Consta que os chineses de antigamente eram gajos de muita sabedoria e donos de uma paciência sem limites, passando horas a fio a jogar Mikado ou Mahjong. Os mais introspectivos ou dados a contemplações de nível mais espiritual faziam jardins de pedras, desenhos com areia, aparavam bonsais ou construíam muralhas infinitas (neste caso, não estou propriamente certo que tenha sido por opção ou passatempo). Uns outros dedicavam-se à filosofia e a alvitrar uns ditos que ficam para a posteridade como sainete de elevada sapiência quando nos perguntam algo cuja resposta pode ser incómoda. Está um desgraçado com a torrada já meio na boca e leva, de rajada, com a questão:
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Então? Achas que 424 é muito ou pouco?
Antes de reflectir se o inquiridor se está a referir à potência do novo Tesla, ao número de jogadores contratados pelo Benfica no consulado do Vieira, ou a outra coisa qualquer, cauto e precavido, lança um:
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“Uma pedra preciosa não pode ser polida sem atrito, nem nós podemos ser aperfeiçoados sem provações”.
E, ainda está o gajo incrédulo a tentar encontrar o nexo da coisa, aproveitando o marasmo, investimos novamente:
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“Encontramos o nosso destino onde nos escondemos para o evitar”.
Pumba! K.O. técnico, sem sequer lhe tocar ao de leve e com a garantia de podermos embrulhar o resto da torrada em sossego.
Um desses adágios, quase tão popular como as lojas de chineses na Varziela, é o célebre: “Se vires um homem com fome, não lhe dês um peixe, mas ensina-o a pescar. Assim, ele não terá comida para um dia, mas para a vida toda”. O PS anda, porém, arredado dos longevos ditos orientais e postula uma filosofia muito mais moderna: “se vires um homem faminto, enxofra-o de RSIs, abonos, subsídios, apoios e todo um manancial de benesses para que ele se possa empanturrar com ‘Big Macs’…”. E, nesta maioria, aprimoraram a máxima para: “se vires um homem comer a seu bel-prazer, taxa-o até que ele fique faminto para que o possas enxofrar com RSIs e afins”. O PS percebe bem a economia de mercado, tão bem que concebe que os familiares dos governantes sejam os donos das cadeias de “fast-food”, garantindo, assim, os faustos repastos aos seus…
O que o PS não percebe é a economia de escala, ou seja, quando todos forem pobres e improdutivos, nem as grandes cadeias sobrevirão… O que será sempre uma boa altura para culpar o Passos…
Olhando para os números:
Em 2021 eram mais de 262 mil os portugueses que beneficiavam do RSI, 41,5% dos quais tinham menos de 25 anos de idade. Estes dados são preocupantes por diversas razões. Desde logo, porque o RSI deveria ser um apoio extraordinário e de carácter excepcional que só deveria operar quando o caso em análise não “coubesse” nos outros apoios institucionais que deveriam funcionar prima facie. A segunda questão – e quanto a mim ainda mais preocupante, já que não se trata de opção política – é o facto de a “fatia de leão” desse apoio se destinar a jovens com menos de 25 anos. Ou seja, o Governo não consegue dar competências funcionais a quem acaba de terminar os estudos, por forma a que estes sejam “acolhidos” no mercado de trabalho. Não se julgue, porém, que o problema é meramente formativo (ou da falta dela), já que são inúmeras as empresas a reclamar pela falta de mão-de-obra e que, em muitos casos, não se trata sequer de profissões ou trabalhos que requeiram especiais competências ou formações. Porém, a perversidade do sistema assistencialista faz com que estes jovens não procurem uma vida produtiva, mas que acarreta horários, ordens e responsabilidades e optem por se manterem ao cuidado do Estado, ocupando-se no ócio que nada lhes cobra.
E neste atirar dinheiro para os problemas importa sublinhar que 6% dos portugueses não conseguem sequer assegurar uma refeição de peixe ou carne de dois em dois dias… Também aqui – nestas realidades que o socialismo e a comunicação social fazem por esconder – vale a caridade de terceiros e a abnegação de um número de organizações assistencialistas não estatais, de carácter voluntário, que suprem tais necessidades.
O que o Governo socialista fez foi aumentar o número de agregados familiares com rendimentos mais baixos, em que cerca de 40% desses agregados vivem com menos de 833 euros mensais e 13,4% com menos de 416€/mês. Quase 70% das famílias declararam rendimentos brutos inferiores a 19 mil euros/ano, ou seja, 1.583€ por mês. Todos estes números têm crescido de forma exponencial no consulado de Costa, bem como o número de pessoas em risco de exclusão social (mais 12,5% em 2020 do que em 2019).
Costa que leva ainda a medalha de colocar Portugal no segundo lugar da Europa relativamente à percentagem da população que vive em alojamentos com más condições (mais de um quarto da população portuguesa) e em 5º no que respeita à falta de condições de aquecer devidamente a sua habitação… O que fez este iluminado PS? Desceu os impostos de determinados materiais térmicos? Não! Isentou de taxas as construções que apresentassem elevados índices de eficiência energética? Não! Concedeu benefícios de mecenato às empresas que oferecessem donativos neste sector? Também não! Optou por criar um programa confuso no qual obrigava as pessoas a suportar o investimento inicial, sendo reembolsadas a posteriori de parte desse investimento, conquanto que se verificassem uns determinados pressupostos, entre os quais o registo de empresas para poder prestar tais serviços, as quais, obviamente e seguindo a lógica de mercado, fizeram repercutir parte desse benefício no custo final do serviço.
E pergunta-se:
Esperava o PS que fossem os desgraçados que não conseguem sequer comer dignamente que investissem em aquecimento, bombas de calor ou painéis solares? Mas em que universo vive esta gente?
Mesmo numa altura em que falar de padres é assunto sensível, conviria que estes iluminados lessem o sermão do padre António Vieira aos peixes em vez de lançarem pedaços de pão para o rio na expectativa de depois lançarem as redes…
Também Marcelo o poderia revisitar. Afinal, não é assim tão grande: são menos de 400 páginas! ■




