, e em especial à sua Quinta das Ladeiras, merece outro capítulo. Salazar tencionava passar ali, em sereno retiro e gozando os simples prazeres rurais, os últimos anos da sua vida – mas infelizmente não lhe foi concedido esse descanso: depois de cair doente, já só regressou à terra para lá ser sepultado.

As relações de amizade de Salazar com diversas Senhoras são cuidadosamente estudadas nesta obra, com realce para Mercedes Feijó, Christiana Garton, Carolina dos Passos Freitas (“a senhora madeirense que oferecia orquídeas a Salazar”), as já citadas Christine Garnier e Glória Castanheira, sem esquecer Felismina Oliveira, por quem teria tido uma paixão platónica, ainda seminarista.

Mas também as relações que manteve com personalidades públicas do seu tempo são aqui passadas em revista – e citem-se, a mero título de exemplo, o Rei Carol da Roménia, o Príncipe Regente da Bélgica, o complexo Manuel Rodrigues Júnior ou o fiel Bissaya Barreto. A amizade entre o estadista e este último, antigo membro da Carbonária e maçon, republicano dos sete costados, é objecto de um dos mais elucidativos textos do presente livro.

Para o leitor que procura aspectos mais políticos, o trabalho do Embaixador Castro Brandão oferece temas do maior interesse: as relações do Presidente com os monárquicos, a “Abrilada” do general Botelho Moniz, em 1961, a ‘entente’ triunfadora que constituiu com Duarte Pacheco, os encontros com o Generalíssimo Franco, entre outros.

Numa vertente mais pessoal, destaquem-se os estudos sobre Salazar e o seu escrúpulo das contas certas, as casas onde viveu, a sua saúde frágil, os veraneios no Forte do Estoril, o dia-a-dia na residência oficial, as suas incursões juvenis pela Poesia, os automóveis da Presidência do Conselho, a sua proverbial probidade, etc.

No conjunto, “Salazar: Faces de um Estadista” é mais uma obra de grande fôlego saída da pena do maior especialista actual em Oliveira Salazar – com a particularidade de poder ser lido fraccionadamente, sem com isso se perder a unidade de um livro que nos oferece um retrato de corpo inteiro do homem e do estadista que durante 36 anos presidiu aos destinos de Portugal. ■